Exportador precisa se adaptar ao perfil do consumidor
Exportador precisa se adaptar ao perfil do consumidor
Texto: Luciano Augusto
Para conseguir viabilizar as exportações de carne in natura para o mercado europeu, a produção pecuária brasileira, a maior do mundo, teve que se adaptar ao padrão qualitativo do consumidor do velho continente.
Da produção brasileira de carne in natura para exportação, 90% é enviada para o mercado da União Européia. A previsão para 99 é de que o País atinja o índice de US$ 800 milhões nos volumes a serem exportados, o que é 40% superior aos números do ano passado.
Para alcançar este número, entretanto, foi preciso o pecuarista atentar-se às "demandas qualitativas" impostas pelo consumidor europeu que, cada vez mais, zela pelos aspectos de higiene sanitária, com a implantação de sistemas de controle de qualidade e uma rígida análise metodológica e de controle de toda a operação, tanto de abate como no processo de desossa.
Fazendo parte da linha de frente na exportação brasileira de carne in natura ocupando a sétima posição do ranking, o Frigorífico Mondelli, com sede em Bauru, precisou adaptar-se às diferenças de padrão para concretizar os seus negócios no exterior.
"Na Europa, cada vez mais, a orientação
é voltada para uma carne mais natural, de um animal terminado a pasto", diz o supervisor de suprimentos, Vangelio Mondelli Neto. Além disso, complementa, o consumidor europeu tem uma relutância muito grande também em consumir alimentos geneticamente alterados. "Tanto é que grãos transgênicos, hoje, é uma obstrução dentro do mercado europeu e, no caso da carne, isso vem a reboque".
De acordo com Mondelli, o produto exportado
é idêntico ao comercializado no mercado interno. A diferença é que a carne abatida para a Europa passa por processos diferenciados quanto à exigências de documentação, que acomoda a produção
à exigência internacional.
Um novo método introduzido no frigorífico para atender a cobrança externa é a rastreabilidade. Trata-se do acréscimo, no rótulo do produto, de informações referentes ao produtor que interferem na qualidade do produto final. "O consumidor europeu, no ato da compra, é muito ávido por informações. Este é um traço notório nele", lembra o supervisor.
Os investimentos tecnológicos necessários para criar o ambiente favorável, especialmente na movimentação do estoque quanto na armazenagem, à demanda externa resultou na exportação de 35% da produção total do frigorífico. Para manter estes resultados, Vangelio Mondelli Neto afirma que é preciso acatar estas exigências do mercado, instituindo, inclusive, uma metodologia de análise de riscos e de pontos críticos da fábrica.
O tipo de animal que o consumidor europeu demanda também é outro fator positivo em favor da pecuária nacional. Como a base da nossa pecuária
é o gado nelore, o País tem grandes chances qualitativas de abocanhar uma fatia ainda maior do mercado de carnes europeu com uma carne mais light, sem entremeio de gordura, traduzindo num menor grau de colesterol na carne.
Um ponto que deixa o Brasil bastante vulnerável
à exportação, segundo o industrial, é o controle da febre aftosa. "Isso é uma barreira sanitária que acaba se traduzindo em barreira comercial", destaca. Segundo ele, apenas dois estados brasileiros conseguiram erradicar, com vacinação, a doença: o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. O Estado de São Paulo, embora tenha o problema relativamente sob controle, ainda não é considerado uma zona livre do vírus.
"O que nós temos que fazer é tentar eliminar a febre, para que possamos, dentro da argumentação de venda do nosso produto, não ter mais este tipo de problema a ser discutido", avalia Mondelli. Esta barreira sanitária interfere no resultado final porque países vizinhos, como a Argentina (outro grande exportador de carne), já extinguiram a febre de seus rebanhos.
Os Estados Unidos, por exemplo, importam somente carne industrializada dos países que ainda convivem com a doença, porque o produto passa por um processo de esterilização, que inclui a embalagem do produto em lata. Já o europeu, não tem este grau de preocupação do americano, porque sabe que o vírus se inocula a dois graus centígrados.
Para atacar o problema, Mondelli afirma que, nos estados brasileiros que ainda não têm o controle da febre, a própria União Européia os excluem da exportação.
Além disso, segundo Mondelli, a pecuária de corte brasileira tem investido pesado na qualificação dos rebanhos e na tecnologia de produção. Tanto que, atualmente, "é considerada pela cadeia produtiva como uma área com grandes oportunidades de investimentos".
Já o problema acontecido na Bélgica, no inicio do ano, com a presença de dioxina (um produto cancerígeno) nas rações voltadas principalmente para aves, suínos e uma parte do rebanho bovino (essencialmente na pecuária de leite) pode tanto promover a carne importada no mercado europeu quanto fechar as portas para o produto carne.
Como diz Mondelli, quando surge um problema sério como este, de contaminação do produto, o primeiro efeito colateral é a queda do consumo. O que acaba afetando também os níveis de exportação da carne. Quando em 97 por exemplo, surgiu na Europa a doença da vaca louca a queda momentânea nos embarques de carne foi de até 40%. Perspectivas de mercado
Com a desvalorização cambial do Real, os preços caíram. "Logicamente que eles sabem que nós desvalorizamos a nossa moeda e, em conseqüência, os preços caíram". Sem contar a pequena queda de consumo na Europa, que conta ainda com um bom estoque regulador de carne.
Após o choque cambial de janeiro, a carne bovina foi o ítem que mais cresceu na pauta de exportações brasileiras no primeiro semestre de 1999. O incremento foi de 47%, comparando-se com o mesmo período do ano anterior.
Para melhorar ainda mais o desempenho de exportação, Mondelli afirma que é preciso retornar os incentivos oficiais à exportação.
"Com uma política voltada para a exportação, temos a certeza de crescimento econômico e de manutenção dos empregos".
A carga tributária, inclusive em relação aos tributos estaduais, também deve ser revista. Hoje, ela já atinge de 27% a 30% sobre o produto que está sendo comercializado. Para Mondelli, ela deve deixar de ser uma forma de apropriação de resultados das empresas frigoríficas e passar a ser uma forma incentivadora de investimentos e de geração de novos postos de trabalho.