OPINIÃO

Fanatismo versus liberdade

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Elson Teixeira Cardoso, Adilson Motta - Escritor e jornalista

"(...) o seu sentimento religioso levado até ao fanatismo (...) (Euclides da Cunha, "Os sertões")

Todo ato começa com uma ideia que é depurada pelos pensamentos, pela análise das condições, pela luz das possibilidades. Todo ato gera consequências, resultados nem sempre satisfatórios, marcas que serão carregadas para sempre. Daí a necessidade de ponderar, refletir, não agir de forma precipitada, ter bom senso, saber escolher o ideal; embora, às vezes, o ideal não seja possível, mesmo assim, é necessário encontrar um caminho, talvez um atalho. No geral, qualquer problema pode ser resolvido a partir de três práticas: 1. aceitação de que o problema existe e é preciso mudar; 2. busca da melhor forma de solução; 3. ação objetiva. Enfim, é preciso ter coragem para enxergar, capacidade para decidir e força para realizar, e realizar à luz do bom senso. Tratando de bom senso, uma análise precisa sobre o Brasil, nesta última década, a partir de junho de 2013, quando aconteceram manifestações contra os políticos e contra tudo, surgindo movimentos conservadores, ditos liberais, e submovimentos extremistas - estes, herdeiros de movimentos nazistas e fascistas, do final de 1920, que tiveram como expressão maior a Ação Integralista, que foi sufocada pelo governo de Getúlio Vargas -, denuncia que o país entrou num labirinto de mentiras, negações, sobretudo na ciência, hipocrisias, insanidades, ódios e violências descabidas, com perseguições de toda ordem, somente pelo cidadão pensar e agir de forma diferente. Tudo, na defesa de falsas convicções, ou seja, "ideologismos" raquíticos, baseados num patriotismo de sarjeta, na honestidade vazia e no falso combate à corrupção, já que muitos que colocam-se como pretensos líderes da moralidade, participaram de forma descarada de fraudes e crimes diversos, enriquecendo às custas do povo.

O curioso é que o país nunca teve, propriamente, um partido político de extrema-direita, nem a Aliança de Renovação Nacional (Arena), movimento partidário pró-ditadura militar, que oficializou a barbárie, após o golpe militar de 1964, indo de 1965 a 1984, colocava-se como ultradireitista - era oportunista, sem ideologia, ou seja, um conjunto de valores, princípios e doutrinas que norteiam as ações, em busca do bem comum. Os seus integrantes, civis e militares, participavam do banquete do Poder. Acontecia naqueles tempos o que acontece com tantos partidos atuais, inclusive os que se dizem defensores de valores religiosos, familiares e morais, mas que deturpam a fé, hipnotizam e iludem milhões de incautos, tudo em proveito de privilégios variados.

É óbvio que o auge do ciclo de aberrações que o país atravessou nesses anos de autoritarismo e desgoverno, deu-se no dia 8/1/2023, com as invasões terroristas em Brasília, numa tentativa de golpe de Estado, que ficará na história como um culto à ignorância, desrespeito, cegueira mental, desamor e alucinação coletiva, condições inerentes ao fanatismo, o fanatismo que é alimentado pela intolerância e barbárie, males cancerígenos da alma, o fanatismo que gera opressão.

Tal como refletiu Euclides da Cunha em seu livro mais portentoso, "Os Sertões", publicado em 1902, um misto de tratado social e conjunto de reportagens sobre a Guerra de Canudos, que cobriu entre 7/11/1896 e 5/10/1897, na Bahia, a religião foi levada ao extremo do fanatismo, a partir da idolatria a Antônio Conselheiro, que se dizia profeta e fundou um povoado de seguidores, com poeiras monarquistas, rebelião contra a Igreja Católica e delírios messiânicos e esquizofrênicos, cercado por uma milícia de jagunços e ex-criminosos, sua guarda pessoal. O problema é que a população foi exterminada pelo governo federal, brasileiros assassinando seus irmãos, um crime denunciado abertamente. Essa idolatria a partir da fé, descambou na idolatria política, nascendo da ignorância, a mesma ignorância destes tempos, que leva a crer que multidões deveriam estar num manicômio, pois vivem alheias à realidade, defendendo coisas esdrúxulas, vivem à sombra da sabedoria, manipuladas como fantoches, lançadas no abismo da imbecilidade.

Em "O grande mentecapto" (1979), Fernando Sabino, através de seus personagens satíricos, num debate político de charadas, em praça pública, esclarece:

"- O que é que, quanto maior, menos se vê?

- Eu diria que é a ignorância de certas pessoas... (...) - Mas digo que é a escuridão! (...)"

De fato, a ignorância é a escuridão e, quanto mais cresce, menos há participação. Todos aqueles que enganam, controlam, todos que colocam-se como donos da verdade, detentores do saber, são puramente hipócritas.

O Evangelho confirma isto.

"27 Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: bonitos por fora, mas por dentro estão cheios de ossos e de todo tipo de imundície. 28 Assim são vocês: por fora parecem justos ao povo, mas por dentro estão cheios de hipocrisia. (Mateus, capítulo 23, versículos 27-28)".

De modo que, idolatrar alguém ou qualquer coisa, é negar a individualidade, é perder o amor próprio, é estar numa forma servil de existência que destrói. Portanto, é preciso libertar-se dessa prisão, e a libertação pode acontecer pelas práticas de solução dos problemas, entendendo que as mudanças são gestadas nos dias, através do aprendizado, da leitura, da consciência que todo ser humano é importante, que os valores fundamentais do Humanismo devem ser defendidos, e que a religião, com suas várias expressões e práticas, tem como alicerce a paz e a comunhão, que levam ao crescimento espiritual.

Assim, a liberdade vencerá o fanatismo.

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