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Dança do ventre

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 7 min

Beleza do Oriente

Beleza do oriente

Texto: Gustavo Cândido

Natural de Varginha, em Minas Gerais, ela é bauruense desde os oito meses de idade, mas qualquer um que conheça o oriente pode observar que Daniela Minotti é mais egípcia do que qualquer coisa. Aos 24 anos, ela é uma das poucas dançarinas que realmente conhecem a arte da dança do ventre no Brasil.

Em busca de um espaço para poder mostrar e passar adiante essa arte em extinção, ela fala sobre a dança e a mulher, uma combinação mais do que perfeita que se materializa na sua própria pessoa.

Jornal da Cidade - Como você entrou em contato com a dança do ventre?

Daniela Minotti - Aos oito anos de idade eu conheci famílias egípcias e árabes em São Paulo, por coincidência o Egito sempre foi minha paixão. Um dia, em uma exposição, uma mulher egípcia me viu e me convidou para ir a sua casa porque eu tinha "algo de diferente". Fui. Ela me ensinou a língua, me ensinou dançar, me tratava como uma filha e eu cresci com aquela família.

JC - Como era o tratamento com relação à sua origem brasileira?

Daniela - Eles me tinham como uma brasileira que eles queriam que fosse uma egípcia. Eles me transformaram em uma pessoa e me introduziram na colônia deles. Me ensinaram.

JC - Como você se aperfeiçoou na dança?

Daniela - Meu pai e minha mãe foram muito importantes nesse aspectos porque me ajudaram muito e me levavam para fazer workshops com pessoas que vinham ensinar no Brasil. Eu não me sentia bem fazendo balé, não me sentia bem fazendo nada, mas a dança do ventre me diziam que estava no meu sangue, que eu não precisava aprender muito para começar a fazer os passos e movimentos. Foi isso que os encantou, eles viram em mim movimentos que eram deles. Fiz cursos a vida toda e continuo fazendo, alguns muito importantes foram com a Samira, que é libanesa e a Amani, que é egípcia. Também fiz cursos com brasileiras muito boas.

JC - O que faz uma boa dançarina?

Daniela - Diante de uma dançarina é preciso ter um critério para avaliar. Ela precisa ter o conhecimento do que se pode e o que não pode, do que é tradição e o que é invenção de mundos que vieram depois, como o mundo romano, povos do mediterrâneo, Golfo Pérsico, Iraque, todos dançam a dança do ventre, cada um aos seu modo. Tanto que eu ensino nove ritmos diferentes, o árabe padrão e os outros. A dança tem um peso cultural. A sensualidade existe muito à flor da pele, mas ela é passada de uma maneira tão mimosa que não deixa traços de vulgaridade algum. Quem olha diz: "como

é sensual, como é bonita!" e eu digo que toda mulher é bonita, toda mulher dança. Não existe padrão, quem quiser aprende, já tive muitas experiências com isso, é necessário fazer um trabalho corporal e de mente, a mulher vai aceitar o seu corpo e a mente vai liberá-lo.

JC - Qual a origem da dança do ventre?

Daniela - A dança é egípcia e existe há 4.000 anos. No começo ela era proibida para os homens comuns, era uma dança sagrada, feita só para os deuses. Em 3.500 ela passou a ser apresentada em festas perante apenas reis e rainhas e depois ela caiu no povo. O Egito foi invadido por gregos e romanos mas eles não exploraram a dança, quando os árabes invadiram o país, exploraram a dança por ser um povo festivo e alegre. Com o tempo eles dividiram a dança de várias formas, existe dança do ventre para casamentos, que é feita com uma roupa especial, a dança para shows, que é geral e a dança dos outros países que tem variações de roupas, posturas e ritmos. Na Espanha se trabalha com espadas, as ciganas e beduínas, com o bastão.

JC - E o véu?

Daniela - O véu existiu no mundo antigo mas foram as americanas quem trabalharam mais com essa peça e criaram uma dança inteira que é feita com o véu na mão, ficou lindo. A egípcia se desfaz do véu logo no começo da dança, porque ficou aprisionada por tanto tempo, obrigada a não se mostrar demais, que agora ela quer se mostrar logo, sem muito tecido. Ela quer liberar. O salto não existe na dança do ventre, só serve para estética.

