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Empresa familiar

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

Negócio de família

Negócio de família

Texto: Gustavo Cândido

Antigamente não havia contestação: se o pai tinha um negócio, qualquer que fosse ele, era certo que o seu filho, geralmente o primogênito, iria ocupar o seu lugar depois da aposentadoria, muitas vezes representada pela própria morte. Aptidão para o negócio não era assunto para se colocar em questão, era aceitar e pronto. Esse conceito, que vem desde os tempos mais remotos, antes de Cristo, ainda prevalece em muitas famílias. Mas nem em todas. Hoje em dia muitos filhos e filhas continuam a assumir os negócios da família após a aposentadoria do pai (ou dos pais), mas ao contrário de antes, não por obrigação, mas por vontade própria.

Foi assim que aconteceu com Renato Amantini, diretor geral da Amantini Veículos, que aos 24 anos, em 1982, assumiu os negócios da empresa fundada em 78 pelo seu irmão e seu pai. Hoje, aos 40 anos ele é o único membro da família envolvido com os negócios, embora não tenha feito a faculdade de Administração de Empresa.

"Foi um processo natural assumir o cargo, nunca fui forçado ou obrigado a isso", conta Amantini.

O mesmo aconteceu com Antonio Alliberty de Castro, proprietário da Ominigráfica. Desde os treze anos na empresa, onde entrou para fazer o serviço de banco, ele evoluiu de cargo em cargo até assumir o controle da empresa em 1987. "No começo o meu salário era minha mesada e eu trabalhava mesmo porque gostava", diz Castro. Formado em Engenharia Mecânica, depois de ter abandonado a faculdade de Adminstração, ele, hoje com 37 anos, já deu provas de que a sua posição na empresa realmente não é fruto de nepotismo e conseguiu com talento ( e a ajuda do pensamento lógico que a engenharia lhe deu) tirar a firma, que existe desde 1960, de uma grande crise no início do plano Real.

Vocação precoce

Como no caso de Antonio de Castro, mas ainda sem assumir o controle das empresas da família, alguns mostram desde cedo o talento para trabalhar e auxiliar aos pais nos negócios. Emerson Svizzero, da rede de supermercados Mercosuper é um exemplo.

"Nasci dentro do supermercado praticamente e estou trabalhando nele desde os 14 anos", conta. Hoje com apenas 27 anos, ele

é gerente de compras da rede e membro do conselho da diretoria, mas já passou por vários setores da empresas, desde o de verduras, quando era adolescente, passando pelo setor de custos e o bazar, tudo por opção própria.

"Meu pai sempre me deu liberdade para estudar o que quisesse, eu escolhi trabalhar na empresa", diz.

Os irmãos Cristiane Lima, de 26 anos e Álvaro Lima Jr., de 28, também trabalham na empresa da família desde de cedo. Diretores da rede de drogarias Droga Rio, eles mesmos tomaram a decisão de se envolver nos negócios,

"Trabalho com meu pai desde os 16 anos e o meu irmão desde os 24", conta Cristiane, que ocupa a diretoria administrativa e financeira da empresa, "foi uma opção de vida que nós fizemos".

Atitude comum

Segundo a psicóloga e especialista em recursos humanos, Regina Maura Pereira Torres, a sucessão dos filhos nos negócios da família é uma coisa normal até porque existem laços afetivos dos pessoas e seus familiares com as empresas, "é comum que o pai leve o filho desde pequeno para conhecer onde trabalha e com isso a criança acaba se acostumando", diz Torres. Na opinião da psicóloga não problema algum de um pessoa assumir uma empresa da família por opção, "o ruim é quando há uma imposição".

Em casos onde um filho (a), ou sobrinho (a), assume uma posição de chefia por imposição duas coisas podem acontecer, de acordo com Regina Torres: a pessoa pode ficar frustrada pelo resto da vida, por estar trabalhando em uma coisa que não gosta e pode levar a empresa à falência por não ter capacidade para gerenciá-la. "Isso pode ser desastroso para os negócios", afirma.

Com a competição cada vez maior entra as empresas, Regina Torres acredita que a sucessão direta de pai para filho deve diminuir. "As pessoas vão ter que deixar as empresas nas mãos de profissionais competentes e não vão poder arriscar tudo deixando as com quem não tem vocação", explica, "até mesmo porque uma pessoa que não é da família também pode ser competente e confiável".

O Futuro

Quem assume o negócio do pai, deve colocar o filho ou filha para sucedê-lo? Não necessariamente. "Temos que ter sucessores para nos ajudar, mas não vou forçar, um dia, o meu filho ou sobrinho, a assumir os negócios da empresa", diz Emerson Svizzero. Antonio de Castro concorda:

"tenho um filho de nove meses e se ele quiser assumir a empresa no futuro, tudo bem. Se não quiser ela fica para os funcionários, para quem quiser administrá-la. O importante é que tem que ser a pessoa que tiver maior conhecimento e capacidade. Eu mesmo posso deixá-la por não ter mais o conhecimento e capacidade para tocá-la. A empresa tem uma vida maior do que a gente".

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