AHB desativa Manoel de Abreu e saúde pode ter colapso
AHB desativa Manoel de Abreu e saúde pode ter colapso
Texto: Paulo Toledo
A Associação Hospitalar de Bauru (AHB) anunciou, ontem, a desativação de 153 dos 176 leitos do Hospital Manoel de Abreu, mantido pela entidade. Segunda-feira, a unidade deixa de internar, até seu esvaziamento. Joseph Saab, 53 anos, presidente da entidade, disse que não há mais condições de manter o funcionamento, em razão da segurança dos pacientes. Só continuarão, por enquanto, em operação, 13 leitos para tuberculosos e 10 para portadores de HIV. A secretária municipal de Saúde, Eliane Fetter Telles Nunes, 47 anos, prevê que o caos vai se instalar no atendimento público de saúde de Bauru.
Para se ter uma idéia do que significa a desativação desta unidade, Bauru passa a ter o mesmo número de leitos de 1966, quando foi desativado o Hospital Salles Gomes, que era mantido pela Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. O Manoel de Abreu é que havia feito a reposição de leitos ambulatorias.
Desde o ano passado, parte do prédio, a que abriga a cozinha do Manoel de Abreu, já havia sido condenada. A demolição e reconstrução demandaria um investimento de aproximadamente R$ 50 mil. Porém, o Estado, que é proprietário do imóvel, não fez o repasse do dinheiro. Com isso, outras partes começam a ser afetadas, já surgindo rachaduras, que comprometem a segurança. Para o engenheiro da AHB, Salvador Aversano, 44 anos, há risco de desabamento, que poderia comprometer áreas que estão pouco afetadas atualmente, num efeito em cadeia.
A direção da AHB começou a fazer uma reforma na ala 1, que possui 42 leitos. Chegou a investir cerca de R$ 30 mil, porém necessita de outros R$ 35 mil para trocar a parte de forro, piso e fazer a pintura. Sem recursos, as obras teve que parar. A cozinha foi transferida para um local "provisório-permanente" que, agora, já começa a apresentar problemas estruturais.
Porém, a bomba-relógio é maior. A caldeira, que abastece todo o hospital, conforme Aversano, está em péssimas condições e corre o risco, até, de explodir. Para se ter uma idéia, para conter vazamentos, foram colocados ataduras de gesso, inclusive no reservatório de água quente. Até o manÃmetro, que marca a pressão, está quebrado. Uma vistoria séria de um órgão competente certamente deteminaria a desativação da caldeira. Para o engenheiro, em caso de acidente, boa parte do prédio seria afetada, porém, descarta o perigo para as casas da vizinhança. O reservatório de água quente também está em péssimo estado de conservação, também correndo risco de acidente.
Para substituir a caldeira, seriam necessários, entre outras coisas, 110 chuveiros, os quais a rede elétrica do hospital não suportaria. O investimento necessário chegaria
à casa dos R$ 35 mil, pois teria que ser refeita toda a rede, além da implantação de transformadores e outros itens, segundo o engenheiro.
Saab diz que, se ocorrer um acidente sério, a responsabilidade recairá sobre a diretoria da entidade, que pode ser acusada de negligência, e, por isso, a decisão do fechamento.
O presidente da AHB disse que o Estado está ciente das condições e riscos do Manoel de Abreu, há mais de um ano. De acordo com ele, cerca de 90% dos 170 trabalhadores da unidade serão transferidos para a Maternidade Santa Izabel e Hospital de Base. "Não fizemos um levantamento exato de quantos serão dispensados, mas uma boa parte terá que ser demitida", afirmou.
A presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Saúde, Marilsa Salles Braga, 45 anos, afirmou que acredita que não haverá desemprego pois a maternidade e o HB trabalham com defasagem de empregados, possibilitando as transferência, que será negociada pela entidade sindical. Para ela, a folha de pagamento é o problema que menos pesa no Manoel de Abreu.
O presidente da AHB admite que o fechamento de atendimentos poderá reduzir o faturamento da entidade e, com isso, provocar mais dificuldades e fechamento de outros setores a médio prazo, "num efeito dominó".
