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Protesto indígena

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Índios ocupam a sede da Funai para protestar contra falta de recursos

Índios ocupam a sede da Funai para protestar contra falta de recursos

Texto: Rita de Cássia Cornélio

Índios das tribos Terena, Guarani, Pankararu, Krenaki, Kainkangue pedem socorro ao governo Federal. Ontem, cerca de 100 deles ocuparam a sede da Funai. Eles querem soluções e prometem deixar o prédio assim que o governo liberar as verbas. "Estamos cansados de promessas, queremos soluções imediatas." Sem receber os recursos federais, as atividades agrícolas das aldeias estão paradas.

O administrador substituto da Funai/Bauru, Luiz Gonzaga, 49 anos, explica que as dificuldades são imensas. "Os empenhos foram recolhidos desde agosto do ano passado. Recebemos pequenas verbas sem destinação certa. Os projetos de saúde, educação e agrícolas estão parados."

Segundo ele as dívidas se acumulam. "De 98 temos uma dívida de R$ 60 mil. Este ano a dívida já soma R$ 190 mil."

O chefe de serviços administrativos da Funai, Amaury Vieira, 44 anos explicou que as medidas econômicas do governo Federal estão prejudicando, especialmente, o setor agrícola. Está tudo parado. Falta combustível, sementes, insumos. O orçamento de 99 ainda não foi aprovado e sabe-se que 70% foi cortado."

Vieira enfatiza que um ano sem plantio significa dois anos sem produção para a aldeia. "Estamos sem perspectiva, sem programação. Os poucos recursos que chegam não são destinados. Os projetos estão sendo inviabilizados e a população indígena passa por dificuldades. Os recursos foram reduzidos a zero."

De acordo com a Funai o administrador de Bauru Rômulo Siqueira de Sá está em Brasília tentando liberar as verbas. "Porém, não tem alcançado êxito. Não temos nada de concreto."

Na tarde de ontem os índios enviaram uma carta ao presidente da república expondo a situação e esclarecendo que só irão liberar os funcionários quando receberem a visita de um representante do governo Federal que resolva a questão do repasse de verbas. A carta é assinada pelos representantes das tribos que ocuparam a sede da Funai.

Ocupação pacífica

Os índios ocuparam a sede da Funai de forma pacífica e prometem permanecer no local até que os recursos sejam liberados em Brasília. Eles garantem que ninguém vai sair do prédio. "Os funcionários não são culpados, nós sabemos. Não vamos agredí-los, apenas queremos uma solução imediata. Já esperamos muito."

O cacique da aldeia Ecatu de Braúna Cândido Mariano Elias, 46 anos explica que a ocupação foi a maneira escolhida pelos índios para fazer com que a ajuda do governo Federal chegue até eles. "Nós vivemos da agricultura e estamos parados."

De acordo com o cacique, os índios do Litoral podem pescar e caçar. "Na cidade nós podemos trabalhar, só que não há emprego nem para os brancos, quanto mais para os índios." Ele lembra que quando existia a mata, os índios extraviam seus remédios de lá. "Hoje temos que comprar medicamentos nas farmácias e isso custa dinheiro. Nossos filhos estão doentes."

Elias ressalta que as tribos estão sem comida. "Nós comemos o que plantamos. Estamos sem plantar. Temos maquinário mas, não temos combustível." Ele lembra que sua aldeia fica próximo de Penápolis e abriga 109 pessoas divididas em 26 famílias.

O cacique dos Terenas/Avai Jazone de Caminho, 63 anos enfatiza que na tribo não há sementes para plantio. "Muitos dos índios trabalhavam de bóia-fria, porém, com a crise, essa alternativa está descartada."

O cacique Claudecir Marcolino, 32 anos da tribo Guarani/Araribá diz que o movimento é nacional. "Todas as aldeias estão sem receber os recursos. O governo promete e não cumpre. Dia após dia a nossa situação piora. Esperamos demais para ocupar a Funai."

O representante da associação de dos índios Kainkangue Manoel Alexandre Silvino, 48 anos lamenta que seu povo esteja morando na favela do Real/Parque na Capital. "São cerca de mil famílias que trabalham na construção civil. Nós nunca recebemos uma ajuda do governo Federal. Se a situação não for resolvida até sexta-feira, cinco ônibus transportando índios de minha aldeia, chegarão aqui na sede da Funai."

Errata

Os índios Claudinei Marcolino, Edenilson Sebastião e Ranufo de Camilo estão trabalhando na região buscando apoio para melhorar a condição social do índio e não tentando combater o alcoolismo e a prostituição da região central do país, já que estes problemas não acontecem no centro-oeste paulista.

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