Antes da pandemia, o Sesc Bauru era o único oásis a saciar a sede daqueles que gostam de música de qualidade, fosse em suas atrações avulsas, fosse nos memoráveis festivais de jazz, quando o ginásio da entidade se transformava num Village Vanguard caboclo.
Estamos numa cidade povoada de botecos intermitentes que dão guarida às arapongas da sofrência e às viúvas do roquenrollo, e até quando entramos num supermercado somos obrigados a escutar ou as mesmas (a)berrações ou vozes vindas não sei de que planeta em que só habitam crianças com nariz entupido.
Poderia até dizer que cada povo tem a trilha sonora que merece. Mas eis que neste último sábado fui vergonhosamente desmentido pelo público de todas as idades que compareceu em massa ao Sesc para prestigiar o lendário saxofonista Hector Costita, junto com o excelente grupo Dabus. Embora ainda precisem treinar em casa a hora certa de aplaudir um solo de jazz (aliás, isso deveria ser objeto de uma oficina no próprio Sesc), não há dúvida que todos curtiram adoidado o suingue esbanjado pelos músicos em quase 2 horas de apresentação.
Imagino que poucos ali sabiam que aquele senhor argentino e brincalhão chegou já aos 88 anos, a maioria deles dedicada a uma carreira impecável, que no Brasil se iniciou na bossa nova, integrando o também lendário Bossa Rio, ao lado de Sérgio Mendes e Raul de Souza, inventando então o estilo samba - jazz. Aliás, foi ao lado do saudoso Raul e do grupo Placa Luminosa, nos anos 80, que ele protagonizou um dos shows mais marcantes da década, no Sesc São Paulo.
No sábado, Costita mostrou que sua sonoridade e suingue seguem acesos como nunca, improvisando sobre temas de sua autoria e de outros, especialmente no clássico Batida Diferente, do hoje nonagenário Maurício Einhorn, que também esteve no Sesc anos atrás. Mas o ápice foi a balada My Foolish Heart, na qual toda sua sensibilidade veio à tona, junto ao domínio inigualável do fraseado. E meu tolo coração ficou descompassado.
Parabéns ao Sesc, que outras tardes e noites como essa venham na sequência. E que sirva de exemplo, mais uma vez, à tristemente combalida Secretaria de Cultura.
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