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Análise econômica

Paulo Toledo
| Tempo de leitura: 8 min

Plano Real acabou, diz economista

Plano Real acabou, diz economista

Texto: Paulo Toledo

O Plano Real praticamente não existe mais com essa liberação do câmbio, porque o ponto chave do câmbio era justamente a âncora cambial. A afirmação é do economista e professor universitário Said Yusuf Abu Lawi, 35 anos, que, desde a implantação do Plano Real, afirmava que o plano era suicida e estava fadado a "fazer

água".

Said Yusuf diz que todos têm uma parcela de culpa pelo fracasso do plano, pois como todos ficaram elogiando o real, falando bem do plano, dizendo que era maravilhoso, que era excelente, o governo relaxou e gastou, aumentando o endividamento público. Para ele, era necessário se ter uma oposição, não ao plano, mas aos atos do governo, para que houvesse um controle.

O economista acredita numa escalada de preços porque os comerciantes e industriais ficaram quatro anos privados de uma folga no caixa, na maioria do setores. A volta estagflação, vivida após o Plano Collor, é outra previsão do economista.

Ele acredita que o governo não tem saída para tentar controlar o aumento da dívida externa, estimada em R$ 368 bilhões. Veja os melhores momentos da entrevista.

Jornal da Cidade - O senhor previa, desde os primeiros meses do Plano Real, que haveria graves problemas, que não seria possível suportar o modelos adotado. Agora, temos esse terremoto. O senhor estava certo desde o começo?

Said Yusuf - Até demorou para estourar. Não sei como foi possível segurar tanto tempo. O Plano Real praticamente não existe mais com essa liberação do câmbio, porque o ponto chave do plano era justamente a âncora cambial. O real era uma moeda dita forte, em relação ao dólar, mas de uma maneira artificial. Cansei de explicar que a paridade cambial quem fixa é o Banco Central (BC) de qualquer país. Pode chegar e falar que sua moeda vale US$ 2,00, fica a critério de cada BC. O problema é sustentar isso, pois existem outros elementos que vão de encontro a essa âncora. Com a liberação do câmbio, essa é a realidade, o plano já acabou.

JC - O que ocorrerá agora?

Said Yusuf - O que vem daqui para frente, no pós-real,

é um período, ainda, que o governo não tem uma definição clara da política monetária, muito menos da política fiscal e das demais políticas que compõem o contexto da administração de uma nação.

JC - Qual é o futuro do Brasil? Volta a hiperinflação?

Said Yusuf - O que ocorreu, até para o Plano Real ter tido sucesso, pois o considero suicida, foi o governo segurar a inflação trabalhando de forma setorial. Alguns setores tiveram aumentos de preços em determinados momentos. Em outros, houve uma retração de preços. E como conseguiu fazer esse jogo? Foi através das importações. Trabalhou muito em cima das importações, inclusive queimando reservas cambiais, dólares que estavam sendo investidos aqui.

O pessoal não se deu conta do tamanho do rombo! É maior do que os US$ 41 bilhões do FMI (Fundo Monetário Internacional). Como foi feito isso? É o seguinte, à medida que foi entrando moeda estrangeira, o governo foi utilizando-a para pagamento de serviços da dívida, amortização de dívida e para importações. Se checar quanto importamos de quatro anos para cá, em relação

às exportações, é um crescimento fenomenal, são bilhões e bilhões de dólares, pagos com dinheiro dos outros.

Ocorre que esses investidores estrangeiros e, mesmo, os nacionais que colocam seu dinheiro no exterior, retiraram essa moeda e vão continuar retirando, à medida que isso for possível. O que vai ocorrer? É aí que vamos saber o tamanho do rombo, à medida que todos possam retirar seus recursos. Quando zerar as reservas, vamos ver o quanto mais ainda há para se retirar.

JC - Quanto é isso?

Said Yusuf - É superior aos US$ 41 bilhões que o FMI iria emprestar para o Brasil. Aliás, comentei com vários colegas que esse dinheiro não viria por inteiro, só a primeira parcela. Corremos o risco de não receber o restante. O que vai ocorrer daqui para frente, com essa indefinição das políticas, é, de fato, a possibilidade da volta da inflação, porque o governo, através desse jogo das importações, conseguiu fazer com que o empresariado se calasse, ou seja, muita gente entrando em concordata e falindo. O governo conseguiu abafar qualquer reação do empresariado.

JC - Qual é a reação?

