Ciclistas de Pederneiras viajam o mundo
Ciclistas de Pederneiras viajam o mundo
Texto: Fábio Grellet
Grupo parte para fazer a primeira viagem, até Aparecida do Norte, no próximo sábado. Já existem planos para uma viagem ao Peru.
Pederneiras - No próximo sábado, dia 8 de maio, quatro dos seis integrantes de uma equipe de ciclistas de Pederneiras vão iniciar o primeiro passeio em conjunto, desde a formalização do grupo. Seu destino será a cidade de Aparecida do Norte, e a pretensão deles é que esta seja apenas a primeira de uma série de viagens, das quais a mais distante já em planejamento é para Machu Pichu, a lendária cidade peruana que, embora em ruínas, guarda o que restou da civilização inca.
O grupo chama-se Coyote Maluco e é composto por seis integrantes: Antonio Eduardo Nave, 50 anos, policial militar; Claudecir de Paula, 31 anos, também policial militar; Jorge Maciel, 34 anos, músico e professor de idiomas; Júlio Pelegrineli, 26 anos, radialista; Sérgio Rogério Silveira Camargo, 28 anos, outro policial militar; e Vítor Pelegrineli, 17 anos, estudante. Destes, apenas Jorge e Júlio não vão participar dessa viagem "inaugural".
Nave é, dentre os integrantes do grupo, aquele que há mais tempo adotou o ciclismo como, mais que um hobby, uma atividade de lazer a proporcionar benefícios ao corpo e à mente. Ele pedala com freqüência desde 1992, e a partir de 1993 iniciou uma série de viagens anuais: naquele ano foi a Santos e, depois, a Curitiba, Campo Grande (MS), Florianópolis e Ribeirão Preto. Nave só deixou de viajar em 1995. Em todos os passeios, foi pedalando e retornou de ônibus ou avião, porque, embora garanta que não faltava motivação para pedalar também pelo caminho de volta, os compromissos pessoais e profissionais não lhe permitiam ficar muito tempo distante de casa. Além disso, a bicicleta é desmontável e, como o restante dos equipamentos que acompanham o ciclista, é fácil de acomodar, até mesmo no ônibus.
Empolgado com o esporte, o policial sempre incentivou seus amigos e colegas de trabalho a praticar o ciclismo. Dentro de sua categoria profissional, conseguiu convencer, especialmente, dois colegas, Claudecir e Sérgio. Junto com estes, Nave compõe o grupo de policiais militares que, desde o final do ano passado, é responsável pelo policiamento de bicicleta, na área central da cidade. A idéia, trazida por policiais de Miami, foi implementada inicialmente em Bauru e, logo em seguida, também em Pederneiras, onde comerciantes do centro reclamavam uma ação mais eficaz da polícia. A atração pela prática do ciclismo levou os três a se oferecerem para participar do inovador projeto, unindo o útil ao agradável.
Mas não são apenas policiais militares que compõem o grupo Coyote Maluco. O estudante Vítor Pelegrineli, que há seis meses considera o ciclismo mais que um mero hobby, através do esporte estreitou a amizade com os outros cinco adeptos do esporte e foi o responsável pela proposta de formalizar o grupo de ciclistas. Seu objetivo
é programar e realizar, em conjunto, viagens e outras atividades, reunindo adeptos do esporte em toda a cidade de Pederneiras. Por ora, a pretensão do grupo restringe-se à prática do cicloturismo, categoria que não inclui competição. Mas, no futuro, eles admitem que podem passar a competir, se concluírem que a intensidade dos treinos já permite.
O quinto integrante da equipe, Júlio Pelegrineli, é irmão de Vítor e já pratica o ciclismo "levado a sério" há mais de um ano.
E a equipe conta ainda com Jorge Maciel - que, além de cantar (ele é um dos músicos mais requisitados da cidade e se apresenta com freqüência também em Bauru, tocando violão e cantando), pedala assiduamente há cerca de um ano. Aos finais de semana, junto com outros colegas do grupo, ele vai de Pederneiras até Bauru, em seguida - através da rodovia Marechal Rondon
- até Lençóis e depois retorna pela estrada que passa por Macatuba.
Aparecida
Os planos do grupo para chegar até Aparecida do Norte já estão traçados. Eles devem deixar Pederneiras na manhã do próximo sábado e, pedalando aproximadamente nove horas por dia, antes do anoitecer pretendem chegar a Rio Claro, conquistando uma distância de 155 quilômetros.
