OPINIÃO

Atestado de Incompetência

Por João Paulo R. Cabette |
| Tempo de leitura: 2 min
Advogado

No Brasil, nos acostumados a lidar diariamente com a incompetência de gestores públicos e de políticos. Falemos apenas dos últimos. Os detentores de cargo eletivo e gestores partidários são os representantes das diversas vertentes políticas e das várias camadas sociais, tendem a ser cobrados de forma mais setorizada, dado que os eleitores e simpatizantes priorizam a nutrição do carisma de seu espectro político ideológico, em detrimento da visão macro das repercussões estratégicas e decisões de sua atuação.

A vontade de 'lacrar' e de 'jogar pra galera' é uma estratégia suculenta num curto prazo, pois alimenta uma legião de esfomeados por fatos, ainda que não consigam estruturar a ligação entre os mesmos. Isso é nefasto para uma atuação com parcimônia, sagacidade e estratégia, que é justamente a razão de ser do cargo político.

É exatamente o que neste momento ocorre, em vista da notícia de que a oposição, capitaneada pelo Senador Rogério Marinho (PL-RN), submeterá à Presidência do Senado proposta de Plebiscito nacional, tratando da questão do abortista, recentemente reaquecida na ADPF n. 442 em pauta perante o STF, sob relatoria da ministra Rosa Weber.

Ora, é inacreditável que um Senador que se diz contra o aborto cometa um erro estratégico tão infantil. Em primeiro lugar, as regras relativas ao aborto estão vigentes e consolidadas pela atuação do Congresso Nacional, não há necessidade de consulta popular para algo que já está fixado pelo ordenamento jurídico - em conformidade com a visão do espectro político antiaborto.

Em segundo lugar, quem outrora questiona(va) o sistema eleitoral, agora quer utilizá-lo para fazer prova de algo que já lhe é favorável. Isso porque o maior interessado numa consulta pública é justamente o lado que deseja alterar as regras!

Em terceiro lugar, e mais importante, o proponente deseja fazer consulta popular, dando margem para a possibilidade de relativização do direito humano mais precioso, a vida.

Será que ainda é preciso mencionar que a vida é um direito natural inalienável, mesmo que os de 200 milhões de brasileiros digam o contrário na urna?

Quem acha plausível que um representante do povo proponha consulta popular para confirmar se a liberdade continua em vigor?

Ou, quem em sã consciência proporia uma consulta popular para abolir a propriedade privada? Não posso dizer se tal sugestão é maliciosa ou então ignorante, mas de uma coisa eu sei, não serve a quem é contrário ao morticínio de bebês.

Comentários

Comentários