Quando as festas de fim de ano se aproximam várias coisas nos vem à mente diante do clássico Natal em família. Iremos nos encontrar na maioria das vezes com pessoas da família, às vezes de pensamento, religião, opinião diferente, mas que no entrelaçamento genealógico fazem parte da nossa história: irmãos, primos, tios, pais, avós, sogra, sobrinhos, noras, cunhadas, genros, etc.
Nas configurações familiares é quase sempre este cenário que encontramos, e nos vemos diante de um ambivalente sentimento: sermos construtores da paz, ou deixar rolar o balanço da hipocrisia, onde se coloca somente as próprias ideias esquecendo o motivo da celebração, num corre-corre para chegar não se sabe onde, num banquete que se sustenta numa linha tênue entre o real e o mitológico, que para alguns coincide com a mesma lógica que se sustenta durante todo o ano, baseado no exagero e nas diferenças.
Na dinâmica de escutar o outro, exercemos um espaço dentro de nós que não tem a ver somente com o outro, e sim com uma disponibilidade em se abrir para o outro, que mesmo não compartilhando das mesmas ideias, tal prática nos habitua a nos colocarmos diante e no lugar do outro, e desta maneira, celebrar as mesmas ideias do aniversariante.
Se a posição de posse do saber fica atrelado a quem fala ou a quem escuta, perdemos a grande oportunidade de aprendermos pela troca, e ficamos sofrendo de uma espécie de surdez emocional, num monólogo de ideias diante do outro, mesmo só escutando ou falando. Não se trata de estar certo ou errado, às vezes estamos errados, e às vezes certos. Trata-se de abrir espaço para manter a chama do outro dentro de nós. O grande norteador do Natal deveria ser estarmos dispostos minimamente a construir algum fragmento dos ensinamentos que a data nos indica a tantos séculos... se partilhamos das mesmas crenças.
Nesta ideia, o Natal passa a ser uma grande festa, expressão de algo em constante construção dentro de nós, que mesmo tendo as próprias ideias e as vezes não partilhando das ideias dos outros, pensar a celebração do Natal desta forma, nos faz reconectar com algo muito mais profundo do que uma simples comemoração que acontece todo os anos. Nesta dinâmica são outros elos que se sustentam, e desta maneira, a festa passa a ter um sentido mais profundo, conseguindo se manter pela verdadeira intenção contida na celebração.
Saímos do narcisismo para olhar e escutar o outro, para nos colocarmos no lugar do outro, desejando estar neste lugar, saindo de si para se colocar numa posição de construção, saindo da disputa e da razão, para estar numa celebração sem posse de valores e de conhecimento, este que é um lugar de fracasso e mal entendidos.
Tive uma grande amiga já falecida que sempre me contava de um Natal no ano de 1954 na França onde ela colaborou com Abbé Pierre, que foi um grande padre humanitário que saiu pelas ruas de Paris para dar comida, cobertor e conforto aos menos favorecidos que sofriam com um inverno extremamente rigoroso. Ele havia feito um apelo pela rádio pedindo ajuda, e Charles Chaplin foi uma das pessoas que também colaborou. Sempre me impressionei com este relato, pelo desprendimento em sair do próprio conforto de um Natal quente, e ir passar o Natal frio de temperatura, mas certamente o lugar onde Jesus estaria se estivesse vivo fisicamente. Que Natal inesquecível ela deve ter tido, rico em generosidade e amor ao próximo. Conversávamos sempre disto e de tantas outras coisas que aprendi com ela ao longo de nossa amizade.
Não estamos no inverno, mas no Natal podemos ajudar de muitas formas os menos favorecidos, e outra coisa que podemos fazer é escutar, é estar com as pessoas, e a partir de então, contribuir para que o Natal seja a festa de estar disposto a olhar o outro que está ao nosso lado, empenhando-se em construir e dar ao próximo o Natal de Paz que desejamos, porque acreditamos nele, ou para deixar o outro contente: Feliz Natal!
Este texto foi escrito ao som da música "Jingle Bells", com o New York Jazz Trio.