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Fábio Grellet
| Tempo de leitura: 7 min

DNA incocenta suspeito em Pederneiras

DNA inocenta suspeito em Pederneiras

Texto: Fábio Grellet

Principal suspeito da morte da própria cunhada ficou preso durante 250 dias, mas exame de DNA descartou possibilidade de que ele seja o culpado

Pederneiras - O pedreiro Vilson da Silva, 30 anos, principal suspeito de ter estuprado e assassinado a menor Josiane Cristina Garcia, 11 anos, em Pederneiras, no dia 18 de outubro de 1998, foi libertado anteontem da cadeia pública de Reginópolis, onde estava preso desde o dia 27 de outubro do ano passado. Segundo o delegado de polícia de Pederneiras, os exames de DNA, que constituem a prova mais significativa de autoria, excluíram a hipótese de que o sêmen recolhido sobre a vítima, logo após o estupro, seja de Silva. Com base nesse laudo técnico, o juiz de direito da 1.ª Vara Judicial de Pederneiras, Gilmar Ferraz Garmes, concedeu alvará de soltura autorizando sua libertação, e ele já retornou para Bauru, onde mora com sua esposa (que é irmã da vítima), no Jardim Carolina. Silva permaneceu preso durante exatos 250 dias.

A prisão do pedreiro havia sido determinada pelo próprio juiz de direito que atua em Pederneiras, porque vários indícios colhidos pela polícia apontavam-no como principal suspeito dos crimes. Além de ter permanecido fora de casa durante a madrugada anterior ao crime, Silva teve uma camisa sua encontrada com manchas que seriam de sangue. Ele também teria sido visto em Pederneiras, próximo

à casa da cunhada, na manhã do crime. Mesmo antes que o exame de DNA fosse concluído, com base nas provas constantes do inquérito policial, Silva foi denunciado

(ou seja, acusado formalmente pelo crime) e teve início o processo judicial que poderia condená-lo ou absolvê-lo. Informações extra-oficiais colhidas ontem indicam que o processo está na fase de oitiva de testemunhas. Para que Silva fosse mantido preso até o final do processo (mesmo antes de uma eventual condenação), uma prova fundamental seria o exame de DNA - que, excluindo a hipótese de que o sêmen pertença ao pedreiro, determinou sua libertação. O processo continua, porém.

O exame de DNA comparou as composições genéticas do sêmen que estava sobre o corpo da menor (e foi recolhido por policiais assim que estes chegaram ao local do crime) e do sangue retirado do pedreiro. Inicialmente, houve dúvida sobre a possibilidade de ser feita a comparação, já que a quantia de sêmen recolhida era pequena e o material usado para a operação não era o mais adequado. Mas foi possível fazer o exame, executado pelo Centro de Investigações de Crimes Sexuais da Universidade de Mogi das Cruzes e, após vários meses, o resultado indicou que não é de Silva o sêmen recolhido.

O delegado de Pederneiras, Márcio José Alves, ainda considera, porém, que Silva é um dos suspeitos:

"Todas as demais provas apontaram que ele seria o autor, e até agora Silva não conseguiu apresentar uma versão convincente sobre o que esteve fazendo durante a manhã em que ocorreu o crime", disse. Ele destacou que as provas não podem ser avaliadas isoladamente, sendo necessária sua contextualização. Mas admitiu que o exame de DNA é bastante importante, no conjunto de provas.

O delegado disse que também foi submetido a exame de DNA o sangue do padrasto da vítima, outro suspeito de cometer os crimes. Mas o exame também o inocentou e os indícios que fundamentam a acusação contra ele são pouco substanciais.

Alves informou também que não pode definir quais rumos a investigação policial deve tomar, enquanto não avaliar os autos do processo judicial que apura a participação do pedreiro no caso.

Geneticista diz que hipótese não foi descartada

O geneticista Esiquiel de Miranda, um dos responsáveis pelo envio do sêmen recolhido sobre o corpo da vítima para exame, disse ao Jornal da Cidade que a hipótese do material não pertencer a Vilson da Silva tornou-se menos provável, mas não foi totalmente descartada. Ele não se estendeu em explicações, porém, porque atendeu o JC por telefone, enquanto viajava, e indicou um geneticista da Universidade de Mogi das Cruzes para que comentasse o resultado. Não foi possível localizá-lo nos telefones indicados, porém.

