Geral

Violência

Erika de Lima
| Tempo de leitura: 11 min

O sistema é a causa / e nós somos a consequência....maior

/ da chamada violência"

(Hey Boy! - Racionais MC's)

A banda rap Racionais MC's canta em seus shows o que muitos jovens estão acostumados a viver na sociedade e também nas escolas. Além da violência, existem outros tipos de delitos cometidos por alguns alunos dentro das escolas. A faixa etária dos agressores, em geral, é dos 12 aos 19 anos, e agridem por medo de se sentirem rejeitados pelo grupo ou turma. Nem sempre existem gangues, mas sim, grupos que desejam destaque e para isso impõem comportamentos.

Qualquer um pode ser vítima de violência, seja leve, como tapas e ofensas verbais, ou pesadas, que resultam em bocas cortadas e olhos roxos. E tudo indica que a "força" está nos grupos, um olhar "diferente" já

é justificativa para a pancadaria.

Algumas turmas disfarçam e dizem que não brigam desde que ninguém provoque. Vinícius Eduardo de Souza, 15 anos, integrante de um grupo, alega que sua turma só briga quando alguém encara um dos amigos. "Se alguém nos xingar, o grupo combina de pegar o outro na saída da aula", afirma.

Há brigas que não são estimuladas por grupos e elas ocorrem por um aluno mexer com o outro. Os estudantes, William Gonçalves, 12 anos, e Andreu Kuvazuru de Souza, 13 anos, já brigaram porque um não quis dar passagem para o outro falar com a professora, hoje, eles são amigos.

Ocorrem, no geral, brigas por motivos fúteis que levam

à banalização da violência, conforme enfatiza o capitão da 1a. Cia, Benedito Roberto Meira:

"os alunos brigam por coisas insignificantes, que não justificam a intervenção de um policial".

A prevenção envolve até militares da banda marcial e, na realidade, usa-se o efetivo para tarefas que poderiam ser extintas caso não houvesse a violência escolar.

"O policial que está de prontidão em frente a alguma escola, poderia estar atuando em outra área. Não temos um grande contingente", comenta Meira.

Quem está do lado de fora da escola não imagina que, durante o intervalo, no banheiro, com freqüência ocorrem brigas e, sobretudo, entre meninas.

Ao contrário dos meninos, enfrentam-se por causa de namoradinhos ou mesmo paqueras. O que acaba resultando nos conflitos é o "ficar" com algum garoto. O significado dessa moda entre os adolescentes é sair por umas horas com alguém e dar uns beijinhos. Aí que ocorre o famoso "te pego na saída", na hora de ir embora para casa, o ofensor chama a vítima, juntam-se vários alunos ao redor, uns instigam, outros observam por curiosidade e, então, ocorre a briga.

Um dos casos ocorreu com a estudante, Greice Regina Rentes, 11 anos, que apanhou de uma garota da escola porque "ficou" com seu namorado. "A namorada dele puxou meu cabelo e me deu uns tapas. Fiquei uma semana sem ir à escola", conta.

Marly Rodrigues Biguetti Godoy, psicóloga clínica, explica que este tipo de comportamento é uma conseqüência da violência inserida na sociedade, principalmente da existente em casa, por uma série de insatisfações pelos membros da família.

Para ela, a criança que vive em um ambiente de briga, acaba levando sua irritação à escola. Por exemplo, em uma casa onde os pais sempre estão brigando, acaba tornando-se motivo para o filho se rebelar na escola. Isso não é uma justificativa, mas sim, uma explicação do que está ocorrendo na sociedade.

As dificuldades pelas quais algumas pessoas passam como o desemprego, acabam gerando insatisfações que podem levar à violência tanto doméstica quanto na rua.

O que falta nos adolescentes hoje, é saber que há limite para tudo na vida. Marly Godoy, ressalta que antes de tomar uma decisão é necessário pensar, para depois agir. Ela expressa bem isso: "nós todos temos um freio, porém, temos que saber usá-lo para não sairmos prejudicados".

Violência faz pais formarem conselho de segurança em escola

Diante da violência assistida no cotidiano, quando 22 mil pessoas são assassinadas anualmente, no País, pais da Escola de Primeiro Grau Professor José Ranieri se reuniram nesta semana para formar um conselho de segurança na escola

(Consesc). O objetivo principal é interar pais, direção da escola e até alunos para discutir e resolver quaiquer eventuais problemas. Sejam estes, surgidos na escola internamente como brigas, externamente como pichações ou mesmo se ocorrer algo no trajeto do aluno quando volta para casa.