Saab disse que participou, recentemente, de uma audiência com o secretário estadual da Saúde, José Guedes, agendada pelo deputado estadual Pedro Tobias (PDT). "Ele
(Guedes) não prometeu nada. Demonstrou ser um secretário frio e calculista. Agora, estamos na esperança dos deputados
(incluindo Carlos Braga - PPB) que voltem a falar com eles nos próximos 15 dias", afirmou.
Saab afirma que a opção de internação ao Manoel de Abreu será o Hospital de Base. Mas, prevê que não haverá vagas para todos, o que deve sobrecarregar o Pronto-Socorro Municipal, com o que concorda Eliane Telles Nunes.
PrejuÃzo
De acordo com Saab, outro motivo para a desativação parcial do Manoel de Abreu é o déficit financeiro gerado pelas internações pelo Sistema Único de Saúde (SUS) que, em 1998, foi de US$ 1,3 milhão.
O presidente da AHB destacou que a recente sentença da Justiça Federal na instância de Bauru, determinando a retenção compulsória de 10% da sua receita junto ao SUS, para abater débitos com o INSS, inviabilizou qualquer tentativa de continuidade dos atuais nÃveis de atendimentos. Além disso, a elevação dos preços dos medicamentos nos últimos meses, numa média de 47%, e de outros insumos, somados aos fatores já mencionados obrigam a Associação a readequar totalmente a sua estrutura de serviços médico-hospitalares e ambulatoriais.
Fisioterapia
A partir de segunda-feira a Fisioterapia do Hospital de Base deixará de receber pacientes novos. Serão concluÃdos os tratamentos já iniciados e a unidade funcionará apenas para pacientes internos, durante o perÃodo que durar a internação. Os funcionários serão remanejados para outros setores. A Fisioterapia acumula prejuÃzos há anos, face a baixÃssima remuneração do SUS. No ano passado o déficit foi de R$ 78 mil. Neste primeiro trimestre já ultrapassou R$ 38 mil.
Serviços ambulatoriais como quimioterapia, radioterapia, laboratório, raio-x, serviço de endoscopia e eletrocadiograma não serão afetados, informa a associação.
A diretoria da AHB vem reivindicando da Secretaria de Estado da Saúde, R$ 400 mil mensais para custeio dos hospitais que gerencia mas que pertencem ao governo. Essa verba possibilitaria o alongamento do perfil da dÃvida da entidade e a manutenção do atendimento pleno. De acordo com Saab, já foi proposto, inclusive, que o Estado assumisse a folha de pagamentos da AHB.
"Trabalhamos muito mais que a Faculdade de Medicina de Botucatu, MarÃlia, Ribeirão Preto, Presidente Prudente e Franca. Santos, que tem a maior Santa Casa do Estado, faz mil internações pelo SUS mensalmente. Nós fazemos 1,6 mil", afirmou.
Saab disse que, nos últimos quatro anos, a Prefeitura de Bauru não ajudou a entidade financeiramente, dando algumas pequenas colaborações em obras. Porém, até o momento, o municÃpio não viu possibilidade de cumprir a rubrica do orçamento corrente, onde há provisão de recursos da ordem de R$ 30 mil mensais, para ajudar no atendimento à população. As prefeituras da região, que mandam um grande número de pacientes para Bauru também não tem colaborado.
Saab afirmou que os leitos do HB serão priorizados para pacientes cirúrgicos e emergências. Os casos de menor gravidade poderão ser encaminhados pela Central de Vagas da DIR-X para hospitais da região.
O complexo do HB atende cerca de mil pessoas por dia em seus ambulatórios
- 90% de pacientes SUS. Das 2.200 internações/mês, 75% (1.612 pacientes em média) são do SUS. A capacidade instalada de 536 leitos ficará reduzida a 365, comprometendo essa performance. Todos os esforços serão feitos para garantir as atuais 900 cirurgias-mês, a maioria de alta complexidade.
A entidade poderá implantar um plano para arrecadação de fundos junto às população, como fazem vários hospitais da região, como o Amaral Carvalho, de Jaú, que faz recolhimentos via telemarketing em Bauru.
Secretária de Saúde diz que terá que internar na região
A secretária municipal de Saúde, Eliane Fetter Telles Nunes, 47 anos, disse que o fechamento do Hospital Manoel de Abreu vai causar o caos para o sistema de atendimento municipal, principalmente do Pronto-Socorro Municipal (PSM). Para ela, em muitos casos, o municÃpios será obrigado a encaminhar pacientes para internações clÃnicas para hospitais da região, que mandam para Bauru o casos mais complexos e cirúrgicos.
