Para Secretaria, faltam 230 leitos em Bauru
Para Secretaria, faltam 230 leitos em Bauru
Texto: Adriana Amorim
Bauru precisaria de 233 leitos para atender a população seguindo o índice preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que determina três leitos para cada 1.000 habitantes. O número faz parte dos cálculos da Secretaria Municipal de Saúde, que cita como prova do déficit de leitos hospitalares a quantidade de pacientes que aguardam no Pronto-Socorro uma vaga em unidades da cidade. Para a Divisão Regional de Saúde (DIR-X), a situação
é outra: faltam apenas 58 leitos para que seja atingida a meta do OMS, o que para a entidade significa que não há déficit de leitos em Bauru.
A diferença nos números está na quantidade de unidades hospitalares consideradas por cada uma das entidades. A Secretaria soma os leitos dos hospitais administrados pela Associação Hospitalar de Bauru (Manoel de Abreu, Base e Maternidade Santa Izabel), Hospital Lauro de Souza Lima e Beneficência Portuguesa. Além disso, não são considerados os atuais 78 leitos do Hospital Manoel de Abreu, mas sim os 23 que devem permanecer em atividade devido à desativação de 153 leitos.
O total é de 664 leitos, 233 menos que o mínimo de 900 indicados pela OMS. Por conta dessa diferença, cerca de 20 pacientes ocupam diariamente vagas no PS esperando por leitos hospitalares (veja matéria). Com esses números, a Secretaria mostra que a deficiência de leitos é anterior ao fechamento dos leitos do Hospital Manoel de Abreu.
Cidades da região
Nas contas da DIR-X, entram 113 leitos do Hospital de Reabilitação de Lesões Lábio-Palatais (Centrinho) e os 85 leitos do Hospital Manoel de Abreu que até a semana passada continuavam em funcionamento. Ambos consideram a população de 300.000 habitantes de Bauru, mas não levam em consideração os pacientes das cidades da região, que só nos hospitais da AHB somam 16% do total de internações.
A secretária da Saúde, Eliane Fetter Telles Nunes, explica que não soma os leitos do Centrinho porque a unidade presta atendimento especializado demais e a porcentagem média de leitos ocupados pela população bauruense não chega a 10%. Com o fechamento de leitos no Hospital Manoel de Abreu, ela diz que as vagas credenciadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) estão diminuindo na cidade, enquanto a população aumenta.
Com a queda de leitos do Hospital de Manoel de Abreu, Bauru volta
à mesma situação de 1966, quando foi desativado o Hospital Salles Gomes. No início dos anos 70, o Município possuía 93.139 habitantes, enquanto a estimativa atual
é de 307.000.
"Essa situação é preocupante, mesmo considerando a Medicina moderna, que evita cada vez mais a hospitalização", afirma Eliane. Ela diz que as internações teoricamente deveriam ser menores devido à maior efeciência dos recursos e à melhor recuperação dos pacientes fora do ambiente hospitalar.
Existe, no entanto, o problema das internações sociais, que atendem pacientes carentes sem dinheiro para realizar o tratamento e sem condições de mantê-lo fora dos hospitais.
"A população terá que se mobilizar para cobrar uma mudança", defende a secretária.
Sem déficit
Apoiada nos seus números, a DIR-X, afirma que não há déficit de leitos em Bauru. Quando, no entanto, leva em consideração os pacientes das cidades da região, a afirmação muda. "Se for me referir ao município de Bauru, eu digo que não há deficiência de leitos. Quando considero Bauru como um pólo regional, até posso aceitar que existe uma certa deficiência, mas mesmo assim nada de alarmante", argumenta Flávio Badin Marques.
O diretor da DIR diz que a demanda reprimida de pacientes encontrada no PS reflete apenas a falta de leitos específicos, ou seja, destinados a determinadas especialidades médicas. Isso faz com que um paciente com problemas vasculares, por exemplo, não possa ser internado por falta de leitos nessa área, mesmo que haja vaga em outras alas do hospital.
