Favelados transformam lata de doce em prato
Favelados transformam lata de doce em prato
Texto: Erika de Lima
Os moradores das favelas de Bauru, como de todo o País, diante das dificuldades pelas quais passam, são mestres na arte do improviso. Uma lata de doce, normalmente destinada ao lixo, transforma-se em panela ou prato e lençóis são feitos usando pedaços de retalhos. Para quem muito pouco ou nada tem, tudo serve.
Um exemplo é da dona de casa Odete Pereira Nekis, 53 anos, moradora do Jardim Holanda. "Eu faço o lençol a mão, com panos dados por amigas já que não tenho dinheiro para comprar e necessito", disse.
Mais do que em qualquer lugar, na favela a união entre vizinhos é importante para sobreviver no dia-a-dia e nas reivindicações. Quando falta - e sempre falta - algum alimento na dispensa, é ao vizinho que eles recorrem, assim como quando precisam transportar alguma coisa.
Não só as chuvas fortes causam problemas às favelas e bairros da periferia. A ausência de uma infra-estrutura básica, como rede de esgoto e asfalto, contribui para que os moradores vivam, muitas vezes, em locais de riscos ou em condições precárias.
Unidos, os moradores do Jardim Holanda que tiveram seus barracos destruídos pelas chuvas do último domingo, reivindicaram e conseguiram um outro lugar para morar. "Ligamos para a Defesa Civil, falamos com o Brito (Álvaro) e ele, junto com o Carlão (líder do bairro), nos ajudou a encontrar um lugar para morar", disse Altair Lopes, 27 anos, servente de pedreiro que perdeu o barraco com a chuva de domingo passado.
Os vizinhos que não tiveram seus barracos danificados ajudaram, no que podiam, as duas famílias do bairro que ficaram desabrigadas: ofereceram casa para os desabrigados dormirem, além de cooperar com o carregamento dos materiais para a reconstrução das moradias.
"Eu e os vizinhos colocamos as madeiras que sobraram no meu caminhão e as transportamos para o terreno da Ferroban
(antiga Fepasa). Local em que irão morar", afirma o líder do bairro, Antônio Carlos Egídio.
A improvisão ocorre de acordo com o que os desabrigados têm ao seu redor. Um exemplo é o da dona de casa Roseliane Gerson Ramos, 29 anos, que, pela falta de gás, buscou lenha nos arredores do bairro para fazer comida para seus três filhos pequenos.
Os filhos de alguns desabrigados ficam com os tios, para que os pais possam trabalhar. Mas não são todos que têm famílias na cidade e aí, então, o socorro vem dos vizinhos. Além dos barracos, a chuva do último domingo destruiu móveis, alguns alimentos e roupas dos moradores do Jardim Holanda.
Alguns favelados, quando está chovendo, ficam acordados a noite inteira com receio do barraco ser invadido pela enxurrada e até cair. "Quando chove eu coloco as crianças para dormir e fico acordada, pois assim posso socorrê-las", afirmou a dona de casa e moradora há cinco anos do Jardim Holanda, Edite Lopes de Castro, 36 anos.
Para o coordenador da Comissão Municipal de Defesa Civil,
Álvaro de Brito, os moradores estão pensando no coletivo, o que é um ponto favorável. Alguns moradores do Jardim Nicéia, apesar do bairro ter rede de água, ainda precisam buscar água, a pé, para abastecer suas casas e barracos.
O problema é que sempre falta água e a reserva da maioria das casas é muito pequena. Então, os moradores enchem tambores para que, assim, possam lavar louça e dar banho nas crianças com o auxílio de canecas.
A criatividade, impulsionada pela necessidade, pode ser observada em praticamente todas as casas. A lata vazia de marmelada ou o pote de margarina serve de prato. Já quem perdeu o colchão com a chuva, forra o chão com jornal e lençol e, apesar de nem um pouco confortável, improvisa uma cama.
Em tempo de desemprego e crise, agravado pelos danos causados pela chuva, a população dos bairros mais pobres deixam de consumir uma série de produtos, substituindo-os por outros mais baratos ou até encontrados de graça.
"A gente faz comida no fogão a lenha, pois não temos gás", explicou Benedito Gonçalves, 46 anos.
Ele está desempregado e tem três filhos para tratar. Sua casa foi destelhada no temporal do último domingo, mas com ajuda de alguns vizinhos, conseguiu consertá-la. Depois dos estragos, as chuvas não são tão bem-vindas, principalmente pelas crianças, como Letícia, 8 anos, e Débora Ramos Lopes, 9. Elas têm medo da chuva.
No Ferradura Mirim, a chuva de domingo passado também causou vários destelhamentos. Um deles foi na casa de Cleonilda Duarte, 19 anos. A cozinha, o banheiro e o quarto da casa ficaram descobertos e, com isso, ela perdeu a mesa, o colchão e vários alimentos.
Agora, o jeito é comer segurando os pratos na mão, no sofá da sala. Os vizinhos ajudaram a colocar um folhão no lugar do telhado da casa de Cleonilda. O material foi emprestado por seu cunhado e, pelo menos, evita que chova dentro da casa.
A insônia faz parte da noite de alguns moradores do Ferradura, que não dormem por medo de que o poste da iluminação pública, que fica próximo a algumas casas, caia
à noite. "Não durmo principalmente quando chove porque vem a enxurrada e, como o poste de luz está torto, pode cair em cima da minha casa", relatou a dona de casa, Ivone Aparecida da Silva, 26 anos.
O arroz e feijão
Na alimentação, a população carente
não pode e nem tem como improvisar porque, normalmente, já consome o básico: arroz e feijão. Se a situação é complicada há muito tempo, agora, com a crise financeira que o País atravessa, alto
índice de desemprego e as constantes chuvas fortes que inundam as casas da periferia, tudo piora.
A equipe de reportagem presenciou, no Jardim Holanda, a dona de casa Ana Paula Lopes cozinhando apenas arroz para os seus três sobrinhos pequenos. As crianças estão morando em sua casa porque o barraco em que viviam desabou com a chuva da semana passada.
Apesar do bairro ser carente, sempre aparece alguém para ajudar, para doar um pouquinho daquilo que tem. No Ferradura Mirim, por exemplo, os moradores afirmam que se mobilizam quando há alguém em extrema necessidade, seja de alimento ou materiais para consertar o barraco, por exemplo.
Também afirmam que, às vezes, unem-se para arrumar um cano estourado ou tapar um buraco aberto na rua. "Se estoura um cano, os próprios moradores mobilizam-se para conseguir o material e, depois, arrumar. Se esperarmos pela Prefeitura, nunca será consertado", afirma Fábio Corrêa, 18 anos, indignado.
Cleusa de Oliveira, 42 anos, dona de casa, concorda com o vizinho. Ela, sempre que pode, ajuda nesses serviços porque já entrou enxurrada em sua casa, o que a deixou em pânico, e isto ela não quer pra ninguém.
Conforme o coordenador da Comissão Municipal de Defesa Civil, Álvaro de Brito, quando houver uma conscientização nos bairros, de que o problema não é individual e sim coletivo, haverá solução para os problemas.