A idéia em se criar o conselho foi do sargento Edvaldo Francisco Minhano, que é o responsável pela segurança escolar da área e é também pai de um aluno. Outra intenção do projeto é de resolver os problemas, convocando o policial, mas sem tê-lo na porta da escola. Minhano acredita que a colaboração da comunidade será primordial para o trabalho ser eficaz.

"A comunidade irá opinar nos assuntos interligados ao aluno e à escola, o que couber à competência da polícia será acionada", formaliza.

Maria Angélica Rabello, diretora da escola, concorda e incentiva o novo projeto. "Este projeto será feito para trabalhar com e para a comunidade, no sentido de ter novas perspectivas de vida em paz", ressalta.

Dentro do projeto de segurança também há a parte em que a comunidade colaborará com os consertos de objetos quebrados na escola por alunos. Como já houve uma ocorrência, quando queimaram a cortina da sala de aula. Os membros do conselho pretendem conscientizar os alunos para dar valor ao patrimônio da população.

Serão feitas palestras aos pais e também conscientização os

Na opinião de Minhano, o projeto juventude contra o crime não pode ser adaptado para a cultura brasileira, devido aos problemas reais existentes nas escolas tanto de violência quanto de infra-estrutura. Através de alguns caminhos é que o sargento criou o trabalho.

Pais e escolas recorrem à projetos

A morte de dois estudantes em frente a escolas mobilizou pais e educadores

Quando a situação fica insustentável, o jeito

é por a mão na massa. Assim tem surgido vários projetos nas escolas da rede de ensino público, em conjunto com a Polícia Militar, no sentido de minimizar os atos de violência.

Um deles é o Comunidade Prevente, o outro, o Prevenção Também se Ensina. Há ainda o Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd), e o Juventude Contra o Crime, entre outros.

Todos foram criados para resgatar a cidadania dos alunos e ensiná-los a praticar atividades às quais não estavam habituados.

Por iniciativa de alguns alunos despontaram campanhas que funcionam como terapia ocupacional, preventiva da violência.

Zilma de Moraes Ramos de Oliveira, chefe de gabinete da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, admite que em Bauru a violência hoje é menor e que com os programas tende a diminuir ainda mais:"o envolvimento dos alunos nos planos, aproxima "

800 escolas do Estado de São Paulo foram envolvidas com os projetos......"

Através desses programas, os estudantes começam a perceber outras perspectivas de vida e volta a ser valorizada a união nas escolas. De acordo com a diretora regional de ensino, Ednéia Sita Cucci, a diretoria regional está trabalhando há mais de dois anos no combate à violência e os resultados são positivos: "através dos programas, percebemos uma redução no número de brigas nas escolas".

A metodologia de ensino deve ser alterada para que a convivência e a relação pofessor-aluno sejam pacíficas, de acordo com a pedagoga Vera Casério. Em sua opinião, deve existir uma nova forma de lecionar, para que o aluno se interesse pela disciplina e se entrose com o professor.

São três os patamares exigidos pela Unesco, para um professor trabalhar em sala de aula: o saber, saber-conhecer, o ser..."O que tem ocorrido é a desestimulação do professor, que não tem seu trabalho reconhecido, tanto pelo salário que ganha quanto pela falta de material didático, o que acaba gerando conflitos internos com o aluno".

Quem concorda com essa metodologia é o estudante Luciano Martins, 22 anos, que considera ruim a atuação de muitos professores da sua turma. "Os professores não sabem se comunicar conosco. Dificulta nosso aprendizado e abrem espaço para discussões", testemunha.

Tatiana Alves da Silva Santos, 15 anos, estudante na Vila São Paulo acredita que com uma metodologia dinâmica é mais fácil e gostoso de aprender: "se todos os professores soubessem dar aula sem ser maçantes, os alunos assistiriam a todas as aulas sem brigar com o professor".

Teatro, dança, jogos e atividades musicais acabam envolvendo os estudantes e tal forma que começam a se relacionarem melhor com todos. Na Escola de Primeiro e Segundo Grau Ernesto Monte, a diretora XX, promove um momento de sensibilização todos os dias, para os alunos ficarem mais calmos e aprenderem a se relacionar.