Marques acredita também que a relação vaga/habitantes preconizada pela OMS está ultrapassada, tendo em vista que as internações são realizadas com menos frequência e por períodos menores. "Será que hoje temos tanta deficiência ou em 66 havia excesso de vagas?'", questiona.
20 pacientes por dia esperam leito no PS
Texto: Adriana Amorim
Uma média de vinte pacientes não conseguem leito nos hospitais públicos da saúde e por isso aguardam diariamente vaga nas enfermarias e corredores do Pronto-Socorro Central. A informação é da Secretaria Municipal de Saúde, que confirma a dificuldade para atendimento e a transformação de setores do PS em alas de internação.
O PS Central destina 23 leitos nas enfermarias para abrigar os pacientes que esperam um lugar para internação nos hospitais. Mesmo assim, os leitos não são suficientes, obrigando os funcionários a colocar pacientes em macas espalhadas pelos corredores. "Muitas vezes os colchonetes são colocados no chão", afirma a secretária municipal de Saúde, Eliane Fetter Telles Nunes.
Ela diz que os leitos destinados estão habitualmente lotados. Há dias em que chega-se a registrar 29 pacientes no PS sem ter vaga em hospitais da rede pública da cidade para continuar o tratamento. Em média, os pacientes aguardam três dias, mas há casos em que a espera por um leito demora uma semana. Neste último caso, o doente inicia e termina o tratamento no PS, sem conseguir vaga nos hospitais.
"Isso é comum", afirma a secretária.
Eliane explica que há um acordo que estipula a permanência máxima no PS em 48 horas. No entanto, esse limite não
é obedecido. "Nós não podemos mandar o paciente embora", argumenta a secretária.
Aqueles que sofrem de patologias que não precisam de internação urgente, acabam ficando por um tempo maior no PS. Pacientes com ruptura de úlcera ou apendicite aguda, por exemplo, doenças que necessitam de cirurgia em um curto período de tempo, conseguem mais rápido a internação.
A preocupação da Secretaria Municipal de Saúde
é que pacientes que teoricamente não apresentam quadros graves, como diabetes, podem sofrer complicações por não estar recebendo todo o atendimento necessário, serviço que seria prestado nos hospitais.
Com o fechamento de 153 dos 176 leitos no Hospital Manoel de Abreu, a Secretaria prevê um aumento na quantidade de pacientes aguardando vagas no PS. Diariamente, uma média de 1.200 consultas são realizadas nos prontos-socorros da cidade.
"Agora mais ainda que teremos que fazer o tratamento no plantão, só que não temos estrutura para isso", afirma.
"Mas o pior não é nosso trabalho que vai aumentar, e sim o que essa situação pode estar provocando de insegurança nos usuários".
"Não adianta esperar melhorias", diz usuário
Sem dinheiro, sem convênio médico e sem vaga em hospital público. Assim são os pacientes que esperam durante dias nas enfermarias e corredores do Pronto-Socorro Municipal e não conseguem um leito adequado para realizar o tratamento. Muitos deles não têm nem mesmo a noção de que estão sendo cuidados em um local que não
é responsável por esse tipo de atividade.
Este é o caso do aposentado Olegário Cardoso da Silva, 77 anos, que na última quarta-feira estava internado no PS esperando uma vaga na rede hospitalar. Vítima de derrame cerebral, ele mal se mexia e não encontrava diferença entre o local onde estava há um dia e o hospital.
A dona-de-casa Maria Lúcia da Silva, 45, que sofre de diabetes, não faz distinção entre o atendimento ambulatorial e clínico. "O que eu quero mesmo é estar em casa", argumenta. Quando concedeu entrevista ao JC, ela estava no PS há três dias.
O desempregado Sérgio Henrique Tavares Pedro, 17, estava em uma cama no corredor do Pronto-Socorro há cinco dias. Ele sentia dores no abdômen devido à hepatite, motivo pelo qual precisaria de internação. Pedro acredita que estaria melhor se estivesse em um quarto de hospital e reclama das condições do PS. "Tem muito movimento no corredor e chegam pessoas com todo tipo de problema", afirma.
