OPINIÃO

A rua da minha casa

Por Roque Roberto Pires de Carvalho |
| Tempo de leitura: 4 min

De 1950 até 1968 a Rua Cussy Júnior, nº 3-14, em Bauru, foi a minha casa, a casa dos meus pais e dos meus irmãos. Em um dia qualquer de um ano qualquer precisei mudar para outra cidade e lá deixei os meus queridos.

Passados muitos anos, fui visitar minha antiga rua e os moradores daquela casa de esquina com a Rubens Arruda. Do que existia, nada mais encontrei. Total metamorfose; de verdadeiro só a rua, o número e a esquina, tudo o mais ajustava-se ao progresso evolutivo. Com certeza eu também tenha passado por essa transformação no semblante, nos cabelos, no olhar, no andar mais vagaroso e obrigado puxar pela memória já visivelmente desgastada...

Não me importei com isso, meu objetivo era rever a rua da minha casa e até mesmo, se fosse possível, reencontrar um morador que fosse meu contemporâneo. Isto não aconteceu !

Meu mano Paulo, que era sócio de uma empresa de bebidas na esquina da Rubens Arruda, sabendo que a casa da frente encontrava-se vazia, possuía acomodação para a família, um amplo quintal com árvores, um pé de goiaba, um pé de laranja, um portãozinho que dava saída para a rua e entabulou com o proprietário uma locação que, na época, os contratos eram verbais na confiança e na palavra; nunca vi a presença do proprietário e quem cobrava o aluguel era um senhora muito falante. Por ser uma casa em prédio geminado, separado por uma parede fronteiriça e um só telhado servindo de locação para uma outra família.

Recordo com saudades o tempo todo em que ali passei com meus irmãos, meus pais e parentes que sempre tiveram o maior prazer de nos visitar, não só em cidades, em sítios também passavam férias conosco, afinal, meus pais, na simplicidade dos simples eram muito fraternos e acolhedores.

Estacionei meu veículo bem à frente; não havia nenhum impedimento por portões ou garagens. Desci do carro, peguei uma folha de caderno, uma caneta e passei a anotar o que via e o que não via. A minha casa que era geminada desapareceu! O quintal desapareceu! De resto apenas paredes altas e feias com pinturas de mal gosto...

Os vizinhos que moravam à frente da minha casa eram um vereador pernambucano, Antônio Ferreira de Menezes, político eleito em várias legislaturas, conhecido de todos e meu pai, tornou-se amigo dele; às segundas-feiras o acompanhava até a Câmara Municipal para assistir aos debates e arengas fastidiosas, meu pai adorava e eu também aprendi a gostar do ambiente político daquela época e lado desse vereador morava um seu irmão Ponciano Menezes, que era chamado de "Secreta", pois gabava-se de ser Comissário de Menores, com entradas francas em cinemas, boates e campos de futebol para fiscalização.

Por ser de gênio forte dos homens do Nordeste, a moçadinha o respeitava e por que não dizer, tinha medo dele. Dos vizinhos da direita da casa apenas um de nome Jauro Robim Martins considerei como amigo e da mesma idade, com a vantagem de que ele, sendo sobrinho de um Capitão, herói da FEB que servia em Lins, seria meu comandante no 4º BC. A única recomendação feita pelo Jauro quando da minha apresentação era que não o chamasse de Bené, que era um apelido dado por seus familiares e o chamasse por Capitão Benedito Rodrigues.

Segui as recomendações, me apresentei ao Comandante como soldado e em maio do mesmo ano ele me promoveu a Cabo. Fiquei devendo essa ao Jauro, amigo que nunca mais encontrei nas ruas do destino. Minha casa, à esquerda era apenas o quintal. O mano aproveitava o quintal para criar patos e patas, nunca fiquei sabendo qual era a finalidade. Seria distração?

Mesmo tentando reconstruir na memória toda aquela época, minhas anotações na folha de papel não havia mais espaço para escrever e ficou faltando o que era mais importante... para onde tinha ido a minha família? Fiquei tanto tempo fora e agora ao tentar reviver os bons tempos, deles só encontrei as imorredouras saudades... Alguém me informou que eles repousavam nos altos da Terra Branca... Antes de retornar ao carro, olhei mais uma vez para aquele ambiente... ouvi a voz de um Anjo que me dizia que todas aquelas pessoas queridas estavam ao meu lado, pedindo ao Pai proteção para a minha família.

As duas irmãs remanescentes do clã poucas vezes as encontro. Quem sabe ocorra, como desta vez, eu esteja parado à porta de suas casas para um forte e saudoso abraço.

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