TURISMO

Bonito e Pantanal combinam turismo ‘raiz e Nutella’

Por Anna Virginia Balloussier |
| Tempo de leitura: 4 min
Agência Envolverde
Patrimônio natural da humanidade, Pantanal guarda biodiversidade única
Patrimônio natural da humanidade, Pantanal guarda biodiversidade única

Que tipo de turista você é, raiz ou Nutella? O primeiro tende a abraçar experiências mais cruas para extrair um gostinho local da "vida como ela é". Para o segundo, digamos que conhecer outras culturas é lindo, mas se for para passar muito perrengue, melhor nem sair de casa.

Sinceramente, não há mal algum em entender qual o seu estado de espírito para as férias. Uma viagem por Mato Grosso do Sul pode, inclusive, mostrar as vantagens em combinar o melhor dos dois mundos.

A primeira parada é Bonito, com atrações turísticas que fazem jus ao nome da cidade. O Zagaia Eco Resort, onde a reportagem ficou hospedada, é uma daquelas opções de estadia que comportam de tudo: famílias com criança, excursão de velhinhos, casais apaixonados e despedidas de solteiro, às vezes todo mundo junto e misturado na mesma piscina aquecida indoor, bebendo seus Toddynhos ou caipirinhas.

Há quartos em que só o banheiro é maior do que muito studio para alugar em São Paulo. A depender, claro, do quanto se está disposto a desembolsar. Cinco diárias para dois adultos podem superar os R$ 10 mil, valor que as rapaduras de cortesia bem que tentam adoçar. Mas que a sinfonia de passarinhos na janela pela manhã ajuda, isso ajuda.

Dá para passar o dia no hotel, que oferece versões light do turismo ecológico, como trilhas, árvores carregadas de amora e pescaria no estilo pegue-e-solte. Para isso se aluga por R$ 30 uma vara de pescar que, na internet, compra-se por menos que isso. Tudo bem, ser turista tem dessas.

Não que as alternativas de passeio na área deixem a agenda livre. O Buraco das Araras é uma delas. Trata-se de uma depressão com 500 metros de circunferência e 100 metros de profundidade, formada após o colapso do teto de uma caverna milhares de anos atrás.

Araras usam as fendas da encosta para montar ninhos e se reproduzir, um mix de maternidade e motel. Como muitas aves, só têm um par pela vida toda, embora na tarde em questão a reportagem tenha testemunhado um trio não monogâmico ziguezagueando pelo céu. O guia conta que no passado, sem qualquer regulamentação ambiental, o local era usado para atividades nada lícitas. O pessoal ia dar tiros por esporte, improvisar lixões e até desovar cadáveres. A carcaça de um carro Brasília que despencou (ou foi despencado) décadas atrás continua lá, escondido pela vegetação.

Outro buraco para se enfiar é o Abismo Anhumas, uma das incursões mais caras da região. São R$ 1.350 para fazer flutuação (boiar de colete salva-vidas e snorkel) e R$ 1.800 para os adeptos do mergulho.

É uma aventura com mordomias: não faz muito tempo, quem quisesse chegar ao interior da caverna, até se deparar com um lago cristalino, precisava dominar o rapel. Agora, não. Uma cadeirinha elétrica desce a pessoa por quase 80 metros, o que é desaconselhado para grávidas (as cordas podem apertar a barriga), crianças pequenas e fóbicos de altura.

Embaixo há um deque com banheiro e trocador, onde se veste um macacão de neoprene mais justo que muito modelito da Kim Kardashian. Guerreiros são os que dispensam a roupa de borracha, antídoto térmico contra uma água com temperatura média de 18º°C.

Há opções mais amigáveis ao público infantil, como a flutuação por rios translúcidos, onde em julho turistas avistaram uma cobra sucuri de quase sete metros.

PANTANAL
A quatro horas de carro fica a segunda perna da viagem, no Pantanal Jungle Lodge, hotel em Corumbá (MS), mas afastado de maior infraestrutura urbana. É uma experiência mais rústica, ainda que tenha lá seus confortos, como ar-condicionado nos quartos.

Sem restaurantes badalados por perto, faz o estilo pensão completa, com todas as refeições incluídas na diária de R$ 780 para um casal. Comidinha honesta e saborosa no primeiro dia, o almoço foi costela de pacu frita, arroz, feijão, farofa, bife acebolado, abóbora e salada, mais doce de figo para arrematar. Sempre acompanhadas por um guia, que de manhã oferece o cardápio do dia, as atrações também são contempladas na diária. Vai de cada um decidir o grau de aventura que quer encarar.

A pescaria é feita na beira do rio Miranda, em frente ao hotel, entre capivaras e tuiuius (a ave-símbolo do Pantanal, de pescoço vermelho e bico preto) que correm solto pelo gramado.

Mais intrépidos são os que acampam uma noite no meio do mato. Um perigo algo controlado, claro, mas sempre sujeito a contingências.É quando escurece que fica mais fácil de ver onça nas margens, embora o evento seja bem esporádico. Tentar achar uma lembra aquela antiga brincadeira do Fusca azul, quando você dava um soquinho na pessoa ao lado se passasse na rua um carro desse modelo e cor.

A reportagem não avistou uma onça que fosse, mas se deparou com um céu estrelado que deixa qualquer pintura de Van Gogh no chinelo.

O Buraco das Araras é um dos pontos que merecem ser visitados em Bonito (crédito: Reprodução)
O Buraco das Araras é um dos pontos que merecem ser visitados em Bonito (crédito: Reprodução)

Comentários

Comentários