A secretária disse que o Manoel de Abreu tem a caracterÃstica de receber as internações clÃnicas que, nessa
época do ano, com o inverno aumentam, com a incidência de pneumonias e insuficiências respiratórias, além dos problemas circulatórios das pessoa idosas.
Eliane Nunes disse que o prefeito Nilson Costa (PL), 69 anos, vai levar um dossiê sobre o Manoel de Abreu, terça-feira, para BrasÃlia. O prefeito tem um encontro com o deputado Michel Temer (PMDB) e vai tentar que o presidente da Câmara o leve para uma audiência com o Ministro da Saúde. Além disso, na próxima sexta-feira, Nilson Costa vai marcar uma reunião com os prefeitos da região para discutir soluções para o atendimento.
A secretária disse que a maioria das pessoas que procura o PSM está acima de 60 anos e tem precarÃssima condição financeira, sem convênios de saúde, que, sob hipótese alguma, terá chance de optar por outro hospital. Ela disse que a Secretaria foi tomada de surpresa com o anúncio do fechamento, já que não se esperava que fosse tão rápida. Para Eliane Nunes, quando o municÃpio assumiu a Vigilância Sanitária deveria ter fechado o Manoel de Abreu, em razão das condições precárias de funcionamento. Houve uma tolerância, em razão da necessidade dos leitos.
A secretária reclama das dÃvidas da Prefeitura, inclusive de compras de medicamentos e equipamentos, o que dificulta o repasse de dinheiro para os hospitais. Porém, para ela, os R$ 30 mil mensais são uma gota em um oceano, já que o valor teria que ser muito maior. Ela disse que os polÃticos têm que pressionar os Governos Estadual e Federal para tentar averba para reforma, para garantir o mÃnimo de leitos para Bauru. "Não tem cabimento, uma cidade como Bauru reduzir o número de leitos a cada ano", afirmou.
Eliane Nunes disse que, nesta semana, houve dia em que o PSM tinha pacientes esperando vaga para internação em macas, corredores, deitadas nos bancos. "Tem dia que tem gente no chão. Põe-se um colchonete e o doente fica no chão.
É muita humilhação! É muita falta de consideração. Fico muito indignada com tudo isso, porque acho que nosso povo merece mais do que isso", lamentou.
A secretária disse que o empresariado de Bauru não se sensibiliza com a situação do Manoel de Abreu,
"talvez, porque não sejam usuários". Porém, agora que o caos se instalou, algo terá que ser feito.
Eliane Nunes disse que, além de não ter onde acomodar todos os pacientes, o PSM poderá enfrentar uma falta de medicamentos, pois haverá um aumento de demanda e, como tudo é comprado por licitação, poderão acabar.
A médica afirmou que, com menos vagas, será necessário se priorizar as internações. Para ela, isso vai gerar um grande estresse para os médicos do PSM. Eliane Nunes disse que a saÃda emergencial passa por uma mobilização da sociedade bauruense.
Conselho Municipal de Saúde diz que decisão foi necessária
A presidente do Conselho Municipal de Saúde, vereadora Maria José Majà Jandreice (PC do B), 45 anos, disse que a decisão da diretoria da AHB foi drástica, mas necessária. Ela diz que o secretário estadual da Saúde, José Guedes, que acompanha o caso, tem recomendado o fechamento da unidade, sem levar em conta o custo social.
Majà lembrou que o Manoel de Abreu é o único que atende a uma série de moléstias, como tuberculose e pessoas infectadas com HIV, e que continuará fazendo precariamente. "Vai haver mortes, se essa situação não for resolvida. Por outro lado, não podemos permitir que as pessoas se internem num local precário como este", afirmou.
De acordo com ela, o conselho vem acompanhando os problemas das internações e das dÃvidas da AHB muito de perto, tanto que na Conferência Municipal de Saúde, realizada em abril, essa discussão veio à tona, apesar de ainda não se saber do fechamento. A conclusão do Hospital Regional, que seria repassado para substituir o HB e o Manoel de Abreu foi levantada, mas o Estado não teria se interessado.
A vereadora disse que vai tentar a articular uma audiência pública, para que a comunidade bauruense, deputados e outras autoridades possam discutir o problema. (PT)