OPINIÃO

Círculos de um nome

Por Olynda Bassan |
| Tempo de leitura: 3 min
Membro da ABLetras

Lança-se uma pedra nas águas e se visualiza um espetáculo intrigante e significativo. Enxergamos os círculos ao redor da pedra mas, aqueles que se distanciam, procurando a margem, fogem da visão na sua amplitude, mas estão lá. Assim é o nome da cidade de Bauru. Ele espalha - se pelas ondas do mundo, nas pregas do tempo. Registro de eventos, de pessoas ilustres, de fatos marcantes engrandecem a nossa cidade, nos rincões de sua construção - Nossa História - Memória.

Ainda existem os trilhos cortando o solo da cidade - reminiscência de um passado pungente, rico de chegadas e partidas. Estação Ferroviária abarrotada de gente, trazendo o progresso na edificação da cidade.

Entrelaçamento das três ferrovias, não é para qualquer cidade. Três cores de locomotiva tingiam Bauru, no ziguezague dos dormentes. Na fumaça das caldeiras, no silvo de um apito - nossa saudade. Foram círculos!

E o tempo passou... Hoje, por certo, as ondas que se propagam em círculos largos e longínquos é o nosso "Centrinho". Centro de Reabilitação Crânio Labial, USP. Orgulho sem fim.

Bauru além de seus muros.

"Centrinho" - Renovador de um rosto, da autoestima, da inserção à sociabilidade, autoconfiança. E não é apenas a questão estética, mas a qualidade de vida nos distúrbios da respiração, da fala, audição, nutrição, infecções crônicas, dentição. São anos de idas e vindas de crianças e adultos, família de lugares distantes em busca da eficiência do tratamento, da cura, na marca de apenas de uma cicatriz.

Outorgado com prêmios internacionais no campo da pesquisa, no aprimoramento das técnicas de fissura labial e fenda palatina, em abordagem multidisciplinar.

Nosso querido escritor Rubem Alves conviveu nessa realidade, sendo pai de um paciente com fissura labial. Escreveu e ministrou a palestra "O Sentido da Vida". Descobre ser a sala de espera mais democrática, já visitada. Não há o silêncio velado, o medo da nudez revelada. Ninguém tem receio de olhar para o outro. São iguais. Contam experiências.

Em qualquer parte do corpo as imperfeições são encobertas pelas vestes, na face, é estampada ao vento. Ali, todas as diferenças desaparecem. Está presente uma amostra da sociedade brasileira: negros, mulatos, brancos, rostos com traços de índio, olhos puxados orientais. Sotaques de um Brasil de norte a Sul. Cantam o rural, o urbano, o caipira, o intelectual. O falar, o escrever não entram no prontuário do paciente.

"Mas, são nos pés, em que todas as diferenças perdem o sentido. Contam as histórias por onde andam, caminho de terra, de tapetes macios. Sandálias havaianas, tênis Nike, alpercatas, botinas, sapatos rústicos, sapatos de verniz. Ao serem internados, um conga azul, marcas da igualdade. E tudo pelo mesmo preço - nada."

Não há segredos, não há prioridade pela conta bancária. Nas pessoas, a experiência fraterna, envolve o espaço. São tratados pelo sofrimento de um erro da Natureza. "O corpo que a natureza feriu é o pão eucarístico que se come". O socialismo sonhado e nunca vivido.

Enquanto Instituições da Saúde desmancham-se, existe o "Centrinho", recolhendo as preocupações da mãe grávida, que se pergunta sem mesmo querer "Será que vai ser perfeito"? Probabilidades existem para o certo e para o errado. Na formação de um corpo são milhões de combinações no lugar certo, na hora certa. Nas combinações: uma criança com fissuras, nasce. A família convive e ama, ama... depois do espanto. A dor mais doída é encarar o olhar curioso, de pena, do outro que não deixa esquecer do caminho a ser trilhado, vencido nas diferenças de um rosto.

São sempre cisnes, fazendo revoada com suas asas imponentes, no rio chamado Centrinho. Você, que faz parte dessa equipe competente, zelosa. por certo, traz na memória tantos rostinhos, tantos sorrisos e olhos brilhando na alegria de um abraço de gratidão.

Tudo passa... Esse dia chega. Até um dia.

Há um pedra irradiando círculos nas águas mornas, acolhedoras do "Centro de Reabilitação Crânio Labial" - USP. A equipe médica, a enfermagem, setor administrativo, recepção, manutenção, informática, arte, dança, teatro, atividades lúdicas... temperam essa água, enchendo as talhas de amor, saciando a sede de quem chega. São tantas sedes...

Vale a pena lutar pela utopia da fraternidade.

(Crônica publicada no livro "Bauru de Todos nós")

Comentários

Comentários