OPINIÃO

Quando o Amor Adoece…

Por Leandro Lopes |
| Tempo de leitura: 2 min
Advogado

Algumas reflexões, destituídas da pretensão de editar valores éticos oponíveis aos outros, merecem ser compartilhadas, inclusive para que sejam contraditadas e melhoradas. Neste espaço, com absoluta isenção editorial, o Jornal da Cidade nos oportuniza.

A princípio, falaria das guerras. Ouvi relatos de pessoas despedaçadas e de outras, em processos de refazimento. Resolvi, então, escrever sobre família, amor e desamor. Da constatação das várias formas de mutilação, não demorou quase nada para que a conexão dos assuntos se rasgasse evidente.

Ao término da 2ª Guerra Mundial, o advento da ONU, a proclamação dos Direitos Humanos e os anúncios de seus sistemas garantidores e/ou protetivos criaram falsa sensação de segurança no ambiente internacional. Na prática, algumas missões humanitárias se concretizaram para nos convencer de que alcançaríamos a paz. A teoria, no entanto, ainda é utopia.

O sentimento de pertença a um país e respectiva nacionalidade ou, minimamente, a um grupo de pessoas (por afinidades culturais, econômicas, políticas e religiosas) sedimenta aquilo que se designa "ideologia". A ideologia individual, porém, só existe concomitante à ideologia coletiva. Ao aderir a qualquer ideologia, o ser humano renuncia a uma parcela de sua liberdade, sucumbindo à ilusão da proteção ofertada pelas unidades criadas.

Em infinitas menores proporções, ao constituírem famílias ou ao pactuarem relações amorosas, as pessoas são movidas pelas necessidades inatas de autoproteção e autopreservação. De forma semelhante aos "nacionais" que renunciam liberdade, cada qual abre mão de desejos e projetos individuais, ante ao surgimento de ideais coletivos. "E todos foram felizes para sempre", no legado dos contos de fadas, dos finais felizes que reputamos quase impossíveis e, involuntariamente, queremos alcançar.

Desde as diminutas relações, os processos de dependência lapidam ou dilapidam o elo que estabelece os vínculos. Alguns o chamam de amor. Sou destes. Ouso ainda mais: o amor também é uma ideologia. As intempéries naturais ou sociais, de procedências variadas, são instrumentos de burilamento do amor, delimitando se tão nobre sentimento estará fadado à lapidação ou dilapidação.

Alguém já ouviu falar de lares desfeitos por atos de traição? Acreditaria que questões patrimoniais, a exemplo da divisão de uma herança, seriam motivação para dissolução de uma família? Nos hospitais, não raro, os leitos de enfermaria são ocupados por seres solitários, mas que foram servíveis, outrora. Talvez até façam jus ao abandono e os seus não sejam tão terríveis. Tudo depende.

Não há complexidades para o entendimento das guerras, se concebemos que as relações internacionais se equiparam, em justificação e atrocidades, às relações mais cotidianas que, impreterivelmente, vivenciamos. A literatura ensina que a família é a célula-mãe da sociedade. Semelhante afirmativa envolve outra: quando o amor adoece, uma guerra está declarada.

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