Isso é coisa de pobre! Que frase maldosa! Um jeito perverso de jogar o outro no chão, pisar em cima e triturá-lo. Tudo que a gente fizer, sendo "coisa de pobre", não será nada. Ou será muito? Muito mau gosto. Muito vergonhoso. Muito micoso. Quer ficar bem na fita, recolher baciadas de likes e de compartilhamentos? Então, faça coisa de rico.
Nem sempre. Cinco tripulantes, sendo três bilionários, estavam na cápsula submarina Titan, da OceanGate. Visitavam os destroços do histórico Titanic a quatro mil metros de profundidade. Coisa de rico, claro. Olha só o preço da passagem: US$ 250 mil. No nosso raquítico dinheirinho, R$ 1,2 milhão. Triste saber que a cápsula explodiu.
Stockton Rush, fundador e CEO da OceanGate Expeditions, um dos mortos na implosão, defendia o luxuoso passeio: "Se você só quer estar seguro, não saia da cama!" Bobagem. Nem na cama a gente está seguro. O infarto já deu provas disso muitas vezes.
O fato é que os endinheirados, enfastiados de todos os luxos e prazeres, ficam procurando experiências exóticas. É o que explica o cara "pagar uma fortuna para passar horas dentro de um veículo que se parece como uma air fryer da Mondial, pilotada por um joystick comprado na Multicoisas". Foi o que disse, com fino humor, Flávia Boggio, na crônica "Submarino de bilionários prova que Darwin era comunista" (Folha de S. Paulo, 10/08/23).
Coisa de rico é assim, uns vão pro fundo do mar, outros, pro espaço. Em 2021, Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo, fez caríssima viagem aeroespacial. Outra concorrente, a Virgin Galatic, cobra para o mesmo passeio US$ 450 mil por pessoa. Há ainda a possibilidade do necroturismo. É o turismo de cemitérios, aliás, verdadeiros museus a céu aberto. Obras sacras, arquitetura fúnebre, histórias, lendas, superstições, um banho de necrocultura. O cemitério da Consolação, em São Paulo, fundado em 1958, conta com um acervo espetacular. Gente da aristocracia da cafeicultura e da burguesia paulista, no século XIX, patrocinava verdadeiras obras da arte tumular. A meu ver, um turismo inteligente. A gente vive tão arraigado à vida, que se esquece de pensar na Dama da Foice.
O Brasil, oferece o que pode: a natureza linda das florestas, morros, praias... Mas também os famosos tours pelas favelas. Os gringos ficam fissurados ao ver "in loco" como vivem os pobres favelados. O que comem, quando comem. Onde dormem, quando dormem. Onde trabalham... Ufa! Como essas pernas aguentam tanta escada? É preciso, contudo, contar com a sorte de um dia sem confronto entre traficantes e policiais. Balas perdidas sempre encontram corpos de pobres. Enfim, quem tem dinheiro gasta como quiser. Quem não pode, de inveja se sacode.
Flávia Boggio chega a aventar um sofisticado pacote "all-inclusive" também no submarino. Com direito de morrer afogado e, depois, confraternizar-se com os mortos do naufrágio do Titanic. Passeio assim é para não se esquecer jamais! Coisa para ricos, claro.
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