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Abandono estação ferroviária

Fábio Grellet
| Tempo de leitura: 10 min

Uma estação fora dos trilhos

Uma estação fora dos trilhos...

Texto: Fábio Grellet

Jaú - A estação ferroviária de Jaú, outrora frequentada por senhores que, habitualmente vestidos com terno e gravata, viajavam em companhia de suas famílias para os mais diversos destinos, hoje em dia abriga gente que procura outra espécie de "viagem": são pessoas que, em busca da alucinação, encontram no prédio, agora abandonado, o lugar ideal para consumir drogas e se projetar rumo ao mesmo destino que a estação encontrou: a destruição. Salas arrombadas, vidros quebrados, cacarecos jogados ao chão e nenhum responsável para vigiar o prédio compõem o cenário que torna a ferroviária o lugar ideal para abrigar drogados e criminosos de alta periculosidade.

Abandonada, estação abriga marginais

Estação ferroviária de Jaú serve como esconderijo para marginais e drogados. Vândalos destróem o prédio e preocupam vizinhos

A ferroviária de Jaú está sob os cuidados

(ou descuidos) da Ferroban desde janeiro deste ano, quando a empresa assumiu efetivamente a administração dos bens até então pertencentes à Ferrovia Paulista S/A (Fepasa), como vencedora de um leilão realizado alguns meses antes. Grande parte desses bens já estava em estado precário, porque a ferrovia não recebia do governo (seu proprietário anterior) os investimentos necessários. Trilhos e dormentes

(aquelas madeiras que sustentam os trilhos), em especial, estavam quase inutilizáveis, mas as estações ferroviárias, embora nem de longe lembrassem o glamour de que dispunham antigamente, estavam em uso e resistiam, recebendo, ao menos, a mínima manutenção necessária.

A privatização não incluiu os prédios das estações, mas apenas as linhas. A empresa vencedora, porém, poderia utilizá-los e, mesmo se decidisse não usar algum deles, assumia o encargo de conservá-los. Em janeiro, quando começou a administração da Ferroban, ainda trafegavam trens de passageiros, e a maioria das estações estavam sendo usadas. Mas as condições de trilhos e dormentes foi agravada pelas chuvas do início do ano e, para evitar que eventuais descarrilamentos acabassem por vitimar passageiros, os trens deixaram de transportar pessoas. Restaram, pois, apenas os trens de carga - e, segundo a assessoria da Ferroban, a empresa quer mesmo atuar apenas neste tipo de transporte.

Quando ainda havia trens de passageiros, a Estação de Jaú já estava em condições precárias: não havia venda de bilhetes no prédio e os usuários tinham que comprá-los já dentro do trem. Mas a presença constante de pessoas no prédio impedia que ele fosse alvo da ação de vândalos e palco para viciados se drogarem. Quando restou o transporte de cargas, a Ferroban avaliou quais estações seria necessário manter para fazer o carregamento. Avaliadas sob este critério, aquelas que foram consideradas inúteis deixaram de receber manutenção. A estação de Jaú incluiu-se neste caso: segundo funcionários de uma estação próxima, até haveria cargas para se transportar a partir da cidade, mas a capacidade dos trens da Ferroban já está tomada. E as cargas que são transportadas, naquele trecho, fazem conexões com o Porto Intermodal existente

às margens do rio Tietê, na cidade de Pederneiras. Com isso, foi considerado mais produtivo manter em funcionamento a estação daquela cidade e usar o prédio de Jaú apenas em situações extraordinárias. A Estação de Jaú foi, então, relegada

(ou entregue) à marginalidade. A de Pederneiras, embora também pareça implorar por uma restauração, está sendo razoavelmente conservada, é vigiada e permanece fechada ao público "curioso". Assim, não foi alvo da destruição que se abateu sobre o imóvel da cidade vizinha.

O abandono do prédio de Jaú, que já foi atingido até por um incêndio (sem grandes proporções), fez com que ele se tornasse freqüentado por todo tipo de pessoa que precisa de um lugar ermo para atuar: se, à noite, prevalece a atividade de viciados e traficantes de droga, durante o dia a estação é usada por casais para praticar atos que não se recomenda fazer em meio ao público... A maioria dos casais permanece em carros estacionados na praça situada em frente à ferroviária.

