Creio em Deus Pai, todo-poderoso, em nome do pai, amém. Por mais um dia, o coque, a saia longa, as sandálias descem a rua Floresta todos muito comportados no corpo cansado. Na boca ocupada por rezas repetidas, Dolores segura a bíblia. O estômago pedindo café. Agradecida pela missa, buscava a solidão. Dessa solidão de não atrair mariposa. Pudera, valia a pena ficar só. Evitava falatório, espantava gente e o melhor, mantinha a cozinha limpa. Às vezes, sentava em várias cadeiras da sala, como se experimentasse a variação da almofada rasgada e comia um pedaço de bolo de fubá insistido num chá, como lembrança materna.
A tristeza é sempre a mesma, Dolores. O que nela muda é a pele que ela habita. Uma vela apagada sentada num pires de louça. Por vezes gruda-se ao vestido vermelho da moça que sai de casa cheia de desejos, ora pendura-se nos ponteiros do relógio do rapaz ansioso pela companhia, ansioso na esquina da drogaria. A tristeza traz tardes com semblante de malvas secas. Até o guarda-chuva, ignorado no canto da cozinha, torna-se pura geometria.
As mãos já não têm flexibilidade para lidar com coisas miúdas. Os dedos, agora tímidos, conversam entre si a respeito da hesitação em sustentar fluidezes: o sabão na mão que não se arma mais em concha confiável - como as marinhas -, o movimento indeciso da tesoura que demite mal o excedente da fotografia crescida - queria eliminar do retrato o que foi abraço, vinho, champanhe, macarronada, bolo, natal, tudo que gotejou no tempo e morreu. Como poderiam mãos frágeis a vida silenciar? O corte já não bem-acabado das unhas, o percorrer de tantas outras coisinhas miúdas como o vapor no espelho - monólogos manuscritos, solitários e corajosos. Tudo vai pouco a pouco se desmanchando em desenhos inesperados, esvaziados da nossa história de vida. Saudade do marido. Homem sorridente ofereceu, em vida, coração repleto de vento para quem quisesse soprar sementes de sonho. Em suas andanças, carregou sorriso de promessa como a chuva que sacia a sede da terra. Em sua convivência, conduziu um futuro grávido de fé e paz.
Coisinhas miúdas não concertam mais com a complexidade comprometida da mão, Dolores. Mesmo frente às injustiças, os punhos não têm força para indignar-se e coroar o protesto com mãos fortemente cerradas, como as dos santos ou as dos condenados. Só reconhece suas antigas mãos quando as aproxima em concha, sopeso o carinho que elas resguardam e com dedos firmes percorre o perfil do marido no escuro. Com firmeza, por tê-lo decorado, ou por não acreditar, ainda, que estás há tanto tempo ao seu lado.
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