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Couro Moda 99

Márcia Buzalaf
| Tempo de leitura: 8 min

Indústria calçadista quer de volta mercado internacional

Indústria calçadista quer de volta mercado internacional

Texto: Márcia Buzalaf

A indústria do calçado do Brasil tem um grande aliado: o próprio mercado interno que, diferentemente de outros setores da economia, dá preferência aos produtos nacionais. Com base nesta constatação, a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (AbiCalçados) prevê um ano otimista, mas que terá que recuperar o espaço do sapato brasileiro no mercado externo.

Cerca de 30% dos negócios feitos durante todo o ano no setor calçadista são provenientes dos contatos feitos na maior feira de calçados da América Latina, a Couromoda, que foi do dia 12 ao dia 15 de janeiro no Parque Anhembi. Em sua 26ª edição, o maior desafio para os 630 expositores é provar que o mercado foi um dos únicos que manteve uma média de faturamento condizente com aquele de 97.

A estimativa da produção brasileira em 98 ficou na marca dos 550 milhões de pares, contra os 544 do ano anterior. Para a exportação, os números apontam a queda: até novembro de 98, foram exportados 118 milhões de pares, que somam uma quantia de US$ 1,2 bi, contra os 142,4 milhões de pares em 97, que somaram US$ 1,52 bi.

A afirmação de que o Brasil exporta impostos é completamente aceita pelos industriais do setor calçadista. De acordo com o presidente da AbiCalçados, Elcio Jacometi, o ano de 98 representou perda de 9% do volume de exportação e uma queda de 13% no faturamento dos produtos enviados ao exterior. Em 97, o faturamento das exportações de sapatos rendeu, para a indústria brasileira, US$ 1,52 bi, contra a previsão de US$ 1,32 bi do ano passado (os números do setor ainda não fecharam e esta quantia é uma estimativa da AbiCalçados).

Os elevados encargos e a concorrência considerada desleal com os produtos asiáticos de baixo custo são as principais causas do enfraquecimento do setor na exportação, embora o sapato brasileiro seja visto como um produto de alta qualidade e comparado aos italianos.

Para reverter o quadro e conseguir alavancar novamente a força da indústria calçadista nos Estados Unidos e Europa, principais importadores dos sapatos brasileiros, o setor não acredita em milagres: o sucesso ou não do desempenho depende de vários fatores internos - na questão do custo da exportação e do próprio produto nacional

- e fatores externos - como a condição econômica dos outros países.

O maior parte das exportações dos sapatos brasileiros vão para os Estados Unidos. O mercado mais promissor, entretanto,

é o do Mercosul, que tende a crescer o volume exportado, em especial, a Argentina.

O euro também pode representar chances de aumento do mercado para a indústria nacional. Se a nova moeda mantiver-se valorizada em relação ao dólar, as portas do velho mundo podem se abrir com mais facilidade para os produtos brasileiros.

Internamente

A situação do mercado interno é mais favorável do que o externo. Foi o mercado brasileiro que ajudou a manter os patamares de movimentação de 97, já que a exportação teve queda durante o período.

A demanda doméstica do ano passado cresceu bastante no segundo semestre, fazendo com que as 4 mil indústrias de calçados do Brasil tenham ostentado grandes vendas no período do Natal (dados ainda não compilados).

Este forte movimento garantiu que as indústrias tivessem que repor os estoques no começo do ano, dando um ar otimista ao ano que inicia com turbulências.

A importação de sapatos vem declinando cada vez mais no país. Com a alta produção nacional, e o benefício de ter a confiança do mercado interno, a indústria nacional ainda tem o trunfo de ser soberana para os consumidores brasileiros.

Indústrias

Os estandes da Couromoda sempre buscam chamar ao máximo a atenção dos lojistas e da imprensa.

Um dos que apresentou maior criatividade na edição de 99 foi o da Sândalo, que montou uma minifábrica para mostrar como o calçado é feito. O público presente acompanhou a produção do sapato passo a passo, o que garantiu um diferencial maior na competição de cores e modelos dos outros estandes.

Outro estande que tinha uma proposta diferente era o do Sebrae, que, além de dar informações sobre o setor calçadista, apresentou algumas pequenas do setor que vem tendo destaque e que puderam mostrar os produtos juntamente com os grandes fabricantes nacionais.

As Alpargatas, que fazem os chinelos Havaianas, de acordo com o gerente de marketing, Hildo Calgaro, teve uma queda de 50% no volume exportado em 98, que, segundo ele, se dá pela falta de força da marca frente ao mercado internacional, problema que não deve é enfrentado no território nacional.