Crime chocou Pederneiras

O estupro e assassinato de Josiane Cristina Garcia, 11 anos, causou tristeza e revolta em Pederneiras. Seu corpo foi encontrado sobre a cama da mãe, seminu e atingido por duas perfurações no pescoço, provavelmente realizadas com uma faca.

O crime aconteceu no dia 18 de outubro, um domingo, quando a menor estava só em sua casa, já que sua mãe e seu padrasto trabalhavam no corte de cana, na zona rural. Ela morava no núcleo habitacional Leonor Mendes de Barros, com sua mãe, Aparecida Lourdes Barbosa, 47 anos, e o amásio desta, Roberto da Silva, 27 anos.

A três quadras do local onde Josiane e o casal moravam, em outra casa, reside uma das irmãs da vítima, Marli de Fátima Garcia Martins, 28 anos, e seu marido Daniel Lúcio Martins, 33 anos. Como a mãe e o padrasto são trabalhadores rurais da Usina São José, eles saem de casa por volta das 5h30 e retornam apenas no final da tarde. Nesse período em que a mãe e o padrasto ficavam ausentes, a rotina de Josiane era sempre a mesma: o último a sair para o serviço - já que a mãe e o padrasto trabalhavam em turmas diferentes e saíam de casa com alguns minutos de diferença - jogava a chave da porta por um vitrô, para que fosse recolhida por Josiane, quando esta acordasse.

Ao acordar, Josiane fazia os serviços domésticos e ia até a casa de sua irmã Marli, onde ficava pelo resto da manhã. À tarde, Josiane cursava a quarta série do primeiro grau no Centro Educacional do Sesi. Quando saía da escola, às 17h40, Josiane já se dirigia

à casa onde morava com a mãe e o padrasto, onde os esperava chegar.

Como a folga concedida semanalmente nem sempre coincidia com o domingo, em alguns deles a mãe e o padrasto de Josiane trabalhavam. Foi o caso do domingo em que ocorreu o crime: conforme apurou, à época, o delegado de polícia de Pederneiras, Márcio José Alves, a mãe da menor teria saído de casa às 5h30 e o padrasto às 5h40. Este teria jogado a chave pelo vitrô.

Havia sido combinado que Josiane cumpriria a mesma rotina dos outros dias: depois que acordasse e fizesse eventuais tarefas domésticas, iria até a casa de sua irmã Marli. Mas, por volta das 10 horas, Marli e seu marido, preocupados porque Josiane ainda não havia chegado, foram até sua casa. A casa estava fechada e, ao olhar pelo vitrô do banheiro, o casal pôde constatar que a cama onde Josiane dormia estava vazia. Eles concluíram que a menina deveria ter acordado e saído. Começaram a procurar e perguntar aos vizinhos se haviam visto Josiane naquela manhã, mas, embora todos a conhecessem, ninguém tinha notícias dela. Após procurar a menor em diversos pontos da cidade, por volta de 12h45 o casal decidiu arrombar a janela do quarto ocupado pela mãe e pelo padrasto de Josiane. Ao abrir a janela, o casal viu o corpo da menor, morta sobre a cama da mãe. Bastante ensanguentada, Josiane vestia apenas uma camiseta, erguida até a altura do peito. Desesperados, a irmã da vítima e seu marido chamaram a polícia. Assim que chegaram, os policiais arrombaram a porta e tomaram as providências necessárias.

O sangue que cobria o corpo da menor causou a impressão de que ela havia sido espancada, mas a perícia confirmou que as únicas agressões à vítima foram duas perfurações, de aproximadamente 3 cm, em seu pescoço, provavelmente feitas com uma faca. Uma das perfurações transfixou o pescoço, entrando por uma das laterais e saindo pela outra.

A partir do momento em que constatou que postas e janelas da casa não haviam sido arrombadas, a polícia passou a trabalhar com a hipótese de que o criminoso poderia ser pessoa conhecida da vítima. Por isso ela teria aberto a porta, e provavelmente o indivíduo, logo após entrar, teria coagido a menor com a faca. Apavorada diante da situação, ela não teria reagido à conjunção carnal - que realmente aconteceu, conforme indicou o laudo concluído pericial. Após a relação, a menor sofreu as perfurações, provavelmente facadas, e morreu devido à hemorragia.

Após a constatação do estupro, o sêmen encontrado sobre Josiane foi recolhido, para ser examinado.

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