MENOS CONSUMO

Inflação, juros e dívidas reduzem consumo das famílias em Bauru

Por Tisa Moraes | da Redação
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Divulgação
Marcos Pazzini, responsável pelo IPC Maps: como mudanças não devem ocorrer no curto prazo, consumo não deve melhorar neste ano
Marcos Pazzini, responsável pelo IPC Maps: como mudanças não devem ocorrer no curto prazo, consumo não deve melhorar neste ano

A inflação persistente, os juros altos e o endividamento da população já desaceleraram o consumo das famílias brasileiras e deverão fazer com que 2023 seja um ano com menor ritmo de gastos privados em Bauru, que acompanha uma previsão já identificada em âmbito nacional. De acordo com a pesquisa IPC Maps 2023, o potencial de consumo dos bauruenses de janeiro a dezembro é de R$ 17,229 bilhões, o que representa uma alta de 6,82% em relação a 2022, quando a projeção foi de R$ 16,129 bilhões.

A variação média nacional é de 7,5%. O aumento é nominal, ou seja, não desconta a inflação esperada para o período, de 5,42%, até o momento. Caso a previsão seja confirmada, será o avanço mais modesto desde o começo da pandemia de Covid-19, em 2020, quando o consumo das famílias sofreu redução de 6,38%.

Já 2020 alcançou alta de 10,47%, resultando em um potencial de gastos de R$ 11,668 bilhões, que cresceu mais 38,2% em 2022. Responsável pelo estudo, Marcos Pazzini explica que, no ano passado, o mercado interno se reergueu dos impactos negativos trazidos pela pandemia, tendo como estímulo, inclusive, a injeção de recursos oriundos dos auxílios garantidos pelo governo federal à população de menor renda.

"Foi um ano eleitoral e benesses foram dadas de diversas formas. Agora, em 2023, temos um contexto macroeconômico não tão favorável e as famílias estão freando o ritmo de consumo", frisa. Ele explica que um dos motivos desta desaceleração é a inflação persistente, que escalou em 2021 e alcançou pico de 12,13% em abril de 2022, no acumulado de 12 meses.

Desde então, só houve registro mensal de deflação (queda no índice) em julho, agosto e setembro daquele ano. "Ou seja, os preços dos produtos, que sofreram forte alta, não voltaram aos níveis pré-pandemia, sendo que o reajuste salarial dos trabalhadores não acompanhou este aumento. Além disso, a tabela do Imposto de Renda ficou muito tempo sem ser corrigida. Tudo isso compromete o poder de compra do brasileiro", descreve.

RESTRIÇÃO

Some-se a este cenário a manutenção da taxa básica de juros, a Selic, em patamar elevado - atualmente, em 13,75% - o que dificulta o acesso a crédito, tanto em relação financiamentos bancários quanto nas compras a prazo no varejo. "As chamadas aquisições programadas, de bens de consumo mais caros, se tornaram mais restritas para parcela significativa da população", pontua.

Em meio a esta cadeia de fatores desfavoráveis, existe um outro freio para o consumo das famílias: o endividamento, considerando que muitas contraíram empréstimos ou utilizaram suas reservas financeiras para enfrentar os períodos mais críticos da crise provocada pela Covid-19. "Para este ano, temos uma expectativa de crescimento do PIB de apenas 1,2% e o índice é considerado para fazer as projeções da pesquisa. Porém, o Brasil tem potencial para crescer muito mais, contudo, para tanto, o governo precisa adotar uma série de ações, como rever o sistema tributário, que desestimula investimentos no Brasil. Mas, como estas transformações não vão ocorrer no curto prazo, o consumo não deve ter uma melhora significativa ainda em 2023", completa.

HABITAÇÃO ENGLOBA MAIORES GASTOS

O IPC Maps é elaborado pela empresa especializada em informações de mercado IPC Marketing, que atua com pesquisas há quase 30 anos e traça, anualmente, o mapa da capacidade de consumo dos municípios brasileiros, com base no cruzamento de dados oficiais. No levantamento, que considera dados como Produto Interno Bruto (PIB), população e renda das famílias, são analisadas as principais categorias de itens, incluindo alimentos, artigos de limpeza, mobiliários e vestuário, além de despesas com transporte, saúde, educação, recreação e habitação.

Em Bauru, este último tópico, que incorpora gastos com aluguel, luz, água, gás, telefone, Internet, TV a cabo e pequenos reparos domésticos, deve ser o que mais irá comprometer a renda das famílias em 2023. A expectativa é de que o montante chegue a R$ 4,655 bilhões.

Na sequência, aparecem gastos com veículo próprio, que incluem custos com aquisição, manutenção e combustível (R$ 1,943 bilhão), resultado do aumento de pessoas que compraram carros para transportar passageiros por aplicativo ou motos para trabalhar com delivery. Já em terceiro lugar, figura a alimentação no domicílio (R$ 1,371 bilhão).

QUEDA NO NÚMERO DE EMPRESAS

Segundo o IPC Maps, Bauru figura, em 2023, como a 16.ª cidade com maior poder de consumo no Estado e a 54.ª no Brasil. O resultado é ligeiramente pior que o alcançado no ano passado - 14.ª e 52.ª posição, respectivamente, quando perdeu espaço para Mauá e Mogi das Cruzes -, mas exatamente igual ao registrado antes da pandemia, em 2019.

O levantamento revela, contudo, que a cidade ainda não conseguiu recuperar o volume de empresas que aglutinava pouco antes do início da crise sanitária. Em 2019, eram 64.354 CNPJs, sendo 32.902 ligados a serviços, 20.218 a comércio, 9.953 à indústria e 1.281 ao agronegócio.

Agora, o município soma 59.345 negócios, 5 mil a menos que quatro anos atrás. São 34.966 do segmento de prestação de serviços, 13.269 do comércio, 9.654 da indústria e 1.456 do agronegócio. "Em 2020, o total havia caído para 55,8 mil empresas. Ou seja, ainda que lentamente, estamos vendo a retomada da abertura de empreendimentos, o que representa aumento de empregos, salários e consumo na cidade", completa Marcos Pazzini.

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