A passagem da faxineira Isaura Máximo Gonçalves, 39, pelo PS se transformou em cinco dias de internação. Ela não conseguiu vaga nos hospitais, iniciou o tratamento para erisipela no Pronto-Socorro e na última quarta-feira já estava curada. Passou todo o tratamento na enfermaria.
"Mas não tenho do que me queixar. Todos me atenderam muito bem".
O tratamento também é elogiado pelo borracheiro Ademir da Silva, 43, que acompanhava o sogro de quase 70 anos de idade. Mas para ele, a atenção dos profissionais não é suficiente. O sogro sofre de enfisema pulmonar e está com a saúde toda debilitada. "Aqui a aparelhagem não é suficiente como em um hospital", argumenta. "Pode ser que ele não aguente muito tempo, mas mesmo assim merece mais atenção".
paciente estava no PS desde o último domingo. Para o borracheiro, a situação do sogro é reflexo da falência do sistema público de saúde. "A saúde não existe para o governo", reclama. "O pior
é que não adianta esperar melhorias".(AA)
"Na prática os leitos não são suficientes", afirma o Conselho
O Conselho Municipal de Saúde diz que o problema da falta de leitos nos hospitais de Bauru é evidente. A presidente da entidade, a vereadora Maria José Majô Jandreice, sustenta a afirmação citando a grande quantidade de pacientes que não conseguem internação e por isso ficam confinados no Pronto-Socorro.
Jornal da Cidade - O Conselho Municipal de Saúde considera que a quantidade de leitos é suficiente em Bauru?
Maria José Majô Jandreice - Existe o que é preconizado como ideal, mas na prática nós sabemos que os leitos são insuficientes porque diariamente há um número significativo de pessoas aguardando vaga nos corredores do Pronto-Socorro. Se não faltassem leitos, acredito que a Unimed não estaria cogitando a construção do hospital e o Hospital Regional também não teria sido iniciado. E se nós formos avaliar porque se interna tanto, vamos entrar na questão da qualidade. É preciso ver se é feito o atendimento desde o básico, se
é feito o atendimento preventivo. Se você não tratar o básico, vai fatalmente haver mais internação.
JC - Em Bauru, existe também o agravante do número de pacientes das cidades da região.
Majô - Mas isso é o correto. Há cidades da região que não têm hospitais. Além disso, determinadas patologias precisam ser tratadas aqui. Esse
é o papel de um hospital regional.
JC - Há críticas de que por conta disso as cidades da região acabam não investindo em saúde.
Majô - O que acontece é o correto, o que preconiza o SUS: um sistema regionalizado e hierarquizado. O sistema foi planejado desta forma. O problema é que nunca se financiou esse sistema de forma correta para que ele se organizasse. Aqui em Bauru, o tratamento especializado da rede pública é caótico. É necessário esperar meses para conseguir uma consulta. Aí a pessoa tem que estar quase morrendo para ter atendimento no hospital e ser internada. E muitas vezes não há vagas.
JC - Essa situação não é exclusiva de Bauru.
Majô - Hoje nós vemos o sucateamento proposital do sistema público. Só que essa questão é responsabilidade das todas as instâncias. No entanto, esbarramos na definição da política de saúde dos governos e depois temos que verificar se há recursos para efetuar esse projeto. O se percebe é que a rede pública em Bauru ficou muito deficitária nos últimos anos enquanto a cidade cresceu. Outro problema é que a rede de saúde recebe os efeitos de todo tipo de problema, mas não é a sua função resolver as causas de problemas sociais, econômicos e ambientais. (AA)
Tabela do SUS inviabiliza instalação de novos leitos
A defasagem da tabela de preços do Sistema Único de Saúde (SUS), utilizada para pagamento dos serviços credenciados, invializa a instalação de novos leitos hospitalares em Bauru. A explicação é dada pela Associação Hospitalar de Bauru (AHB), que acredita que 30 novos leitos seriam suficientes amenizar a deficiência no Município.