Said Yusuf - Agora, muitos empresarios, com essa chance de liberação do câmbio, sem dúvida alguma, começaram a fazer reajustes de preços. É claro que tem o agravante do desemprego. Se reajusta o preço, como faz? Não tem consumidor. Mas, aí a gente recai no que aconteceu no Plano Collor, que é a chamada estagflação. As vendas são poucas mas não tem problema, pois estou com uma margem de lucro elevada, que é suficiente para meu ganho. É assim que o comerciante e o industrial vão passar a pensar, a partir de agora, pois ficaram quatro anos privados de uma folga no caixa, na maioria do setores. Então, a tendência é uma escalada de preços. Não sei até que ponto isso iria.

JC - Mas, e o governo?

Said Yusuf - O governo está sendo totalmente contraditório. Assim que o ex-presidente do BC, Gustavo Franco, caiu, o Fernando Henrique (Cardoso), disse que os juros iriam baixar. Depois de alguns dias, disse que o juros iam aumentar. Disse que os juros iam baixar e era a razão da liberação do câmbio, para aquecer a economia. Só que, depois, disse que ia aumentar o valor dos juros para segurar o valor do dólar. Qualquer medida que tomar, de aumentar ou baixar os juros, será prejudicial para as contas públicas, pois 30% da dívida em títulos é lastreada pelo dólar, com variação cambial.

Se diminui os juros para reduzir os serviços da dívida externa, o dólar dispara e fica com uma variação cambial absurda sobre 30% da dívida. Se aumenta os juros para segurar o dólar, consegue abafar 30% da dívida, mas os outros 70%, com os juros altos, disparam também. Estou falando de uma dívida estimada em R$ 368 bilhões. Não tem muita perspectiva.

JC - Como sair desse emaranhado?

Said Yusuf - A liberação do câmbio foi importante, mesmo porque o real estava sobrevalorizado frente ao dólar! Deixar a moeda flutuar também é importante, pois o que regula é o mercado. É verdade que o mercado de dólar é altamente especulativo. Mas, é importante deixar a moeda flutuar sem qualquer interferência do Banco Central. Quanto às taxas de juros, também seria importante o governo liberar. Acredito que na tendência da liberação da taxa de juros sem a interferência do governo, porque ele diz que não interfere, mas interfere, sim. A taxa de juros é uma coisa banstante simples. É a quantidade de moeda. Se tem muita moeda em circulação o juro é baixo. Se tem pouca moeda o juro é alto. Juro é o preço da moeda. Bastaria ele dosar a quantidade de moeda necessária para se fazer as transações econômicas dentro do País, em um ano, e liberar essa taxa de juros, deixá-la flutuar também. Não há necessidade de ficar interferindo. O governo tem suas razões para mexer, mas, até o momento, todas as interferências que tem feito foram prejudiciais a ele mesmo. Essa é a realidade.

JC - Então o governo está certo em liberar o dólar?

Said Yusuf - Não, veja bem, se me perguntar, vamos fazer o Plano Real novamente? Afirmo que não, pois desde o início já vinha dizendo que era uma loucura, um plano suicida, pois sempre há interesses excusos e políticos nesse meio. Não faria um plano econômico dessa forma, inibindo produção.

Vai resolver liberar o câmbio ou a taxa de juros? É necessário avaliar o contexto e, nesse caso, o contexto global. Porque existe, ainda, uma parcela de investidores que não retiraram seus investimentos no Brasil. Dependendo das medidas que o governo tomar, pode até atrair novos investimentos.

JC - Mas, nesse contexto globalizado, existem outros países buscando fugir da crise...

Said Yusuf - É, do outro lado do mundo, tem a China ameaçando desvalorizar a moeda dela. O ajuste cambial foi feito, principalmente, em função da balança comercial. Se o Brasil quer ajustar sua balança comercial, quer vender mais para o exterior, o outro país, do outro lado do mundo, se vê prejudicado e, também, desvaloriza a moeda dele. Então, tem esse contexto global e fica difícil falar se o governo acertou, mesmo porque não se sabe o que vai acontecer do outro lado. Aliás, se a China tivesse desvalorizado a moeda antes, o Brasil faria o mesmo. É uma qestão do mercado global.

JC - É tudo ruim?

Said Yusuf - Eu sempre faço essa ressalva: todo mundo teve um pouco de culpa. O que faltou nesse tempo todo foi oposição. Onde que o governo errou? O próprio FMI acusa e outros países acusam que o erro do Brasil foi justamente no gasto público. Como ficou todo mundo elogiando o real, todo mundo falando bem do real, dizendo que era maravilhoso, que era excelente, o governo relaxou e gastou. Teria que ter uma oposição, não ao plano, mas aos atos do governo, para que houvesse um controle. Se tivesse sido feito desde o começo, com União, Estados e municípios fazendo cortes no orçamento, estaríamos numa outra situação hoje.

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