JC - Como é a música ideal para dançar?

Daniela - Existe uma música padrão para se dançar, que não é o que os egípcios estão fazendo agora que ficaram moderninhos, é uma dança antiga, que é maravilhosa. Nessa música

é colocado o que realmente existe em termos de cultura, ritmo, sensualidade, etc. O homem também participa com a sua força, fazendo o som que vai fazer a mulher saber se portar, de acordo com o seu ritmo e velocidade.

JC - Quando se ouve falar em dança do ventre, logo a palavra sensualidade vem à cabeça. O objetivo dela

é ser sensual desde o princípio ou isso é apenas uma visão ocidental deturpando uma arte oriental?

Daniela - Existe uma sensualidade mesmo mas a idéia foi um pouco deturpada pela "dança dos véus", que não existe dentro da tradição, essa coisa de tirar um, tirar outro, etc. Existe uma dança com véus do Egito antigo, mas que é ligada a uma tradição, nada de tirar o véu. O véu no Egito simboliza muito, uma mulher pode dizer muitas coisas pela cor do seus véus. Pelas cores ela mostra o que ela é. O que aconteceu é que no passado, filmes mostraram a dança dos véus como uma coisa só relacionada a sexo e se esqueceram que a mulher é um ser que gera uma criança, que precisa ser bonita, ser amada, ter uma força de vida dentro dela.

JC - O Brasil é cheio de danças e ritmos. Hoje em dia se explora muito o corpo da mulher, até por um lado negativo. Como você vê isso?

Daniela - Eu acho uma pena a vulgarização da dança, mas sei que não há como impedir isso. Algumas pessoas querem aprender a dançar mas não querem se aprofundar, se desgastar. O que acontece é o seguinte, em primeiro lugar tem ficado o dinheiro, a cultura e a tradição, que são as coisas que importam estão em terceiro, quarto, quinto plano. Estão visando primeiro o lucro para depois saber o que vão mostrar. O comércio está acabando com a dança. Acabou com a dança. Eu gostaria que os homens que gostassem da dança fossem procurar conhecê-la de verdade, eles iriam ver que a mulher é muito mais do que o que tem por aí

JC - Isso ia gerar uma loucura na comunidade masculina, sabia?

Daniela - Mais ele ia ver que apenas olhar é o suficiente para saber o que é uma mulher. É claro que existem os que olham com outras intenções mas esses ficam no mundo da fantasia e é melhor que eles fiquem por lá. Que conhece sabe que a mulher não precisa de fazer nada, dizer nada, tirar nada, Só a visão dela vai bastar, até mesmo pelo clima, a luz parcial, as almofadas no chão.

É um ambiente meio mágico que leva quem assiste ao passado e a uma possibilidade do que pode ser o futuro.

JC - A dança do ventre é uma arte em extinção?

Daniela - Eu tenho medo que sim. Existem apenas 16 ou 17 grandes dançarinas no Brasil que viajam o país todinho tentando não deixar a dança real morrer. Eu estou tentando ficar na região de Bauru e "segurar" esse público que, por enquanto, não se interessa muito em saber direito o que é a dança do ventre. Quero ensinar as mulheres e fazer com que elas olhem para o caminho certo para que não aconteça uma divulgação errada da dança.

JC - O seu visual natural é exótico para os padrões comuns, ele é baseado em alguma tradição ou costume?

Daniela - Eu sou o que vocês estão vendo, não consigo ser outra pessoa. Uma coisa que a mulher árabe aprende é demonstrar o que ela sente, pelo olhar. Se eu não estiver assim é porque há algo de errado comigo. Não sei explicar de onde vem, desde menina eu ficava horas me maquiando. Eu fiz a minha aparência em cima do padrão egípcio mas é um visual meu, que não

é copiado de ninguém.

Serviço

Daniela Minotti da aulas de dança do ventre de segunda a quinta-feira, das 15h às 16h30 e das 19h às 20h30, no Espaço Tarot, que fica na rua Rodrigues Alves, próximo ao Cemitério da Saudade. Maiores informações pelo telefone 224-1817.

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