De acordo com a diretora, o resultado é positivo, mas ela adverte que não se pode deixar de praticar nem um dia, senão, volta a bagunça. A escola também está tratando o aluno diferentemente, respeitando-o para enriquecer o contato professor-aluno. O grêmio estudantil da "Ernesto Monte"está junto nessa missão de semear a paz entre os alunos. Em todas as datas comemorativas, faz-se alguma festa ou reflexão sobre os temas.

A fanfarra também promove maior interação entre os alunos, estimula a participação e o trabalho em conjunto.

Já o Juventude Contra o Crime tem a participação somente dos líderes de classe, com o objetivo de resgatar a cidadania e verificar os problemas da escola, desde os de infra-estrutura.

É fato a necessidade de se acumular trabalho para compensar o aumento do custo de vida, no entanto, é imprescindível uma aproximação maior entre pais e filhos. Aquele diálogo para o qual não existe mais tempo. Esses programas liderados pela juventude dependem do bom relacionamento familiar para que possam contribuir para a redução da violência nas escolas.

Nove escolas dão trabalho à PM

A Polícia Militar se desdobra para trabalhar nas escolas públicas, evitando assim, a violência

Em conseqüência da falta de infra-estrutura da rede de ensino público e da exlusão social, tem aumentado o número de ocorrências nas escolas, principalmente de agressões, furtos e danos materiais. No ano passado, foram registradas 33 boletins de ocorrência (BO). Já neste ano, em apenas seis meses, a Polícia Militar registrou 48 notificações, envolvendo apreensões de entorpecentes, ameaças de bomba e a professores, e até uma tentativa de homicídio.

Benedito Roberto Meira, capitão da 1ª Cia de Polícia Militar (PM), também atribui as ocorrência à desestruturação da escola pública. "Muitas escolas não têm a infra-estrutura que as particulares têm, como o número suficiente de funcionários para atender a demanda de alunos, como serventes e inspetores", afirma.

A presença do PM acaba sendo essencial nas portas das escolas para evitar as brigas e invasões de alunos de outros estabelecimentos que pulam os muros para brigar ou levar entorpecentes para outros adolescentes. "Se o policial falta ao plantão, o resultado

é muito desastroso", ressalta Meira.

O policial acaba exercendo funções que deveriam ser de outros funcionários, organizam filas de merenda, apoiam professores dentro da sala de aula quando agredidos por alunos, entre outras atividades. "Cerca de 90% dos casos ocorridos em escolas, não são da competência da polícia, mas, às vezes, a direção se omite em casos que deveriam ser entregues à PM", lamenta o capitão, dizendo que isso atrapalha o trabalho. E questiona: "que limite deve ser imposto ao aluno?". Para Meira, um exemplo, é quando a direção encontra um aluno armado. Situação que deveria ser resolvida pelo policial, mas que nem sempre o é.

"A escola, por não impor limites, regras, permite ao aluno pensar que pode fazer o que quiser, como pichar, quebrar portas, e isso transforma-se na violência escolar", pensa o capitão. "Até por problemas insignificantes, o aluno se arma e acaba encontrando a solução matando alguém".

Para evitar mais homicídios e confusões, como em anos anteriores, a polícia está de prontidão nas portas das escolas. E ainda, há escolas que não são atendidas, porque a PM não tem efetivo suficiente para tomar conta de todas. Do efetivo apenas dez por cento, o equivalente a 38 policiais vai para as escolas públicas. Seis equipes fazem a ronda nas mais problemáticas e se revezam durante o dia. Uma faz o plantão de manhã, outra à tarde e outra à noite e cada equipe trabalha em duas escolas, inspecionando.

De acordo com a Polícia Militar, são mais de 40 escolas estaduais que apresentam problemas entre violência, drogas e furtos. Os PM's ficam de plantão nas áreas noroeste, sudeste, leste, oeste e sul, nos horários de entrada e saída dos estudantes.

Entre as "violentas", segundo Meira, são a Escola Estadual de Primeiro Grau Moraes Pacheco, EEPSG Luiz Castanho de Almeida, EEPSG Ernesto Monte, EEPSG Professor Luiz Zuiani, EEPSG Professor João Maringoni, EEPSG Prof. Ada Cariani, Prof. Plínio Ferraz, Rodrigues de Abreu, Escola Estadual Primeiro e Segundo Grau Aparecido José Guedes de Azevedo.

Enquanto os policiais masculinos fazem plantão nas portas das escolas públicas, as polícias femininas garantem a segurança no que diz respeito ao trânsito. Orientam a travessia dos estudantes de escolas particulares.

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