"O Brasil cria carros autônomos já pensando que o sinal de Internet vai cair quando estiver na estrada", brincou Rafael Cervone, presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), ao comentar, durante evento em Bauru na última sexta-feira (28), as macrotendências mundiais até 2040 para o setor industrial como um todo - uma das quais a evolução tecnológica nos veículos.
A plateia presente no Ciesp Bauru e o palestrante riram. Contudo, Cervone admite a problemática por trás da brincadeira. Como, afinal, o Brasil pretende acompanhar as mudanças do futuro com os obstáculos do presente?
A resposta, segundo o próprio presidente do Ciesp, está na implementação de projetos duradouros, as chamadas políticas de Estado, em detrimento de medidas de curto prazo - que valem só para o governo da vez.
"O Brasil passa por um processo de desindustrialização. A indústria representa 11,5% do PIB, mas tem um terço da arrecadação de impostos nas costas. Precisamos pensar no País e em políticas que efetivamente dão certo", afirmou o presidente em entrevista ao JC.
FATORES
A apresentação de Cervone, "Macrotendências Mundiais até 2040", foi baseada em um levantamento do Ciesp, feito em parceria com a Fiesp, que reúne mais de 300 estudos, de dezenas de instituições, com previsões sobre o futuro de cada setor da sociedade.
O documento, que soma cerca de 300 páginas, leva em consideração quatro determinantes para indicar os rumos do mundo até 2040: crescimento e envelhecimento populacional; crescimento do PIB e da renda per capita; desenvolvimento sustentável; e evolução tecnológica.
São fatores que se cruzam, e Cervone destaca que o papel da indústria é indispensável para que eles convirjam. Mas há muito a ser feito, pondera o presidente do Ciesp, e reformas estruturais no País são, segundo ele, o primeiro passo para engrenar o Brasil no caminho moderno para 2040. "A começar pela reforma tributária, seguida pela administrativa", complementa.
POPULAÇÃO
O aumento populacional é uma das discussões do estudo, que prevê 9 bilhões de pessoas no mundo em 2040. O leste asiático ainda será o ponto mais concentrado, com pouco mais de 2 bilhões de indivíduos, e o maior crescimento até lá está previsto para ocorrer na África, cuja população deve superar 1,8 bilhão.
"Não é à toa que os chineses estão investindo na África", diz Cervone, que também critica os ataques já proferidos pelo governo federal à China. "O mundo está conectado. Precisamos de relações isonômicas. Precisamos falar com todos. A abertura unilateral é um erro de diplomacia", classifica.
Em um 2040 mais tecnológico do que o mundo atual, a busca por profissionais de Tecnologia da Informação (TI) também vai aumentar. Hoje, o setor já enfrenta hoje uma demanda reprimida e Cervone alerta para a "fuga de cérebros" ao Exterior.
"Profissionais de TI do Brasil estão sendo contratados por empresas de outros países para trabalhar em home office. É atrativo, pois são empresas que pagam em dólar e oferecem versatilidade", explica. Segundo o presidente do Ciesp, a busca por flexibilidade no emprego indica um novo perfil dos trabalhadores e uma demanda sobretudo da chamada 'indústria 4.0', que deve se consolidar até 2040, mas que ainda precisa ser desenvolvida no Brasil.
Embora o caminho seja longo, admite Rafael Cervone, o País tem condições de se industrializar novamente. "Temos técnica, mão de obra, recursos e criatividade. Faltam políticas que deem condições", conclui.