Quase todas as atividades praticadas na estação são feitas ao alcance dos olhos de quem mora vizinho ao prédio. Cláudio de Oliveira é um deles: há três anos, ele se mudou de São Paulo para Jaú com sua família. Alugou uma das nove casas que pertencem

à ferrovia, eram usadas por funcionários e ficam bastante próximas dela. Esta que Cláudio ocupa é a mais próxima da praça e, situada sobre um barranco, oferece uma ampla visão da estação e de tudo que acontece lá. Ele conta que muitas vezes já flagrou usuários de drogas, inclusive na escada que dá acesso a sua casa. Embora nunca tenham chegado a ameaçá-lo, a simples presença dessas pessoas incomoda. Após algumas confusões entre marginais, que mereceram a intervenção da polícia, a situação ficou um pouco menos ruim, mas as presenças indesejadas se mantém, em visitas constantes ao prédio da estação. Ele reclama que, à noite, não consegue sair sem temer a ação de marginais - que, se já constituem uma preocupação mesmo para quem mora em bairros onde a presença de estranhos não é tão freqüente, são ainda mais temíveis nessas circunstâncias.

Maria Aparecida Berto da Cunha é outra vizinha que, morando em um prédio próximo à estação, disse já ter flagrado confusões que exigiram a intervenção da polícia. Como ela não sai muito à noite, não é incomodada diretamente, e diz que a situação ficou menos pior depois que a polícia repreendeu alguns marginais.

Muitos vizinhos, porém, têm medo de denunciar a situação da estação, temendo represálias por parte daqueles que encontram lá o lugar ideal para se ocultar.

Para delegado, só reforma resolveria

Titular da DIG e da Dise de Jaú diz que a polícia vigia estação, mas não pode fazer isso continuamente. Por isso, só reforma afastaria marginais

O delegado Benedito Antônio Valencise, responsável pela Delegacia de Investigações Gerais (DIG) e pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) de Jaú, disse que a polícia tem atuado para combater a ação de meliantes na área da estação ferroviária. Segundo ele, muitos criminosos já foram presos naquele local e, atualmente, uma das viaturas policiais responsáveis pela ronda noturna passa pelo prédio, em geral, uma ou duas vezes por noite.

O delegado alega, porém, que as condições de abandono da estação, que dispõe de várias salas arrombadas e próprias para servir como esconderijo, prejudicam a ação da polícia e tornam o prédio atraente para os criminosos. Para evitar a presença de marginais, nas condições atuais da estação, seria necessária a presença contínua de um grupo de policiais lá. Mas as condições de que a polícia dispõe, hoje em dia, não permitem a realização de vigilância exclusiva. Por isso, Valencise avalia como de extrema importância a recuperação das dependências da estação, porque, segundo ele, só a ação policial não vai resolver o problema: "É preciso que cada entidade faça a sua parte. A polícia cuida de repreender o crime, mas

é necessário evitar outros fatores favoráveis

à sua proliferação, como a existência de construções ou prédios abandonados".

O delegado afirma porém que, sob o aspecto da presença de marginais, a situação atual da estação não é a pior pela qual o prédio já passou: "Há aproximadamente dois anos, existiam vagões abandonados no pátio da ferrovia, o que dificultava ainda mais a busca de suspeitos e o combate ao crime".

Tanto pelo aspecto da segurança pública como em respeito à memória de um lugar que constitui um patrimônio histórico de Jaú, já é tempo das autoridades competentes buscarem uma forma de recuperar as instalações da ferrovia.

Ferroban

A assessoria de imprensa da Ferroban explicou que a estação ferroviária de Jaú não tem utilidade para a empresa, já que os trens são carregados em Pederneiras. Conforme permissão que constaria do contrato, em janeiro do próximo ano as estações que a Ferroban não quiser utilizar serão devolvidas à Rede Ferroviária Federal. Embora a decisão não tenha sido formalizada, a estação de Jaú deve ser uma daquelas que serão entregues à Rede, segundo a assessoria. Mas, se houver interessados em utilizar os prédios das estações desativadas pela Ferroban, até que elas sejam devolvidas (e caso o sejam), basta que enviem um requerimento à empresa. Na maioria dos casos, destaca a assessora, a autorização tem sido concedida.

