Será que estava tão errada?
Será que fui tola ao achar que poderia verdadeiramente ter tudo? Tudo começou através de vitrais tão claros quanto o cristal da taça que pendia entre meus dedos.
Nunca tive que passar por algo genuinamente cruel; talvez porque o carcereiro que me tranca todas as noites nas celas das catacumbas do corpo já tenha se encarregado disso.
Perceba, nunca foi minha culpa; eles me forjaram. Dispostos a fazer de tudo pela mulher dos sonhos - nos convencem de todos os absurdos dos quais eles foram poupados tão piedosamente. Não coloquem os pratos na pia; mamãe o fará. Não lavem as roupas; mamãe o faz melhor.
Quando doentes, não ousem levantar um dedo - mamãe cuida. E, assim, momento após momento, aprendem cada vez mais a almejar uma mãe, um troféu, uma enfermeira, uma atriz, uma dançarina - jamais uma mulher. Enquanto eles se ocupam com suas paredes altas em suas moradias com delírios dolorosamente reais, puxo um cigarro e acendo-o na varanda do apartamento alugado. E a taça, ao tilintar, me perguntava: "Será que se pode verdadeiramente ter tudo?"
"Talvez só esteja exausta!", eles dizem. Não estão de todo errados. Estou exausta. Exausta dessa espera de pescador. Exausta de acender velas ao vento. Exausta de não ser dona da minha vida. Quantos Messias serão apedrejados até que seu choro seja ouvido?
O choro que clama pela mãe.
A esperança que reside em Madalena. Santas Ritas, bocas no trombone, bossa n'roll alto no bar, carvalhos no quintal e filhos a chorar.
Será que poderíamos ter tudo?
Um trago. Mais um. Outro.
A gente se acostuma, mas não devia. Se acostuma a morrer aos poucos, se acostuma a engolir sapo, a escolher e perder ou a perder e abrir mão. No fim, o ganho é a perda; ganha a carreira e perde a cabeça; ganha a paz e perde a guerra; ganha o amor e perde a paixão.
E a gente se acostuma.
Aceita o corpo cedendo, aceita a falta de reconhecimento e o amor que proferiu sem ter porquê. Aceita que, talvez, nunca possamos ter tudo.
Um gole. Mais um. Outro.
Pergunto à taça sussurros embriagados e ela retruca questionamentos tão velhos quanto o seu sangue. O violão, como que com ciúmes, se intromete, e a voz ensurdece o silêncio.
As vozes se multiplicam e a gente acredita, aceita que nunca poderia verdadeiramente ter tudo. Repõe o vinho, pisa no filtro e respira mais uma vez. E a gente se acostuma.