O barão

Por José Carlos Brandão |
| Tempo de leitura: 2 min
O autor é da Academia Bauruense de Letras

O homem entrou no bar, foi direto à lixeira, abaixou-se e passou a escolher com presteza os alimentos ainda não estragados, pedaços de coxinha, de quibe, de pastel. Abaixou-se com uma certa dignidade, com nobreza. Não é à toa que eu o chamei de "barão". Tinha um porte altivo, vestido no seu longo sobretudo - e era tempo de calor, mas o sobretudo fazia parte de sua indumentária de um ser superior. Não importava um ou outro rasgo, uma ou outra mancha de sujeira: quem o vestia era um ser especial, acima do comum dos mortais.

Eu me lembrei do "bicho" de Manuel Bandeira, que era um homem. O meu barão não lembrava um bicho, nem um simples homem, mas alguém acima do comum dos mortais. Tinha orgulho o barão, tinha orgulho de sua condição humana. Que circunstâncias da vida o tinham levado àquela decadência? Não, não, mil vezes não. Ali não havia nenhuma decadência. Decaídos éramos nós que o observávamos, que tínhamos vergonha de o observar. Como poderíamos olhar do alto quem estava acima de nós? Olhávamos como se por uma graça especial, de nossa condição decaída. Um homem. Aquele ser que tem orgulho de sua condição. Posso assegurar que o Barão tinha a nobreza desse orgulho. Os políticos que se humilhem com a própria cegueira, os poderosos que se rebaixem com a sua própria insignificância. O Barão, meus senhores, é um homem.

Eu o conhecera em suas andanças pelo centro da cidade. Depois veio a pandemia, fui eu que parei com minhas andanças. Agora mesmo, que a pandemia se foi e não se foi, ainda é um perigo rondando, tenho saído pouco. Assim, não vi mais o Barão. Anda ainda pelo centro da cidade, na Praça Ruy Barbosa, no Calçadão ou na Praça Machado de Melo? Não é meu parente, nem é meu amigo, nem sequer um conhecido - eu o chamei de Barão, tinha um quê de nobre e tinha um certo ar de mistério, que continua, que se acentua. Penso com terror, ou ao menos com dor, que pode ter morrido. Pode ter pegado Covid e não ter resistido. Talvez uma outra doença ou um acidente. Mas não precisamos ser assim trágicos. Não pode simplesmente ter viajado, ou melhor, voltado para o seio de sua família? O fato é que eu me preocupo com o meu barão.

Espero que esteja bem. Espero que não tenha lhe acontecido nada de mal. Alguém precisa ter alguma empatia com a humanidade, com o outro, esse ser tão diferente. Vemos os pobres como bichos (volto ao "bicho" de Manuel Bandeira) ou bandidos. Aqui chegamos ao lema atual: "bandido bom é bandido morto".

Porque temos medo de bandido, não precisamos ser assassinos. Chegamos a temer quem não é como nós, e temos pensamentos assassinos com a maior inocência do mundo. São muito difíceis as relações humanas e nós precisamos melhorar muito para sermos dignos de pertencer à humanidade. Barão, eu o respeito.

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