Foram centenas de dias de muita tristeza, dezenas de meses trágicos, quatro anos distópicos, onde a desesperança tomou conta do Brasil real; o bom senso sucumbiu aos horrores cotidianos da estupidez e muitas mortes, perfeitamente evitáveis e ainda lembradas com dor, ocorreram pelo descaso proposital do desgoverno federal com a pandemia.
Foi um tempo sem lei, ou melhor, onde rasgada a Constituição Federal, prevaleceu a lei do mais forte. Com autorização para matar, o aparelho policial eficazmente praticou sua política higienista; com o despejo de armas na sociedade o crime organizado tornou-se ainda mais poderoso; com a destruição de políticas públicas, a fome, nossa velha inimiga, voltou a reinar soberana.
O país, que um dia acreditou que seria melhor, e até deu alguns passos neste sentido, passou a ser governado por milicianos, grileiros e outros criminosos de variadas tipificações penais. Foram anos que sacripantas, fantasiados de amarelo, feitos zumbis tresloucados e, liderados por um assassino psicopata, espalhavam ódio, bala, mau-caratismo e medo, muito medo. Foram tempos que os ignorantes, os racistas, os fascistas, os misóginos e outros desqualificados passaram a ter orgulho do seu lado mais sombrio. Era a República da imbecilidade e da sordidez.
Mas estes seres ignóbeis se acharam eternos e se esqueceram que o Brasil real, embora atônito e desfalecido ainda vivia, resistia e nos quatro cantos do país sua voz, ainda diminuta, se fazia ecoar e, lentamente, avançamos no nosso sonho de dias melhores.
São milhões de quilombolas, populações ribeirinhas, negros e negras, mulheres, lgbtqia+, indígenas, artistas, estudantes, Paulos Freires e Marielles, uma gama infinita de seres encantadores, com diversos sotaques e culturas, na sua diversidade, no seu encanto, no seu colorido, na sua arte e alegria a atravessar o caminho da barbárie, apontando sua melhor e mais gostosa gargalhada para os raivosos fascistas, entorpecidos pela insana podridão de seus atos.
Decerto tudo ainda está por fazer e, reconstruir um país, completamente destruído, será um trabalho árduo, de muitos anos, que exigirá de cada um de nós um esforço enorme, mas demos os primeiros passos para a saída do inferno. O caminho ainda é incerto, repleto de armadilhas e de incertezas, mas nosso sorriso, nossa disposição para a luta, nossa esperança (no seu melhor sentido) e o resgate da nossa alegria são nossas melhores armas para continuarmos buscando dias melhores. O genial e admirável Chico Buarque que nos encantou no fim da ditadura anterior com o samba “Vai passar”, volta a dar o tom (um sinal que dias melhores virão): “De novo com a coluna ereta, que tal? Juntar os cacos, ir à luta, manter o rumo e a cadência, desconjurar a ignorância, que tal? desmantelar a força bruta, então, que tal puxar um samba?”. Que tal?