IBGE traça padrão alimentar do brasileiro
IBGE traça padrão alimentar do brasileiro
Texto: Luciano Augusto
A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 11 localidades, revela que o padrão alimentar do brasileiro vem mudando nos últimos 10 anos. Apresentando o consumo per capita anual em Kg de produtos alimentares em 11 localidades, a POF revela um brasileiro - sobretudo os mais pobres- comendo menos arroz, feijão e farinha e consumindo mais carne bovina de 1.ª, carne de frango, biscoitos, queijos e leite.
Aplicada entre outubro de 95 e setembro de 96 (última pesquisa realizada sobre orçamento familiar), a POF investigou mais de 16 mil domicílios urbanos em nove regiões metropolitanas, em áreas que concentram quase 30% da população brasileira e 37,69% da população urbana do País.
A agitação do dia-a-dia, é um dos principais fatores responsáveis pela mudança. O forte incremento no consumo de alimentos preparados, foi sentido também no setor de cervejas e refrigerantes, principalmente entre os mais pobres.
O crescimento do consumo de alguns produtos importantes associados
à queda de outros nos faz concluir que a classe mais pobre está mudando seu padrão alimentar, substituindo comidas de menor valor nutritivo por alimentos mais ricos, principalmente, em proteínas.
Outro ponto interessante é o aumento no consumo per capita de alimentos preparados. Essa alta ocorre em todas as classes (115,20%), mas, sobretudo na intermediária ( entre 15 e 20 salários mínimos), com um aumento de 223,22% de 87 para 96. Logo em seguida, aparecem as classes mais pobre, com 171,12%, e mais rica, com 101,70%. A agitação diária da vida nas metrópoles e a queda nos preços de alimentos fora do domicílio explicam o fenômeno.
O Jornal da Cidade foi comprovar junto aos consumidores se a pesquisa feita pelo IBGE é verificada na cidade. Pelo que disseram os consumidores, o bauruense também se alimenta melhor hoje do que há alguns anos. O preço e a qualidade dos produtos são dois ítens indispensáveis para o consumidor local.
Cláudio Bevilacqua, militar, disse que quando vai ao supermercado primeiramente vê o preço e, em seguida, a qualidade dos produtos. Os hábitos alimentares começaram a mudar depois do casamento e, com "a chegada dos dois filhos", as exigências de consumo aumentaram.
Já a vendedora Andréia Carreiro da Silva, que auxiliava a mãe Sônia nas compras, afirmou que hoje, a sua família e o filho Felipe, de dois anos, consomem muita fruta e produtos de laticínio, coisa que não era tão comum quando era criança. Produtos em oferta também são bem vindos.
O casal Janaina Rodrigues dos Santos, dona-de-casa, e Adilson dos Santos, mecânico, explicaram que "por causa de existir mais opções de produtos, acabam consumindo mais". Os dois também se preocupam bastante com a qualidade, principalmente em relação aos alimentos destinados aos dois filhos. "Quando vamos fazer compras, acabamos pensando mais nos filhos do que em nós mesmos".
O descarregador do Ceasa, Nelson de Oliveira Filho, pai de quatro filhos, reclama do preço atual dos produtos. Entretanto,
"se não levar o iogurte para as crianças é um problema". Mesmo com os juros altos do cartão de crédito, Oliveira Filho diz que "acaba compensando porque posso gastar com as outras coisas até receber o salário novamente". Quando era mais jovem, lembra o saudoso pai de família, "a gente comia só o básico. Hoje, a gente tem que gastar muito com a criançada". Para não "passar da conta" na boca do caixa, a caneta e o papel são indispensáveis durante as compras.
Carta explica alta de preços aos associados
Na tentativa de explicar a alta nos preços dos produtos e falta de alguns produtos nas prateleiras, principalmente importados, o Confiança Supermercados envia a seus clientes associados uma mala direta explicando o que está acontecendo.