Em Lençóis Paulista, um acordo semelhante, firmado em fevereiro entre a Rede Ferroviária Federal e a Prefeitura, permitiu a esta definir de que modo a estação ferroviária vai ser usada, desde que se responsabilize pela conservação e restauração do prédio.

Em Bauru, o prefeito Nilson Costa também tenta viabilizar o uso da estação ferroviária, para onde pretende transferir a Prefeitura. A proposta está sendo negociada entre a entidade e a Rede Ferroviária Federal, mas nada foi definido ainda.

Ex-frequentadores lamentam abandono

O abandono a que foi relegada a estação ferroviária de Jaú entristece, em especial, aqueles que a conheceram e a frequentaram durante seus áureos tempos. Enquanto a equipe de reportagem do Jornal da Cidade estava fotografando o prédio, Antônio Rosseto e sua esposa Amália, ambos com 74 anos, chegaram para visitar a estação. Eles contaram que haviam ido à casa de um amigo, nas imediações da ferroviária, e decidiram estender a visita até a estação.

Como pedreiro, Rosseto atuou na construção da casa de força da ferroviária, na década de 40, quando passaram a circular os trens eletrificados. Ele guarda, inclusive, uma curiosa (e, na época, certamente dolorida) lembrança daquele período: a cicatriz de um corte que fez, durante a execução do serviço.

A esposa de Rosseto, Amália, se lembra que frequentava muito a estação, já que seus familiares moravam em Americana e ela os visitava ao menos uma vez por mês. Triste, o casal lamentou a situação de abandono em que o prédio se encontra atualmente.

Delegado quer interromper tráfego de trens de carga

O delegado titular do 3.º Distrito Policial de Jaú, Antonio Carlos Piccino Filho, indignado com as péssimas condições em que se encontram trilhos e dormentes das linhas férreas pertencentes à Ferroban, instaurou inquérito para apurar responsabilidades pela falta de conservação das linhas. Ele pretende enquadrar os responsáveis no art. 260 do Código Penal, em que é tipificado o "perigo de desastre ferroviário". A pena prevista é de reclusão, de dois a cinco anos, além de multa.

O inquérito foi instaurado em 28 de maio e, mesmo antes de sua conclusão (que deve acontecer apenas em julho), o delegado já enviou ao promotor de justiça competente laudos periciais que indicam o perigo representado pela condição precária das linhas. O temor é de que eventuais acidentes, ocorridos no trecho em que a ferrovia atravessa a cidade, possam vitimar moradores. Por isso, ele sugeriu ao promotor Celso

Élio Vannuzini, um dos responsáveis por atuar nas questões que envolvem cidadania em Jaú, que solicite ao juiz de direito um despacho para suspender o tráfego na cidade, enquanto as linhas não forem recuperadas.

O promotor já recebeu os documentos da perícia, mas disse que pretendia avaliá-los durante o final-de-semana e, se considerar conveniente, amanhã mesmo pode solicitar ao juiz de direito alguma medida de restrição ao tráfego ferroviário.

O inquérito, porém, continua, e o delegado Piccino já constatou que muitas das composições que passam por Jaú (são seis, a cada dia) carregam combustíveis. Na rota que liga São Paulo a Panorama, são transportados gasolina e óleo diesel. Em sentido contrário, os carregamentos são de álcool anidro e hidratado. Cada vagão carrega entre 60 e 100 mil litros, e as composições, ao todo, transportam até 4 milhões de litros. Um acidente poderia causar conseqüências terríveis: em 13 de agosto de 1976, o vazamento de 20 mil litros de gasolina

(quantia ínfima, se comparada com aquela transportada pela Ferroban) que escoaram pelos bueiros da avenida Nações Unidas, em Bauru, causaram explosões que destruíram parte da via.

Em razão das péssimas condições de trilhos e dormentes, acidentes de trem têm acontecido com freqüência na região. O mais grave deles aconteceu em 28 de fevereiro, na cidade de Dois Córregos, e provocou a morte de Gérson Rodrigues Escaramelo, de 5 anos. Ele foi atingido por um vagão que descarrilou e o prensou contra uma árvore.

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