Dá para entender a tentação de fazer uma biografia de Elon Musk. É um personagem rico em diversos aspectos, inclusive no óbvio: sua fortuna é hoje a maior do mundo. O sul-africano foi responsável por uma guinada tecnológica que afetou o futuro da exploração do espaço pela humanidade, a mobilidade sustentável com os carros elétricos da Tesla e o panorama das mídias sociais com a compra do Twitter, hoje X.
Mas é uma tentação que vem com espinhos. Musk é um homem volátil, marcado por vaidade aguda e propensão à fanfarronice, e sua carreira ainda está longe de ter um desfecho - na verdade, ele parece estar no auge de seu poder agora mesmo. Nessas condições, é mais difícil escrever um livro coerente e distanciado. Mas a isca foi mordida por um dos biógrafos mais célebres do mundo, o americano Walter Isaacson, 71 anos. Já responsável por perfilar símbolos da inovação como Leonardo da Vinci, Steve Jobs e Jennifer Doudna, o jornalista acompanhou Musk por anos a fio, com acesso a reuniões privadas e a horas de entrevistas.
O livro "Elon Musk", de mais de 600 páginas, teve lançamento mundial em setembro, inclusive no Brasil.
PERGUNTA - Elon Musk se envolveu há pouco em mais uma crise disparada por algo que postou no X e fez anunciantes fugirem. Qual a relação entre a inclinação de Musk ao risco, como homem de negócios, e seu comportamento?
WALTER ISAACSON - Musk toma uma quantidade enorme de risco. Ele é muito impulsivo, não se contém e tuíta coisas horríveis às vezes, mas também é o homem que lança foguetes em órbita. Ao tentar entender uma pessoa complicada, podemos pensar como seria legal se ela tivesse um botão de autocontrole, mas talvez essa outra pessoa não nos levasse à era dos veículos elétricos ou das viagens espaciais. É tudo parte do mesmo tecido. Esse retrato não acaba perdoando seus comportamentos? Cada pessoa tem que decidir o que perdoar ou não. Meu objetivo é entender o que ele faz, não desculpar.
P - Livros como o seu podem corroborar a ideia de que algumas pessoas fazem a história com as próprias mãos, mas sabemos que contextos históricos e estruturas sociais ajudam a produzir as pessoas que lemos nas biografias. Acredita que de fato há indivíduos excepcionais?
WI - A história sempre teve um equilíbrio de ideias como a de Thomas Carlyle, que acreditava que grandes pessoas influenciam a história, e a de Liev Tolstói, que dizia que grandes forças moviam a história. Claro, a resposta é que os dois estão certos. Eu escrevi um livro chamado "Os Inovadores", sobre como o trabalho em equipe nos anos 1960 e 1970 produziu a revolução dos computadores. Contrasta com minha biografia de Steve Jobs, que é sobre como ele e Steve Wozniak fizeram a Apple numa garagem. Não é uma questão de "ou isso ou aquilo", mas até que ponto pessoas influenciam a história.
P - Musk parecia ter uma visão anárquica da política até adotar um discurso anti-woke muito vocal nas redes sociais. Como foi o desenvolvimento de Musk de alguém distante da política para alguém que quer interferir no debate público?
WI - Nos últimos três anos ou algo assim, Musk foi de um democrata centrista que apoiou Obama, Hillary e que votou em Joe Biden em direção à direita populista. No Brasil, na Argentina, por exemplo, houve o crescimento de um populismo que é reação a muita coisa, incluindo a esse sentimento "woke". É difícil de definir, mas Musk sabe bem o que quer dizer quando fala disso. É uma ideologia progressista contra a qual ele se insurgiu. Entre as muitas razões para esse posicionamento anti-establishment há seu rompimento com o Partido Democrata, depois que Biden o atacou, e a transição de sua própria filha, que mudou de sobrenome e se tornou uma marxista que odeia os capitalistas. Há explicações pessoais e políticas para essa mudança.
P - Na inteligência artificial, os intelectuais parecem se dividir entre os que querem apertar o acelerador para ver onde essa tecnologia pode nos levar e os que querem apertar o freio, preocupados com os danos que ela pode trazer à humanidade. Onde está Musk nesse espectro?
WI - Sabe, quando Musk era criança, ele era muito esquisito socialmente, não tinha amigos. Ele ficava sentado o dia todo lendo ficção científica, como os livros de Isaac Asimov sobre a possibilidade de os robôs se voltarem contra nós. Então, ele se convenceu de que uma de suas grandes missões era fazer com que robôs fossem seguros. Ele acorda todo dia pensando no risco de construirmos tecnologia que vai prejudicar a humanidade. Quando ele anda nas fábricas que constroem robôs, ele pergunta: "Como fazemos um botão de parar tudo?".
P - O sr. trabalhou por muito tempo como editor na revista Time e chefiando a CNN nos Estados Unidos. Como está hoje a relação entre a mídia tradicional e as mídias sociais?
WI - Olha, eu sou a encarnação da imprensa tradicional, e nós éramos "gatekeepers", ou seja, todo dia decidíamos o que iria para a capa da Time ou qual seria a principal reportagem da CNN. Era uma elite da mídia da qual tive sorte de ser parte. As redes sociais vieram para tirar o poder de pessoas como eu, os editores de revistas, jornais e canais de televisão. Todo mundo podia veicular suas opiniões por aí. É uma coisa ótima, democratizante, empodera os indivíduos e garante que pessoas como eu não possam mais controlar as informações que as pessoas recebem. E, como toda coisa boa, trouxe junto um monte de bagunça. Quando Gutenberg inventou a imprensa, democratizou como a informação circulava na época, o que colaborou com a Reforma Protestante, com guerras religiosas, com o Renascimento. Temos que reconhecer que nós, que comandávamos a mídia tradicional, cometemos erros às vezes. Agora há muita desinformação por aí, mas eu não voltaria a um sistema em que uma ou duas centenas de pessoas controlavam a informação no mundo. Benjamin Franklin disse que basta ficar um pouco mais velho para perceber que, às vezes, você estava errado.