OPINIÃO

Viver é crime

Por Alexandre Benegas |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é professor de Língua Portuguesa

Pra ele pouco importa passeata da paz, caminhada em prol da família, convívio domingueiro da Getúlio! Isso mesmo. Lá onde a terra tem palmeiras, onde desfilam sábias, das aves que lá ostentam, nem se sobrevoam para cá. Eles possuem as alamedas, as avenidas. Ele, um ninho de papelão terroso nos viadutos. Ele é da fome. Isso mesmo. Fo-me. Sua desgraça é interjeitiva. Sua desgraça nasce como advérbio de intensidade. Só ganha vogal e consoante em épocas eleiçoeiras. Aí vem prefeito, vereador. Engraçado tudo isso. Saem os paletós engomados, o salto alto, o gel alinhador para dar passagem ao candidato popularesco, ao boneco de feira. A boca, até então elegante, morde a mortadela, o café expectante do balcão.

Por isso, ele caminha com as suas desgraças, suas feridas expostas. Onde mora, inexiste guia pintada, também não tem sarjeta. A rua? Ninguém viu. Cidade existe e funciona perto dos condomínios, do lado alto, na zona sul. Dá gosto de ver a cidade em estado Suvinil! Pintada. Ainda mais cidade aniversariante. Pinta o chiqueiro, contudo os porcos são os mesmos. Tudo branco, da paz. Paz? Só mesmo pra quem deita o sono morno no aconchego do lar. Pra quem tem o que comer. Ele, a maioria, os esfomeados de barriga e olhos sobressaltados. Sua seca é de vidas secas. Pro rico, circunstancial crise hídrica. Sua dor tem sílaba tônica. A do rico, mera tese de sociologia. Rico é unido. Dá o braço, o pano, a toalha pra torcer. Ele, nem toalha tem. Por isso, essa calma do rico em fazer passeata, caminhada. Tudo em paz, com semblante sereno, com felicidade selfiada no feicibuqui nosso de cada dia. A paz do rico é abstrata, é um quadro de Joan Miró. A dele, um grito perdido de Edvard Munch. Alguém ouviu?

Miséria tem sua utilidade. Tem seu particípio passado. É servida em empreendimento público. É lembrada em visita de deputado. De repente, na urgência, um microfone amplifica a miserabilidade da queixa. Um barraco que pegou fogo, um dos nossos atropelado, fila no posto sem remédio - click - o pobre vira manchete, ganhando a velocidade das redes sociais. No mais, ele sabe que sua fuligem incomoda as fragrâncias da zona sul. Sua imagem, borrada de poeira, se confunde com a cor cinza chumbo da senhora da Land Rover que novamente estaciona na vaga de cadeirante, sem sê-la. Também, ela precisa passear com seu Spitz Alemão. Com folga, ela desce do carro. Folgado, é ele - diz ela -por ter lhe pedido um trocado.

Viver assim é crime. Por tudo isso, ele segue como alguém de passos duros e mecânicos. Em seu corpo, já não mais flexibilidade. Seus olhos, parados e perdidos, nenhum alvo ou meta a atingir. Um corpo teleguiado pela fome e sede dominantes. Mamonas Assassinas tinha razão: "A felicidade é um crediário das Casas Bahia." Ei-lo, um homem sem vontade própria. Ei-lo, boneco-de-molas esperando a ordem de comando. Ainda assim, ele escuta no ar melodias que falam de um mundo melhor. Falam de uma sociedade mais justa e também mais fraterna. Como, entretanto, conciliar essa miragem a um homem vasectomizado de sonhos? Como sonhar com tal revolução se os braços anêmicos e mecânicos rejeitam quaisquer possibilidades de ação? O mundo para ser outro precisa definitivamente de outro homem.

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