Após dormir em Rio Claro, na manhã de domingo voltam a pedalar, e ao final daquele dia pretendem estar em Itatiba, depois de percorrer uma distância de 113 quilômetros. Na segunda-feira, saem de Itatiba em direção a Jacareí, conquistando uma distância de mais 122 quilômetros. Depois de dormir, na noite de segunda para terça-feira, na cidade de Jacareí, sairão de lá para percorrer o menor trecho da viagem, pedalando 96 quilômetros até Aparecida. Os ciclistas pretendem chegar a cidade por volta das 15 horas.
Embora garantam ter disposição suficiente para fazer a viagem de volta também de bicicleta, eles pretendem retornar a Pederneiras de ônibus, na quarta ou quinta-feira. O tempo escasso, mais uma vez, é a justificativa para tanto.
Os ciclistas não levam comida. Eles pretendem fazer refeições em restaurantes, à beira da estrada. Como alguns dos componentes do grupo são policiais, a intenção é dormir nas sedes das Companhias da Polícia Militar, até por razões de economia.
Durante a viagem, os ciclistas esperam manter uma velocidade média de 16 km/h. Nos treinos, essa velocidade pode atingir até 22 km/h. Durante o trajeto, na estrada, eles trafegam em fila indiana, evitando se afastar muito uns dos outros. É usada, sempre, a pista do acostamento, preferencialmente na mão de direção correta. Se, porém, esse acostamento estiver em piores condições do que o da mão oposta de direção, é possível se utilizar aquele do sentido oposto. Mas a recomendação do novo Código de Trânsito - que, equiparando a bicicleta aos demais meios de transporte, permitiu seu tráfego em qualquer estrada ou rodovia - é para que se utilize a mesma mão de direção adotada pelos automóveis.
Machu Pichu
A viagem para Machu Pichu é um sonho antigo de Jorge Maciel, surgido ainda quando ele praticava suas aventuras de moto. Jorge conta que alimentou constantemente essa idéia e, há alguns meses, o policial e colega de ciclismo Nave comentou que também gostaria de fazer uma viagem mais longa, para o Peru, por exemplo. Satisfeito por ter conquistado um adepto para sua proposta, Jorge já começou a fazer os planos para a viagem. Mas ainda não menciona prazos para que ela se torne realidade. Segundo ele, a dupla ainda está em busca de patrocínio para a aventura. Como o custo da viagem não é pequeno, a forma de viabilizá-la
é através da colaboração de empresas interessadas em divulgar seus produtos, e estas não devem faltar - afinal, entre o interior de São Paulo e o Peru, trajeto que Jorge calcula fazer em aproximadamente dois meses, quantos curiosos não vão observar os ciclistas e, por consequência, também os nomes inscritos em suas roupas e bicicletas? Diante da expectativa de conhecer as ruínas da civilização inca no Peru, Jorge e Nave demonstram alegria e ansiedade. Só lamentam que os demais colegas da equipe não pretendam ir, prejudicados pela impossibilidade de permanecer muito tempo longe de casa.
Profissionalismo
O grupo de ciclistas destaca que não basta ter vontade de pedalar para se propor a fazer viagens, mesmo para locais próximos. É necessário dispor de uma série de equipamentos de proteção e, evidentemente, saber usá-los adequadamente.
"Quando eu andava de moto, me classificava como motociclista, diferente daqueles que não usavam nem sequer capacete, aos quais eu chamava de motoqueiros. Hoje é a mesma coisa: nosso grupo é de ciclistas conscientes, diferente de quem sai pra pedalar sem ter qualquer noção sobre como enfrentar uma estrada, como se proteger durante o trajeto", diz Jorge, cuja bicicleta é equipada até com um ciclocomputador, aparelho que registra, entre outros índices, a velocidade momentânea da bicicleta, a velocidade média registrada durante aquele percurso, a distância percorrida e o tempo gasto durante o trajeto.
Todos os ciclistas do grupo também carregam outros equipamentos, como faróis de sinalização para o caso de pedalarem à noite. "Sempre evitamos pedalar à noite, porque é mais perigoso. Por isso, calculamos o trajeto de modo a chegar à cidade em que vamos passar a noite ainda durante o entardecer. Mas, se fura um pneu ou acontece qualquer outro imprevisto, podemos nos atrasar e, por isso, temos de estar preparados para pedalar também
à noite", diz Vítor.
Além dos equipamentos de apoio, os ciclistas levam material de reposição, para eventuais problemas na bicicleta. Não é raro que um pneu fure, ou até mesmo que o aro entorte, e algumas ferramentas têm de acompanhar o ciclista, para serem usadas nessas ocasiões.
Com profissionalismo e forma física cada vez mais aprimorada, os integrantes do grupo Coyote Maluco pretendem conduzir o nome de Pederneiras a cidades cada vez mais distantes. Após conhecer a determinação deles, alguém vai duvidar?