Casa Dia trata drogados em Jaú
Casa Dia já trata viciados em Jaú
Religiosidade e valorização da vida são formas de convencer internos a largar o vício. Em três meses, entidade já atende 21
Texto: Fábio Grellet
Jaú
- Foi inaugurada oficialmente em Jaú no último dia 22, mais uma Casa Dia, instituição que oferece tratamento a viciados em drogas. A unidade é a 26.ª existente no País. A instituição foi criada há aproximadamente cinco anos, numa iniciativa de Eyn Melo Ribeiro, que morava em Campinas, e do padre Haroldo Rahn, que morava em Americana e é patrono espiritual dos recuperandos. A primeira unidade surgiu em Americana, com o objetivo de oferecer tratamento aos drogados durante o dia. À noite, a casa não oferecia acomodações para abrigá-los e, por isso, eles deveriam retornar aos seus lares, dormindo em outro local. Logo nos primeiros meses, porém, os coordenadores do projeto constataram que a forma ideal de tratamento deveria incluir a permanência integral do paciente nas dependências da casa - que, para isso, passou a oferecer acomodações onde as pessoas em tratamento pudessem dormir. Depois de encontrada a forma ideal de ministrar o tratamento, a iniciativa se expandiu e foram criadas unidades em Limeira, Rio Claro, Araras e, ainda, em cidades gaúchas e mineiras. O nome, Casa Dia, é uma lembrança da primeira fase, quando a instituição ainda não atendia durante a noite.
Em Jaú, a Casa começou a prestar atendimento no final de abril, embora não houvesse sido inaugurada solenemente - o que só aconteceu em junho. Segundo Edson Aparecido Barbosa, diretor da unidade jauense, a Casa tem capacidade para abrigar 26 pessoas e já é ocupada por 21. Os internos pagam pelo atendimento uma mensalidade no valor de R$ 150,00, que inclui as três refeições oferecidas diariamente (café da manhã, almoço e jantar). Dentre as 26 vagas, sete são oferecidas a carentes, que não precisam pagar nada pelo tratamento.
Barbosa foi interno da Casa Dia em sua unidade de Rio Claro. Como morava em Jaú, quando conseguiu abandonar o vício, uniu-se a um amigo em situação semelhante e, juntos, decidiram organizar uma unidade em Jaú.
Barbosa explica que a condição primordial para que a Casa Dia receba o drogado é que ele tenha decidido se submeter ao tratamento. A instituição dispensou o verbo "obrigar" de seu dicionário. O interno não é submetido a nenhum ato com que não concorde. O tratamento se sustenta por iniciativa do próprio recuperando, e utiliza os "doze passos" (pensamentos que conduzem à reflexão e têm por objetivo fazer o paciente compreender a importância de sua recuperação), discutidos tanto durante sessões na própria Casa como em reuniões que acontecem em outros locais, para onde os pacientes podem ser transportados.
Segundo Barbosa, em média o paciente permanece como interno durante três meses, após o que retorna para sua casa e se mantém freqüentando algumas atividades promovidas pela instituição, se quiser. Antes da internação, o paciente é submetido a uma avaliação para constatar seu nível de envolvimento com o vício.
A rotina diária dos internos compõe-se dessa forma: às 6h30, eles acordam e se preparam para o café-da-manhã, oferecido entre 7 e 8 horas. Das 8 às 9 horas, são promovidas sessões de leitura da Bíblia, para despertar a espiritualidade dos internos
- um dos aspectos que mais contribui para a recuperação deles. Das 9 às 10h30, todos se empenham em atividades de limpeza da casa. Às 10h30, tem início a primeira reunião de passos do dia, que se prolonga até o meio-dia. Entre 12 e 13h30, é servido o almoço. Das 13h30 às 15 horas, os internos se ocupam com serviços de limpeza ou no cultivo de uma horta, existente no terreno ao lado da Casa. Entre 15 e 16h30, há outra reunião de passos. Das 16h30 às 18 horas, os internos devem tomar banho para, até as 19 horas, descansar aguardando o jantar, que é servido entre 19 e 20 horas. Das 20 às 22 horas, acontece a última reunião de passos do dia. Nos primeiros dez dias de internação, essa sessão
é aplicada ao paciente na própria Casa Dia. Após o décimo dia, o interno passa a acompanhar os grupos que vão a igrejas ou grupos de apoio (Alcoólicos Anônimos ou Narcóticos Anônimos), para participar das reuniões promovidas lá. Por fim, às 10h30, todos devem se recolher aos quartos: é hora de dormir.
Exemplos de disposição
para abandonar o vício
A equipe do Jornal da Cidade ouviu três dos 21 internos da unidade que a Casa Dia administra em Jaú. Leia suas histórias, que representam uma demonstração de que buscar tratamento é o melhor caminho.
J. C. A. conheceu a Casa Dia em razão de seu parentesco com Édson Aparecido Barbosa, o diretor da unidade jauense. Ele mora em Jaú e conta que a primeira droga que consumiu foi maconha, aos 16 anos. Depois, passou a usar cocaína e até crack. Aos 26 anos, convenceu-se da necessidade de buscar tratamento para abandonar o vício e se internou na Casa Dia de Jaú, onde está desde os primeiros dias de funcionamento. É sua primeira tentativa de largar a droga. J. destaca que, através do tratamento, ele está se conscientizando sobre os benefícios e a necessidade de largar o vício, para ter uma vida normal:
"Sem drogas, é melhor, a gente se sente bem e não
é discriminado".
S. P. G. tem 25 anos, é de Campo Grande
(MS) e esteve internado na Casa Dia de Rio Claro, cidade onde mora sua irmã. Feliz com o método mas descontente com o lugar, ele se transferiu para Jaú, e vem obtendo sucesso com o tratamento.
C. M., que tem 20 anos e mora em Uberaba, já esteve internado outras três vezes em Casas Dia, em busca de recuperação para largar o vício das drogas. Nas ocasiões anteriores, recaídas o levaram a abandonar o tratamento - que, afinal, não é aplicado contra a vontade do paciente. Mas já havia constatado a necessidade de abandonar o vício (ele chegou a usar crack e ácido lisérgico) e a pressão de um amigo, que havia se internado e mantinha contato com ele por telefone, fez C. internar-se novamente, desta vez em Jaú. Ele diz estar bastante feliz com o tratamento, que já está produzindo os efeitos esperados, e não perde a oportunidade para expor uma mensagem
àqueles que enfrentam problemas com as drogas: "Peça ajuda, venha descobrir como é bom viver de cara limpa, abandonar o vício que faz tão mal. A Casa Dia está de portas abertas pra você".
E agora, a entidade está mais próxima, também!