Aureo de Freitas Nascimento, de 66 anos, dedicou seus últimos dois anos a reconstruir e relembrar um período marcante de sua juventude. Em meio a buscas incessantes na Internet e em revendedoras de peças automotivas, o homem foi remontando aos poucos seu Renault Dauphine Gordini de 1961 e, consequentemente, as memórias do período em que o veículo era parte de sua rotina.
Enquanto apertava parafusos, desempenava placas de aço e lubrificava peças do veículo aposentado desde a década de 80, Aureo relembrava a época em que disputava "rachas" contra outros 21 pilotos em uma corrida off-road, que permitia somente o uso de Gordinis.
Ele investiu cerca de R$ 35 mil com um único objetivo: manter viva a história da Tarta Racha, uma "escuderia" que surgiu no final dos anos 70 em Bauru. "Vou restaurar esse carro e levar essa história para os encontros de carros antigos", afirma o ex-piloto.
A paixão de Aureo por automóveis existe há muitos anos e está relacionada com o apelido que o acompanha desde a adolescência: Sagui. Antes da maioridade, ele trabalhava em um lava-jato próximo à avenida Duque de Caxias e, segundo ele, recebeu a alcunha por seu tamanho (em 1,56 metro) e agilidade no desempenho da função: tinha a responsabilidade de lavar os pneus dos carros, que se enfileiravam na porta do negócio.
A escolha do serviço fez com que Aureo conhecesse as pessoas que, alguns anos mais tarde, o levariam a ser um dos corredores da Tarta Racha, uma competição cuja rápida popularização a partir de 1978 ajudou a sepultá-la em 1980.
A ideia da corrida foi 'importada' de Ribeirão Preto pelos primos José Milton Marques Fernandes e José Fernando Comegmo. Eles estavam na cidade quando viram diversos veículos de modelos variados sujos de barro, deixarem um canavial nas proximidades. A dupla gostou da ideia e resolveu trazê-la para Bauru, com o diferencial de padronizar o modelo do veículo para nivelar a competição.
Apesar do divertimento, o local não possuía estrutura suficiente para receber a audiência crescente e isso tornou o espetáculo perigoso, obrigando o poder público a intervir e pôr um fim à diversão, conta Aureo.
FABRICAÇÃO
De acordo com o site oficial da Renault, a fabricante do veículo, foram 178.223 exemplares da versão Gordini do Renault Dauphine produzidos de 1961 a 1968. Os "rachas" começaram apenas em 1978, uma década depois do último modelo sair da fábrica. Segundo Aureo, era comum ver o modelo em desuso nos pátios e oficinas de Bauru.
O ex-corredor descreve o motor como "fraco", mas a carroceria como um "casco duro", o que inclusive gerou o nome "tarta", uma brincadeira com a palavra "tartaruga". A estrutura do carro protegia os pilotos em caso de capotamento e a pista de apenas 1.200 metros, somada a pouca força do motor, evitava que os veículos ultrapassassem os 90 quilômetros por hora.
SAGUI
Os poucos anos de duração da competição foram importantes o suficiente para marcar a história de Sagui, como é conhecido até hoje. Tanto que, em 2017, quase 40 anos depois do fim da disputa, ele conseguiu reunir alguns ex-pilotos e apreciadores das corridas de Gordini em uma festa que inspirou duas grandes obras: a primeira delas foi uma espécie de "livro de memórias", onde o próprio Aureo narra a história da corrida e entrevista todos os pilotos que estavam envolvidos em sua realização.
A segunda foi a reforma de seu Renault Dauphine 1961, que transporta uma história com a cara da Cidade Sem Limites.