E viva a mulher!
E viva a mulher!
Texto: Gustavo Cândido
Foi preciso uma tragédia para chamar a atenção do mundo sobre a situação em que as mulheres viviam no final do século passado e começo deste século. Tudo aconteceu em 1857, quando centenas de operárias que reivindicavam a redução da jornada de trabalho e o direito à licença-maternidade morreram queimadas por policiais em um fábrica têxtil de Nova York. O episódio serviu como ponto de partida para que em 1911 fosse instituído, no dia 8 de março, o Dia Internacional da Mulher.
Mas além da data, a mulher conquistou muito mais no século XX. Adquiriu o direito de voto na maioria dos países, o direito de trabalhar e receber salários equivalentes aos dos homens, o direito de ocupar cargos públicos importantes, participar de competições esportivas e vários outros direitos naturais que durante anos lhes foram negados por uma filosofia machista preconceituosa. Na virada do milênio, a mulher é vista como quem já evoluiu muito, mas não tudo o que pode.
Para o professor Darvino Concer, diretor da Escola de Ensino Médio do Sagrado Coração da Universidade do Sagrado Coração
(USC), estamos vivenciando nesse fim de século, uma grande conquista da mulher, que saiu da pilotagem atrás do fogão para pilotar empresas. A escola, como faz todos os anos, vai distribuir amanhã, dia Internacional da Mulher, uma rosa para cada uma de suas alunas e funcionárias, em sinal de um reconhecimento orgulhoso por esse avanço.
Segundo o professor, a atuação da mulher tem feito com que o homem mude a sua maneira de ser e cita como exemplo empresas em que o trabalho feminino tem trazido mais sensibilidade e capacidade de observação.
"Existe sempre a brincadeira em torno do dia da mulher que diz que os outros dias são dos homens", comenta Concer. Realmente, de acordo com o professor, existe uma disputa entre homens e mulheres mas essa disputa agora é de igual para igual, de competências não de exclusão. "A mulher conquistou seu espaço através de movimentos, como o feminista, mas principalmente pela sua competência". diz.
As mulheres avançam cada vez mais no mercado de trabalho e em algumas áreas já são a maioria como nas escolas, onde o número de professores está sendo cada vez menor. Um dos fatores para esse caso específico
é o fator econômico, os homens têm deixado a docência para se dedicar a atividades diferentes, mas existe outro detalhe que vale também para as outras áreas: os homens têm deixado um espaço em aberto e as mulheres se estabelecido com base na sua competência. "Quem não tem competência não se estabelece", lembra Darvino Concer. As conquistas femininas significam uma melhoria de qualidade para o mundo na visão do professor.
"Antes possuíamos um mundo unilateral e hoje temos um mundo bilateral, por suas competências e daí há um ponto de equilíbrio", diz.
Para o futuro a tendência é que as mudanças no relacionamento entre homens e mulheres continuem acontecendo em um ritmo mais acelerado. "Só não sei em que áreas elas vão tomar lugar", afirma Concer,
"o importante é o equilíbrio entre os dois. Afinal nós fomos feitos um para o outro".
Desigualdade marca o perfil do trabalho feminino na virada do milênio
Apesar do aumento da participação da mão-de-obra feminina no mercado brasileiro de trabalho, a precariedade das condições e dos ambientes de trabalho, a desigualdade salarial em relação aos homens e a discriminação constituem os principais desafios das mulheres neste final de milênio. Segundo o DIEESE, as mulheres representam 50,7% da população total do Brasil (157.070.163) e 40,6% da população economicamente ativa (73.120.101).
As dificuldades femininas no mercado de trabalho incluem também as diferenças físicas, psicológicas e hormonais, o assédio sexual e a responsabilidade pelas tarefas domésticas. Estudos da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro), apontam o estresse como um dos graves fatores de risco do trabalho feminino, principalmente devido à sobrecarga de trabalho motivada pela "dupla-jornada"
(emprego e tarefas domésticas) e da discriminação, que exige maior esforço em função da competitividade em relação aos homens.
"O estresse provoca maior desgaste no organismo da mulher, tornando-a mais vulnerável a dores pré-menstruais, abortos espontâneos e à displasia mamaria. Outro distúrbio que vem causando sérios problemas à saúde das trabalhadoras é a LER, em função da execução de tarefas que envolvem movimentos repetitivos", explica a diretora da área técnica da Fundacentro, Sonia Bombardi. Ela lembra outros exemplos de agressão
à saúde da mulher. "Em muitas atividades industriais, a exposição a agentes químicos pode causar a menopausa precoce, antes dos 40 anos, além de provocar abortam deformação do feto, dermatoses, asma ocupacional, entre outros males. "O trabalho do campo, principalmente em culturas com intenso uso de agrotóxicos, herbicidas ou fertilizantes artificiais também causam esses distúrbios", alerta Sonia.
Com o crescimento da participação da mão de obra feminina no mercado informal, as mulheres ficam mais expostas
à condições precárias de trabalho, já que não contam com dispositivos legais de proteção que regulamentam a atividade formal.
Mesmo com o nível de escolaridade superior ao do homem, a mulher não atinge os mesmos salários. Elas recebem, em média, cerca de 60% da remuneração masculina. Isso é o que mostra a pesquisa do programa desenvolvido pelo Ministério do Trabalho e Emprego, em parceria com a OIT/Brasil, do qual a Fundacentro participa. O objetivo do programa
é a implementação, no País, da Convenção 111, da OIT. O documento prevê ações para erradicar qualquer distinção de raça no Brasil.
"Na indústria de transformação, por exemplo, a média de remuneração para o homem com menos de 7 anos de escolaridade é de 4,6 salários mínimos, enquanto a da mulher é de 2,7. Só com 11 anos de estudos é que ela consegue atingir algo similar", explica Maria Cecília Moura, do Ministério do Trabalho.
Desde a promulgação da Constituição de 1988, que estabelece a exigência de concurso para acesso a cargos públicos, vem crescendo o número de promotoras, juízas, fiscais e procuradoras. "Isso mostra que, em igualdade de condições, as mulheres vêm se destacando", comenta Cecília. Por outro lado, na
"divisão sexual" do trabalho, cabe às mulheres as chamadas "atividades femininas": professora de 1º grau, secretária, costureira, telefonista, doméstica, que abrigam cerca de 80% da mão de obra feminina. Apenas em torno de 15% trabalham na indústria, onde o rendimento
é maior.
Um levantamento realizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), em 1995, sobre os empregados em cargos de chefia na indústria brasileira, mostrou que os homens ocupam 93,14% dos postos de direção contra apenas 6,86% das mulheres. No segmento de alimentação, por exemplo, a relação é de 92,05%, contra 7,96%. O mesmo ocorrendo no setor da construção e mobiliário: 94,79% de homens para 5,21% das mulheres.