Tiradentes: mito construído
Tiradentes: mito construído
Texto: Andréia Alevato
Hoje comemora-se o Dia de Tiradentes. Há 207 anos, José Francisco da Silva Xavier morreu enforcado, porque era uma das pessoas que queria a emancipação do Brasil, no período em que ele era colônia de Portugal. A professora de História e diretora do Colégio Seta, Sônia Maria Mozzer, afirmou que Tiradentes foi um mito construído pela República.
Ela explicou que como todo sistema que se instala, há um momento de saturação. Na época da Inconfidência Mineira, o mundo estava vivendo as revoluções burguesas e outros movimentos. A Inconfidência Mineira era um movimento formado por intelectuais, ao contrário da Inconfidência Baiana, que foi um movimento popular. Dentro desse grupo de intelectuais, Tiradentes foi uma figura um pouco diferenciada, porque ele não fazia parte da elite. Ele era um homem pobre, que tinha tentado seguir muitas carreiras, como tropeiro, de "dentista"
(já que no Brasil, naquela época, não haviam escolas que formassem esses profissionais), e até militar, na qual ele chegou até o posto de alfério, mas não pode ocupar outro posto, porque os mais altos eram ocupados por portugueses.
"Para os conspiradores, Tiradentes tinha uma utilidade muito grande, que era o seu trâmite nas camadas populares, da qual ele fazia parte", afirmou Sônia.
A professora contou que o movimento foi muito sonhador e se prendeu por muito tempo em detalhes do depois, como desenhar a bandeira depois da Independência, e não no "como chegar lá". Algumas pessoas denunciaram o movimento da Inconfidência Mineira, como Joaquim Silvério dos Reis. E o movimento abortou. Todos os integrantes foram culpados de traição, por isso foram condenados. Os intelectuais, que faziam parte da elite, foram liberados de suas penas. Tiradentes foi enforcado e esquecido.
Só na República, a figura de Tiradentes foi resgatada, porque a República precisava de um herói.
"Tiradentes era a única figura que poderia ser o herói do país, porque mesmo na Independência, a figura que se tinha era de Dom Pedro I, um português. Então, a República foi resgatá-lo. E a partir daí, ele é mitificado. Isso não é uma prerrogativa brasileira. Toda história precisa ter um herói. A República criou um mito, que lutou pela Indenpendência, que foi mártir, traído. Criaram para ele uma imagem que se aproximasse de Jesus Cristo, com cabelos e barbas longas, roupas brancas e olhar distante de herói", completou a professora.
Sônia explicou que apesar de Tiradentes ter sido um mito criado, ele não pode ser desconstruído, porque há a figura humana por trás do mito.
"Nos registros, Tiradentes não traiu os amigos, não entregou ninguém. Ele foi uma figura humana, que se não foi grandiosa, se tornou grandiosa. Não há notícias de que ele se debateu ou tentou fugir da morte, dizem que ele foi caminhando. Mas foi uma figura que a República pegou e construiu. Porém, a Monarquia também teve uma figura construída, que foi a de Dom Pedro II", explicou.
A criação de um mito próximo ao povo, como Tiradentes, passava a idéia de que o homem comum também pode mudar situações.
"Essa idéia de que o homem comum pode mudar serve para que o sistema seja mantido", finalizou Sônia.