As palavras carregam ideias, entram no sangue, correm pelas veias, chegam à cabeça, destino final. A gente sabe, dependendo da toxidade, a cabeça pode se contaminar e adoecer. Na vida, como em qualquer avenida, tendo mão, haverá contramão. Na teoria dos dois lados, se ler é perigoso, ao mesmo tempo é fundamental. É oxigênio, toda cabeça precisa respirar. Lendo, saio de mim, arrebento as paredes que me encarceram, descubro o outro que diferente pensa de mim. Então, aprendo o inimaginável, descubro o impensável, concordo e discordo, brigo com o autor, pouco me importando a fama e o tamanho que tiver.
Na verdade, ler só é perigoso quando se lê epidermicamente. Apenas com os olhos, sem o texto questionar. Ler se faz pensando. Desconfiando. Percebendo a armadilha das entrelinhas, casca de banana pronta pra derrubar. Ler se faz levantando a ponta do tapete, que a sujeira mora lá. Sedutoramente maquiadas, as palavras são movidas por escusos interesses. "Cada macaco no seu galho" alardeiam os que confortavelmente se instalaram nos melhores galhos.
Não por outra razão, os tiranos temem não só a leitura crítica, mas também a educação libertadora, a cultura questionadora, as artes, tudo, enfim, que cutuca a ferida e faz pensar. O filósofo Bertrand Russel, em sua obra Princípios da Reconstrução social, publicada em 1916, mimetiza a fala autocrática: "Deve o trabalhador pensar livremente sobre a propriedade? Então o que acontecerá a nós, os ricos? Devem os homens, mulheres e jovens pensar livremente sobre o sexo? Então, o que será da moralidade? Devem os soldados pensar livremente sobre a guerra? Então o que será da disciplina militar? Fora com o pensamento! Voltemos à obscuridade do preconceito, para que a propriedade, a moral e a guerra não fiquem em perigo!"
Nada mais desejável que as escolas ensinem a ler, mas ler pensando. Não só o que se escreve por cima, mas também o que, malandramente, se esconde por baixo. Lendo e pensando, a árvore é balançada democraticamente para a alegria dos macacos.
escolha sua cidade
Bauru
escolha outra cidade