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Chocolate

Adriana Rota
| Tempo de leitura: 4 min

Chocolate: vício ou hábito?

Chocolate: vício ou hábito? Texto: Adriana Rota

O vício pode ser explicado como um mal-estar provocado pela abstinência de alguma substância. Ele pode manifestar-se tanto física quanto mental/psicologicamente.

No primeiro caso, o corpo "pede" cada vez mais para responder com os mesmos efeitos do início. No segundo, a pessoa não consegue sentir-se tranqüila sem o estímulo, surgindo sentimentos de dor, medo, culpa e solidão.

Pode parecer estranho falar de vício quando o assunto é o, aparentemente, inofensivo amigo chocolate. Aquele que sempre está por perto nos momentos de maior angústia, ansiedade e solidão. Mas os especialistas alertam: tudo o que é exagerado pode fazer mal. A sensação prazerosa quase imediata que o chocolate proporciona pode transformar-se num verdadeiro vício.

Isso porque o mecanismo de ação do chocolate no organismo é semelhante ao de outras substâncias passíveis de causar dependência, evidentemente, guardadas as devidas proporções. Para conseguir "viajar" comendo chocolate, por exemplo, seria necessário algo em torno de 11 quilos para uma pessoa de 60.

Pesquisadores do Instituto de Neurociências de São Diego, nos Estados Unidos, afirmam que o chocolate contém um tipo de lipídio chamado anandamina, capaz de causar o mesmo efeito das substâncias presentes na maconha. Ela ativaria os neurotransmissores (células presentes no cérebro), que aumentam a sensibilidade e a euforia. A cafeína (também encontrada no café, chá e guaraná) e a feniletila, molécula semelhante à anfetamina (presente na cocaína), também podem causar dependência.

O mais importante nisso tudo é que, com os avanços científicos, o vício deixou de ser associado a desvios de personalidade, passando-se a considerar a possibilidade de fatores biológicos, relacionados à química do cérebro, influenciarem o mecanismo de busca por determinadas substâncias.

A psicóloga e professora da Universidade Estadual Paulista

(Unesp), Carmen Maria Bueno Neme, diferenciou o comportamento compulsivo, que leva ao vício, do hábito: no primeiro, a pessoa não consegue parar, perde o controle das situações. O hábito, ao contrário, está sempre sob controle.

Ela prefere não atribuir comportamentos a predisposições, mas a um conjunto de situações que a pessoa esteja vivendo que pode, às vezes, propiciar alguma forma patológica de escape, como a bulimia, por exemplo. "A pessoa come excessivamente e, para aliviar a culpa, induz o vômito. Ela começa provocando mecanicamente e isso passa a ser automático com o tempo, ou seja, condiciona uma resposta-reflexa", explicou.

Carmen disse já ter atendido um paciente que teve problema com leite açucarado. "Isso pode revelar um aspecto meio regressivo, uma busca do afeto que tinha enquanto bebê ou criança. Casos como esse podem passar a ser compulsões", alertou.

Prazer

As sensações de prazer são produzidas no cérebro na forma de descargas elétricas entre os neurônios, induzidas por um neurotransmissor chamado dopamina, uma substância que o cérebro libera normalmente quando uma pessoa faz sexo, come ou bebe. Quanto maior sua quantidade, maior a sensação de prazer.

As drogas, comidas, bebidas e jogos estimulam a liberação da dopamina. Ao que tudo indica, pessoas cujas células cerebrais tenham alguma deficiência em produzir ou liberar dopamina são mais propensas a vícios e compulsões, pois procuram compensar a deficiência orgânica de outras formas.

Para a psicóloga Nanci Nicolielo Torres, é o açúcar presente no chocolate que se liga aos aminoácidos (agentes químicos presentes no organismo) e facilita o metabolismo da serotonina, substância presente no cérebro que, quando ativada, melhora o humor e o estado de ânimo.

Carga emocional

Nanci chama a atenção, também, para o aspecto emotivo da procura pelo chocolate, cuja função é a de preencher algum vazio existencial. "O simbolismo do chocolate é muito grande. Ele é ligado ao afeto, ao carinho, ao amor. Pode perceber: sempre que a gente recebe ou dá chocolate, tem um pouco da pessoa junto com ele", ponderou.

A psicóloga explicou que o bebê mantém um elo com a vida pela boca. Ou seja, como é mamando que ele consegue sobreviver, acaba estabelecendo um vínculo afetivo com a mãe. Nosso primeiro prazer é o de mamar, e

é atrás desse prazer, desse bem-estar, que estamos sempre em busca. Como as frustrações são inevitáveis, é comum procurarmos subterfúgios. O chocolate é um deles. Mas, consumido de forma responsável, não prejudica em nada.

Em situações de desamparo, ansiedade, tristeza, as pessoas "caçam" o chocolate, que parece ser o único aliado. Mas isso não passa de uma ilusão, segundo a especialista, porque pode criar uma situação de busca constante.

A hora de parar, de acordo com Nanci, é quando a pessoa já não trabalha mais para um instinto de vida (eros) e sim de morte (thanatos). "Ela precisa de um auxílio, seja de uma instituição, de um psicoterapeuta, um nutriconista, uma religião, um amigo. Mas precisa retornar a uma posição de ajuda, conscientizando-se que nós, seres humanos, precisamos dos outros para vivermos."

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