OPINIÃO

Formosa Morena

Por Alfredo Enéias Gonçalves d'Abril |
| Tempo de leitura: 2 min
Professor universitário aposentado

O sol está a brilhar. Apesar da claridade intensa da luz e da frugalidade que a natureza singularizou à sua personalidade, oferecendo muita amabilidade e cortesia na profissão escolhida, ainda se torna pálida a nossa aproximação que nunca progrediu desde que conhecemos. Nossas relações são marcadas pela cumprimento, poucos sorrisos e rapidez na troca de palavras. Quase dois anos se passaram bem apressados e nada imaginável se encenou além de cumprimentos de mão protocolarmente estendida, ou quando estendida propositadamente, pairava a presunção de que se tratava de um cumprimento afetivo. Raras vezes nem uma coisa nem outra agitava meu pensamento, apenas um gesto ou aceno com a cabeça era suficiente á selar o social cumprimento. Muito pouco para um dia todo! Nem uma semente para despertar seu amor. Essas migalhas de contatos sociais jamais insinuaram a formação de um elo que poderia se fortalecer em esconderijos misteriosos que não devem ser explicitados por ser algo que a formosa Morena não tem em seus ideais. Não!

Nada disso transtornou minha cabeça na outra ponta da acanhada relação com ela. No tempo que a conheço, superficialmente, encantou-me sua naturalidade e a limpidez de suas palavras, engrenadas com a moderação dos gestos, quase imperceptíveis ao comunicar-se. Se as circunstâncias permitissem conservá-las dariam perfeito encaixe na mais requintada exigência futura. Minhas palavras com evidentes conotações de alguém apaixonado, chegavam a formosa Morena que mantinha parte do rosto coberto por uma máscara protetora. Visíveis ficaram os olhos, sobrancelhas, testa e cabelos, as demais partes do rosto eram ocultos pela máscara. Muitas vezes pensei como um homem pode enamorar-se apenas com a visão aquém do alcance dos traços do rosto, ponto inicial do interesse humano. E a resposta eu mesmo enunciava pensando como muitos que o amor floresce muitas vezes sem explicação. É o meu caso. Se escondia parte do rosto a outra que ficava à mostra deixava meus olhares admirados com a cor de sua pele. Morena natural, sem necessitar da ajuda solar em face do seu trabalho diário ser em ambiente fechado.

Mas, nem todos recebem o brilho claro do sol. Vejo isso com realce no silêncio da Morena, interrompendo uma conversa por sistema eletrônico sem motivo aparente, sequer imaginando o tamanho do dano produzido em alguém composto de carne, osso e sensibilidade.

O abrupto silêncio provocou decepcionante impacto num coração inocente e maltratado. Estava entristecido pelo desprezo, pensando dia e noite sobre hipóteses que aconteceram sem encontrar resposta. De tanto pensar, acordado e dormindo, em sonho, dormia na aurora de um dia qualquer quando gritei como um desalentado fugindo em passadas largas do perigo. Minha tia chacoalhou-me pronunciando meu nome em voz alta para acordar-me. Despertei-me transpirando e atordoado, perguntei o que tinha acontecido. Era um sonho meu sobrinho, respondeu a tia, você tem o mesmo sonho todas as noites, mas desta vez houve um exagero com os gritos.

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