LEMBRANÇAS

Com reforma de Gordini, ex-piloto revive Tarta Racha, corrida off-road

Por Guilherme Matos - Especial para o JC | da Redação
| Tempo de leitura: 3 min
Renault Dauphine Gordini de 1961
Renault Dauphine Gordini de 1961

Aureo de Freitas Nascimento, de 66 anos, dedicou seus últimos dois anos a reconstruir e relembrar um período marcante de sua juventude. Em meio a buscas incessantes na Internet e em revendedoras de peças automotivas, o homem foi remontando aos poucos seu Renault Dauphine Gordini de 1961 e, consequentemente, as memórias do período em que o veículo era parte de sua rotina.

Enquanto apertava parafusos, desempenava placas de aço e lubrificava peças do veículo aposentado desde a década de 80, Aureo relembrava a época em que disputava "rachas" contra outros 21 pilotos em uma corrida off-road, que permitia somente o uso de Gordinis.

Ele investiu cerca de R$ 35 mil com um único objetivo: manter viva a história da Tarta Racha, uma "escuderia" que surgiu no final dos anos 70 em Bauru. "Vou restaurar esse carro e levar essa história para os encontros de carros antigos", afirma o ex-piloto.

A paixão de Aureo por automóveis existe há muitos anos e está relacionada com o apelido que o acompanha desde a adolescência: Sagui. Antes da maioridade, ele trabalhava em um lava-jato próximo à avenida Duque de Caxias e, segundo ele, recebeu a alcunha por seu tamanho (em 1,56 metro) e agilidade no desempenho da função: tinha a responsabilidade de lavar os pneus dos carros, que se enfileiravam na porta do negócio.

A escolha do serviço fez com que Aureo conhecesse as pessoas que, alguns anos mais tarde, o levariam a ser um dos corredores da Tarta Racha, uma competição cuja rápida popularização a partir de 1978 ajudou a sepultá-la em 1980.

A ideia da corrida foi 'importada' de Ribeirão Preto pelos primos José Milton Marques Fernandes e José Fernando Comegmo. Eles estavam na cidade quando viram diversos veículos de modelos variados sujos de barro, deixarem um canavial nas proximidades. A dupla gostou da ideia e resolveu trazê-la para Bauru, com o diferencial de padronizar o modelo do veículo para nivelar a competição.

Apesar do divertimento, o local não possuía estrutura suficiente para receber a audiência crescente e isso tornou o espetáculo perigoso, obrigando o poder público a intervir e pôr um fim à diversão, conta Aureo.

FABRICAÇÃO

De acordo com o site oficial da Renault, a fabricante do veículo, foram 178.223 exemplares da versão Gordini do Renault Dauphine produzidos de 1961 a 1968. Os "rachas" começaram apenas em 1978, uma década depois do último modelo sair da fábrica. Segundo Aureo, era comum ver o modelo em desuso nos pátios e oficinas de Bauru.

O ex-corredor descreve o motor como "fraco", mas a carroceria como um "casco duro", o que inclusive gerou o nome "tarta", uma brincadeira com a palavra "tartaruga". A estrutura do carro protegia os pilotos em caso de capotamento e a pista de apenas 1.200 metros, somada a pouca força do motor, evitava que os veículos ultrapassassem os 90 quilômetros por hora.

SAGUI

Os poucos anos de duração da competição foram importantes o suficiente para marcar a história de Sagui, como é conhecido até hoje. Tanto que, em 2017, quase 40 anos depois do fim da disputa, ele conseguiu reunir alguns ex-pilotos e apreciadores das corridas de Gordini em uma festa que inspirou duas grandes obras: a primeira delas foi uma espécie de "livro de memórias", onde o próprio Aureo narra a história da corrida e entrevista todos os pilotos que estavam envolvidos em sua realização.

A segunda foi a reforma de seu Renault Dauphine 1961, que transporta uma história com a cara da Cidade Sem Limites.

Aureo de Freitas Nascimento desempenou placas de aço, por exemplo, durante reconstrução
Aureo de Freitas Nascimento desempenou placas de aço, por exemplo, durante reconstrução
Aureo de Freitas Nascimento, conhecido como Sagui, com seu Renault Dauphine Gordini 1961, que passou por processo de revitalização e recebeu R$ 35 mil em investimentos
Aureo de Freitas Nascimento, conhecido como Sagui, com seu Renault Dauphine Gordini 1961, que passou por processo de revitalização e recebeu R$ 35 mil em investimentos

Comentários

Comentários