No próximo ano, a empresa pretende triplicar a marca de exportação de 98, principalmente para a Venezuela, Bolívia, Paraguai e Estados Unidos. A empresa deve investir na exportação para a Argentina também.

Outro indicativo de mudança é em relação aos preços. A maioria dos produtos tiveram queda no preço ao consumidor.

A Grendene, segundo o assistente de marketing, Giancarlo Galbo, optou por não realizar nenhuma venda durante a feira. "Apenas contatos", afirmou. O principal produto da marca é a Rider, que representa 50% do movimento total da Grendene.

A empresa engloba a Melissa, a Grendha, a Rider e mais 12 linhas infantis licenciadas, entre a Disney, Carla Peres, Xuxa, Mamíferos e Bananas de Pijamas. Cerca de 30% do faturamento da Grendene se deve aos produtos infantis. Em 98, esta porcentagem representou R$ 400 milhões.

Cerca de 12% do volume de produção da Grendene é exportado, afirmou Galbo. Os principais países são os do Mercosul, dos Estados Unidos e da Europa.

Uma das empresas que mais se destacaram na preocupação com a natureza - que acabou tendo reflexos positivos no financeiro da empresa - foi a Bibi, indústria sulista de calçados infantis que tem o orgulho de ter sido a primeira do Brasil no setor.

Em 98, 6% da produção foi enviado para 19 países que importam o produto. Para 99, o objetivo da Bibi é aumentar para 9% a exportação.

Mercado nacional fortalece indústria calçadista

Em entrevista para o Jornal da Cidade, o presidente da Couromoda 99, Francisco Santos, deu um panorama de como está a indústria nacional e deu indícios de que os objetivos de 99 são manter o mercado nacional e aumentar significativamente a exportação perdida em 98. Confira os melhores trechos da entrevista:

Jornal da Cidade: Como está começando a Couromoda deste ano?

Francisco Santos: Está começando bem, com 630 expositores, sendo que cerca de 20 são do exterior, e mais de quatro mil profissionais visitando a feira.

A Couromoda começou bem, com muitos lojistas e as vendas já começaram a ser realizadas, o que é importante. Tudo leva a crer que aquela nossa expectativas de uma venda positiva para este ano serão contempladas.

O Brasil é um fornecedor natural de calçados para a região do Mercosul. Nós esperamos, com isso, aumentar as vendas para aqueles países.

JC: Muitas vendas acontecem na feira mesmo?

Santos: A Couromoda é a única feira do semestre e ela é responsável por mais de 30% que o segmento comercializa no ano.

A nossa expectativa é de uma comercialização de R$ 1,8 a R$ 1,9 bilhão só na feira e em função da feira, já que, muitas vezes, o lojista vem visitar a feira e a comercialização acaba acontecendo na loja mesmo.

JC: A feira também tem expositores de fora do Brasil?

Santos: Tem cerca de 20 expositores. Não é que nós não aceitamos expositores de fora, é que os expositores de fora têm dificuldade de vender no Brasil, porque nós temos um sapato muito competitivo. O Brasil consegue se auto abastecer com as fábricas brasileiras sem ter que importar.

JC: Como está o mercado?

Santos: No ano passado, o mercado se manteve no mesmo tamanho dos patamares de 97, com um crescimento no mercado interno. Nós tivemos uma queda de 15 milhões de pares na exportação, que foram recolocados no mercado brasileiro.

Os maiores problemas são a composição do preço, além do Custo Brasil embutido nos nossos sapatos. O aumento da banda cambial já é um bom caminho. Outra alternativa é amenizar os impostos sobre os nossos sapatos. O consumidor não quer comprar imposto, ele quer comprar sapatos e o norte-americano é muito radical nisto. Por isso, estamos perdendo mercado.

A indústria nacional vem perdendo mercado há cinco anos. Foi perdido cerca de US$ 700 milhões nos últimos cinco anos, principalmente, nos Estados Unidos, mas na Europa, também.

JC: Como é o mercado do Mercosul?

Santos: É um ótimo consumidor. Podemos entregar de caminhão o produto. Se o cliente tiver algum problema, estamos mais próximo. A vantagem que os europeus têm em relação a nós, nós teremos em relação ao Mercosul.

JC: E o mercado nacional?

Santos: O mercado nacional é a nossa primeira preocupação. Depois, vem os países do Cone Sul, e, a partir daí, a gente quer buscar nosso espaço de volta nos Estados Unidos e na Europa.

Felizmente, a indústria nacional tem um grande mercado aqui no Brasil, que só compra e só usa sapatos nacionais. Isso, não por imposição, mas, sim, por escolha.

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