APOSENTADORIA

O que fazer quando se chega aos 50 sem planejar

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É preciso pegar papel e caneta e pensar na situação atual em todos os sentidos
É preciso pegar papel e caneta e pensar na situação atual em todos os sentidos

Ricardo Mucci não planejou a aposentadoria. Aos 70 anos, aproveita os aprendizados de décadas atuando como jornalista e empreendedor para se dedicar a novos projetos, que lhe proporcionam a renda com que se mantém hoje. "Sempre fui um contribuinte da Previdência, mas me aposentei com 65 anos ganhando um salário mínimo. Não tenho como viver com um salário mínimo, então não tinha muita alternativa", diz o jornalista.

A tendência é que somente a aposentadoria do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) não seja suficiente para a chamada "geração sanduíche", que além de sustentar a si mesma e a seus filhos, presta auxílio financeiro aos pais.

A falta de planejamento para a longevidade é comum. O estudo Tsunami Prateado 2021, da empresa especializada em coleta de dados sobre a população com mais de 50 anos, Data8, mostra que 4 a cada 10 aposentados entrevistados não planejaram sua aposentadoria, número ainda maior para homens e população das classes C e D.

Mas como começar o planejamento? Para Angélica Araújo, planejadora financeira pela Planejar (Associação Brasileira de Planejamento Financeiro), o primeiro passo é refletir sobre o momento atual. "A pessoa precisa pegar papel e caneta e pensar na situação dela hoje em todos os sentidos, saúde, financeiro, social, emocional, profissional, para então definir o que deseja e o que precisa fazer para chegar lá."

A especialista recomenda que a pessoa busque compreender seus gastos e possibilidades de economia, assim como despesas e fontes de renda que pode prever para o futuro. Inicialmente, é importante verificar a situação previdenciária no INSS, buscando informações por meio da simulação e do extrato do Cnis (Cadastro Nacional de Informações Sociais) disponíveis no Meu INSS.

No simulador do INSS, é possível verificar quanto tempo falta para se aposentar em uma das regras de transição criadas pela reforma da Previdência ou na regra definitiva, que exige idade mínima de 65 anos (para homens). Para mulheres, a idade mínima passará a ser de 62 anos a partir de 2023. É preciso ter, no mínimo, 15 anos de pagamentos ao INSS, para quem já era inscrito no INSS quando a reforma começou a valer, em novembro de 2019.

A planejadora ressalta que o benefício do INSS é vitalício, independentemente da remuneração, e pode ser uma importante fonte de renda.

Uma das alternativas para poupar o dinheiro necessário é a previdência privada. Carlos Heitor Campani, consultor de investimentos e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, diz que o ideal é que os aportes comecem o quanto antes, mas que aos 50 anos ainda vale começar a investir na previdência.

Ele recomenda atenção às características do plano para verificar a rentabilidade. Para taxas de administração de fundos previdenciários de renda fixa, sinaliza que o parâmetro do mercado é de 1,5% ao ano, no máximo. Já para fundos multimercado, com maior complexidade na gestão dos ativos, a taxa máxima recomendada é de 2,2% ao ano.

ALTERNATIVAS

Se o valor disponível para investir e gerar 'poupança' não for suficiente para formar uma reserva em dez ou 15 anos, será necessário buscar fontes alternativas de renda, além de rever o estilo de vida para cortar gastos. Neste processo, é importante revisitar o planejamento de acordo com as percepções e necessidades que surgem ao longo do tempo. "O planejamento para a longevidade não é estático, mas se trata de ter equilíbrio hoje, para ter algo positivo amanhã", diz Ricardo Campani.

Além de economizar, pode ser necessário pensar em formas de se reinventar profissionalmente nos próximos anos. Com o mercado de trabalho falhando em absorver a população com mais idade, a saída encontrada por muitos é o empreendedorismo.

"A pessoa vai ter de usar a criatividade e buscar nos seus talentos para ver o que pode colocar a serviço da humanidade e ter retorno financeiro", diz Angélica Araújo. Foi o que fez Ricardo Mucci: o jornalista uniu a necessidade de gerar renda ao propósito de contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas com mais de 50 anos. "Meu foco hoje é empreender, não tem alternativa", diz.

Para Márcia Dessen, planejadora financeira, o objetivo neste momento deve ser de preservar o capital, e não assumir riscos em seus investimentos. Por isso, recomenda priorizar a renda fixa em suas diversas modalidades. "Taxa pós-fixada, um pouco de inflação, eventualmente o pré-fixado se a taxa estiver muito boa, mas eu diria que a taxa pós-fixada que acompanha o CDI mais juros é a alternativa mais adequada para quem quer preservar o patrimônio nesta fase da vida."

A especialista também recomenda que o investidor preste atenção à liquidez diária, em que se pode pedir resgate a qualquer momento sem o risco de perda financeira. Tal atributo pode ser importante para momentos emergenciais, visto que outras alternativas não permitem o resgate rápido sem o pagamento de taxas.

Roberto Agi, sócio da Alta Vista Investimentos, aponta para a importância de aproveitar o momento atual em que há uma conjuntura favorável para quem investe em renda fixa. Para ele, vale fazer um esforço para sobrar um pouco mais no orçamento agora para aproveitar taxas de juros reais mais atraentes.

Ele diz que a previdência privada tem atributos que podem ser benéficos de acordo com os objetivos do investidor. Ao utilizar previdência do tipo PGBL, por exemplo, com a tributação regressiva e aplicação por um mínimo de dez anos, o Imposto de Renda pode chegar a apenas 10% do investimento.

A ideia é que a reserva construída ao longo do tempo forneça a possibilidade de um futuro com mais qualidade de vida.

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