Na carta, a empresa esclarece que, "em meio ao quadro de incertezas e instabilidade provocado pelas mudanças recentes na economia brasileira, endureceu nas negociações" com os fornecedores, tentando inibir a ação dos oportunistas. Além disso, o Confiança incentiva também o cliente a manifestar suas opiniões me relação aos serviços prestados pela rede.
Para o diretor-presidente Jad Zogheib, "este é um momento oportuno para fazer contato com o cliente e explicar o que está acontecendo, porque há alguns produtos que os aumentos não se justificam".
Supermercadistas confirmam a pesquisa do IBGE
Texto: Luciano Augusto
As mudanças em relação aos hábitos alimentares do brasileiro de classe média mais baixa vêm sendo percebidas a bastante tempo. Entretanto, com a estabilidade da moeda conseguida com o Plano Real e os avanços tecnológicos usados na fabricação dos alimentos, a melhora se deu de forma bem mais rápida.
O representante regional da Associação Paulista dos Supermercadistas (Apas), João Svízzero, confirma a mudança nos hábitos alimentares dos brasileiros de classes mais baixas. De acordo com ele, "o brasileiro passou a se alimentar melhor, justamente por causa da estabilidade. O salário não sendo corroído pela inflação no fim do mês, ele compra produtos pelo mesmo valor do início do mês. Com isso, teve condições de ter acesso a mercadorias mais ricas em proteína, por exemplo".
Comparado às classes A e B, acostumadas com alimentos mais nutritivos, o brasileiro mais pobre também está consumindo, hoje, basicamente, os mesmos produtos, "só que com menos sofisticação", diz Svízzero.
Com a maior facilidade de acesso a novos produtos, o consumo de arroz e feijão diminuiu. Como há alguns anos, a classe C não tinha condições, com a inflação, de consumir carne todo dia, acabava tendo que se contentar em se alimentar, basicamente, de arroz e feijão. Hoje, aponta o representante da Apas, "o brasileiro passou a comer justamente as proteínas que não consumia".
A iniciativa da dona-de-casa, de também trabalhar fora, auxiliando o marido com o pagamento das contas domésticas, revela a boa notícia de que a tendência de uma alimentação mais rica em proteínas deve se aprimorar e até aumentar.
"Não estamos no primeiro mundo mais existem algumas coisas que acompanham esta tendência moderna", explica Svízzero.
Além da estabilidade financeira, o avanço tecnológico industrial também deve ser considerado como um fator que contribuiu para essa melhoria no padrão alimentar do brasileiro. O diretor-presidente dos Supermercados Confiança, Jad Zogheib destaca que "hoje, se fabrica com mais qualidade, em função de maquinários mais modernos". Antigamente, aponta, era tudo in natura.
Até agora está tudo muito "primeiro mundo", como aponta o setor. Mas... e os preços, como ficam? Mesmo sentindo os efeitos da desvalorização do real, os supermercadistas afirmam que o cliente não deve ter muitas surpresas nas suas próximas visitas aos supermercados. Svízzero confessa que "houve uma pressão por parte das indústrias", mas o setor começou a rejeitar os produtos que registraram altas muito grandes e os preços pararam de subir. O momento atual é de estabilidade. Para Zogheib, "o que tinha que aumentar já foi reajustado, e não deve haver mais altas expressivas, porque não se justificam. O salário não aumentou e não tem mercado que absorva isso". A indústria, segundo Svízzero, está sentindo a dificuldade de escoar a sua produção.
Exemplo da mudança
Claudio Moura, diretor do Supermercado Panelão, no bairro do Redentor, e que está no setor a sete anos, exemplifica a mudança que ocorreu em relação aos hábitos alimentares do brasileiro.
Ele aponta, por exemplo, o consumo de carne de primeira e de segunda. Anteriormente, a carne de segunda comercializada pelo supermercado, correspondia a 70% das vendas, enquanto a de primeira ficava com 30%. Hoje, diz moura, a situação é inversa. Vende-se 70% de carne de primeira e 30% de carne de segunda.