Aconteceu de ser um flerte pelo celular, de alguém fora da cidade; aconteceu de ser loira, caminhoneira, pisar 39, caseira, boa de forno e fogão; aconteceu de ela preferir bermuda a calça, de rirmos baixiiinho onomatopeias dilatadas; aconteceu numa noite com chá quente de frutas vermelhas para brindarmos nossos defeitos, já que nossas qualidades ninguém as enxerga; aconteceu, longe de se apegar a detalhes, de ela se banhar três vezes ao dia com sabonete Lux, creme hidratante Nivea, xampu Pantene; de visitar o que ficou do tempo represado nas ruas de riso hidratado do Bela Vista; de ganhar estrada pra um hotel-fazenda. Aconteceu, de quando criança, descobrir Monteiro Lobato e na curiosidade meter o narizinho; aconteceu na vida adulta de ler Guimarães Rosa e a vida ser tão... Aconteceu de o celular demitir a curiosidade infantil, a necessária criatividade. Aconteceu de embora soubesse que todo homem tivesse seu preço, gostaria de saber se, com a crise, haveria a possibilidade do desconto. Aconteceu de caber à História explicar a transição do voto impresso para o voto eletrônico; livros de História explicarem quem foram Jair e Luiz; professores de História explicarem as diferenças entre popular e populista; historiadores explicarem o processo democrático; políticos, historicamente, nada explicarem; isso, enfim, explicar histórias.
Aconteceu e isso acontece de quem, no novelo da vida, elegeu ficar só, só pra se viver. Aconteceu de o amor ser ocupação. Sexo, invasão. Aconteceu - que coisa - de vestir o corpo para esconder seus defeitos; daí a palavra água para se banhar; por isso, a palavra fogo para cozinhar o instante que se impõe cru; enfim a palavra ar, motivo de pensamentos esvoaçantes.
Pode acontecer de ao guardar nossas roupas, eu me atenha às lembranças abotoadas, ao que a memória reteve em cada peça no guarda-roupa do tempo. Aconteceu e isto pode levar um tempo pra compreender que a rotina da boca é o beijo; do beijo, o desejo; do desejo, o apelo; do apelo, teu nome; do teu nome, meu nome; dos nossos nomes, a família.
Aconteceu - isto acontece - de alguém sentir a inutilidade das horas, se pela manhã é chave, bolsa e documento, banho, a metafísica solitária do guarda-chuva, casa varrida balde e sabão, chá adoçado e derramado pela afoiteza das mãos, aspirinas engolidas, exame de sangue, alergias, unhas manicuradas, bolo de fubá com papel alumínio no fogão. Pela noite, portão com cadeado, lixo recolhido, novela, espera estendida, pizza, luz acesa, palavra, pele ofendida, palavrão, balada, vento aprazível, olhos demorados de admiração, o lugar cúmplice, silêncio de um se apresentando à timidez da outra, febre, fofoca, novidades a granel, início de simpatia, gente gasta pelo dia terminando a noite no bar, bar regurgitando gente, gente de felicidade ruidosa na rua.
Acontece de alheio às horas e avulso ao devir, eu sinta saudade de você e ao pronunciar seu nome eu me confunda com a palavra rio e o que se vive da travessia de uma margem à outra; que suas mãos repousam em mim a definição de uma xícara, quente de dentro pra fora; o modo como a simetria organizada de seus cabides bagunçava minha vida, como ter um apartamento me fazia me sentir em casa; o modo como você pura prosa, e eu, poesia, não sabia lê-la.
O autor é colaborador do JC.