Uma época fui fazer um curso na Aliança Francesa. O professor pediu uma redação sobre o Dia de Finados. Lembro até hoje do começo da minha: "Le jour des morts était, pour moi, um jour de fête". E era. Naquele tempo, as pessoas que eu amava estavam todas vivas. Meus avós maternos morreram quando minha mãe era menina. Eu não ouvia falar quase nada deles. Minha avó paterna morreu poucos anos antes de eu nascer. Dela diziam que era professora, tocava piano e pelo retrato oval na parede da sala eu deduzia que era brava.
Restava meu avô paterno, que gostava de lecionar, de escrever e de fazer "discursos". Hoje em dia se diz palestra. Havia também meus tios e tias, primos distantes porém próximos e etc. Todos vivos e falantes, e lá íamos nós bracejando ramos pesadíssimos de palmas e carregando quiçá um balde e um pano seco, vai que a moça da limpeza não tivesse feito as coisas no capricho. Eu não gostava de palmas, mas minha mãe e minhas tias desprezavam os crisântemos que coloriam a maioria dos outros túmulos. E elas é que sabiam das coisas.
O túmulo da família da minha mãe era bonito, em granito negro e uma cabeceira em forma de fatia de bolo, eu achava. Minha tia sempre pegava um raminho ( bem pequeno) de palma e colocava sobre uma campa desbotada que ficava perto. Dizia que era da "madrinha", ou seja, sua avó, assim chamada porque era madrinha de batismo de todo neto primogênito.
Depois a gente saía e passeava pela avenida onde havia umas árvores enormes, de onde explodiam favas que forravam o chão. Nós, crianças, que naquela época nos divertíamos com tão pouco, ficávamos juntando favas enquanto esperávamos o ônibus. Aqui a memória misturou lembranças de cidades diversas, mas que importa! Assim foi minha infância.
Até que chegou a hora de acabar a festa. Aprendi que finados queria dizer mortos e fui vendo uma a uma aquelas vidas se esvaírem. Meu tio de São Paulo, e minha tia, sua mulher, com a casa cheia de bibelôs e até lustre de cristal... e fronhas de travesseiros com botões em xadrezinho e banheiro verde e preto com chuveiro a gás.
E foi a vez da minha mãe (ou terá sido antes, já que morreu nova?), e o avô (estou me perdendo toda na cronologia), outras tias e tios e até a Zaia, misto de empregada, ama, amiga, um pouco mãe, adotada pela família do meu pai e que era a única (eu lembro) para quem eu podia contar tudo o que acontecia, enquanto ia lambendo os dedos que ela me deixava passar no que restava de alho e sal no pilãozinho de madeira, e ela só dizia, com seu riso de bondade que era como abraço: Essa Cá...
Essa Cá já não se abaixa pra colher as favas nem tropeça sob o peso das inúteis palmas. A memória já traz coisas que a vida nem devia, talvez, autorizar. O professor de francês achou estranho o começo da minha redação. Mas naquele tempo até fazia sentido. Agora não faz mais.
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