"Com esse número, acredito que as pessoas não ficariam mais esperando no Pronto-Socorro uma vaga nos hospitais", afirma o diretor da AHB, Reinaldo Rocha. Ele diz que a grande quantidade de pacientes aguardando leitos é um dos principais indícios de que há déficit em Bauru em relação aos leitos conveniados ao SUS. "Mas aumento de leitos implica em aumento de despesas e a contrapartida da receita não vem na mesma proporção".
O SUS paga R$ 4,05 por diária de internação. Outros procedimentos também possuem remuneração defasada, como a alimentação parenteral (via venal), que custa cerca de R$ 160,00 enquanto o SUS paga R$ 17,99. A ultra-sonografia, que é realizada nos consultórios particulares por cerca de R$ 120,00, sai por apenas R$ 10,00 ao SUS.
Rocha acredita que a situação só não
é mais preocupante porque as internações pela rede pública de saúde realizadas nas unidades da AHB são superiores ao mínimo de 60% exigidos pelo governo estadual. "Se fôssemos cumprir apenas esse número, seguramente teríamos o dobro de pessoas aguardando leito no PS", argumenta Rocha.
Nos cinco meses deste ano, a AHB realizou 1.608 através do SUS. Esse número cairia para cerca de 1.350 se fossem cumpridos apenas os 60%. A média de internações feitas via sistema público de saúde alcançou 74% este ano. Uma média de 16% das internações envolvem pacientes de cidades da região, o que ocasiona um acúmulo, principalmente no Hospital de Base.
Leitos específicos
A AHB acredita que o aumento da população também colaborou para a defasagem de leitos hospitalares na cidade. Além disso, cita o aumento da demanda causada pela migração de conveniados dos planos de saúde para a rede pública de saúde.
Segundo a AHB, a defasagem de leitos acontece principalmente em determinadas especialidades, como ortopedia e neurologia. "Muitas estatísticas incluem todos os leitos do Município, mas o problema sobra mesmo para o geral do SUS, onde há o grande movimento", argumenta Rocha. "Prova disso são a média de internações feitas pela AHB".
O diretor da entidade diz que a média de internações
é maior que a de hospitais universitários, que são mantidos com verbas do Estado, enquanto a AHB mantém o atendimento com o faturamento. Os hospitais universitários de Botucatu, Catanduva e Marília, por exemplo, realizam uma média de 1.150, 1.422 e 670 internações por mês, respectivamente.
Para Rocha, o Município poderia estar em uma situação menos preocupante se o Hospital Manoel de Abreu estivesse em condições de continuar funcionando com segurança e se houve um repasse de verba adicional pelo Ministério da Saúde. Com mais recursos, a Associação poderia manter a grande quantidade de atendimento a pacientes do SUS, mesmo com a baixa remuneração. (AA)
Para DIR, Hospital Regional foi um erro
Para a Divisão Regional de Saúde (DIR-X), a construção do Hospital Regional em Bauru foi um erro cercado por interesses políticos e sem fundamentação técnica. Para o diretor da entidade, Flávio Badin Marques, os recursos utilizados na obra inacabada poderiam ter sido empregados para reforma do Hospital Manoel de Abreu e na melhoria das instalações da Maternidade Santa Izabel e Hospital de Base.
As obras do hospital começaram a ser realizadas em fevereiro de 92, durante a administração do governador Antonio Fleury Filho. A proposta era de construção de 450 leitos. Cerca de 43% das obras foram concluídas e para isso o governo estadual usou uma cifra estimada em R$ 25 milhões. Os serviços pararam em outubro de 94.
"O Hospital Regional não deveria ter sido iniciado", afirma Marques. Ele diz que na mesma época em que foi iniciada a construção da unidade em Bauru, outros 25 hospitais começaram a ser construídos no Estado. Segundo ele, as obras tiveram prosseguimento em apenas 11 deles, sendo que 9 forem entregues até agora à população, a maioria localizada na região da Grande São Paulo.
"Foi priorizado onde havia efetivamente um déficit de leito muito grande", argumenta Marques.
O diretor da DIR-X diz que não houve critérios técnicos que sustentassem a necessidade de construção do hospital. "No meu ponto de vista, e acredito que no ponto de vista do atual governo, não houve critérios que justificassem as obras e não havia necessidade dele ser construído".(AA)