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Entrevista com Denise Stoklos

Redação
| Tempo de leitura: 10 min

Denise Stoklos: Um Xamã no palco

Denise Stoklos: Um Xamã no palco

Apesar de ser uma das mais completa artistas brasileiras, Denise Stoklos está longe do esteriótipo de uma estrela. Sua imagem desgrenhada, meio grunge, meio mulher das cavernas se opõe a uma personalidade instigante e encantadora. Capaz de declarações do tipo "qualquer pessoa que reflita um pouco mais sobre amor e liberdade será anarquista", Denise é uma mãe orgulhosa que considera a família uma base sólida.

Leia a seguir a entrevista que a artista concedeu com exclusividade ao JC Cultura, no sábado passado, algumas horas antes de mostrar o espetáculo "Elis Regina", no Sesc Bauru.

Jornal da Cidade - Para você o teatro possibilita escolhas. Qual é este caminho que você encontrou para desenvolver seu trabalho?

Denise Stoklos - Tem duas distinções muito claras entre os caminhos que você pode tomar dentro do teatro. Um é o trabalho de ficção, onde o ator escolhe seus personagens e tenta reproduzi-los. Por exemplo, se faz o papel da velhinha. Você vai ser tão melhor atriz quanto mais você conseguir convencer que é aquela velhinha. Cria-se, então, uma ficção. Este teatro de ficção é o que normalmente se pensa quando se fala de teatro. O outro tipo de teatro, que talvez seja algo mais milenar, mais transcendental, remete aos rituais tribais. O ator é como um pagé, um xamã, que cria com a platéia uma conexão com as coisas mais profundas da sua humanidade, fazendo com que ela cresça e se sinta mais forte. Portanto, este teatro xamânico lida com energias, não é com ficção, não é fazer acreditar que você é outra pessoa. No meu teatro eu trabalho só com isso, eu nunca trabalho com personagens. São reflexões que eu trago, através de um condutor da cena, que pode ser as canções da Elis Regina, o mito da Medéia, a história da rainha Mary Stuart e da rainha Elizabeth ou o Cristóvão Colombo descobrindo a América. São temas, eu não procuro fazer acreditar que eu sou. Eu não tento reproduzir. Não quero parecer como a rainha, por exemplo. Eu vou transmitir através daquele tema, alguma coisa para a platéia, para que ela possa crescer.

O teatro xamânico existe em todas as tribos, em todas as comunidades. Desde as gregas, as romanas, do comecinho do teatro, as tribos indígenas, com suas danças. O homem da caverna desenhando é teatro também. Ele faz uma coisa para olhar, pensar, crescer e melhorar. Toda a expressão da arte é sobre a luta da humanidade por mais amor e liberdade.

JC - Você se considera anarquista?

Stoklos- Só posso ser anarquista, qualquer pessoa que reflita um pouco mais sobre amor e liberdade será anarquista. O melhor governo é aquele que não existe, porque possibilita que todos se alto governem. Anarquismo não

é bagunça. É o contrário, é a super-organização, porque você trata o outro como você quer ser tratado. É o desenvolvimento máximo da democracia, do socialismo, de tudo que há de bom. É onde o homem compartilha e cresce.

JC - E a família? Você termina o Manifesto do Teatro dizendo que é feliz porque tem uma família bem constituída e que se orgulha disto. Qual é a importância da família no seu trabalho?

Stoklos - Vou falar das duas pontas. Primeiro os meus pais e meus irmãos, de onde eu vim e como eu fui criada. Eles davam total atenção ao meu exercício da vocação teatral. Eu já fazia na sala da casa dos meus pais o que eu faço agora em qualquer lugar do mundo. Eles prestavam atenção, achavam engraçado, riam e, é claro, que isto foi um estímulo. A melhor maneira de aprender

é fazendo, é sendo aceito e eles me aceitavam. Isso me estimulava a acreditar que minha originalidade era interessante, era algo que eu deveria alimentar. Depois meus filhos me revelaram que era essa a minha história de vida, que eu não deveria jamais largar a minha originalidade, a minha busca, a minha visão. Esse seria o meu testemunho ao mundo de que eu estava viva.

Quando eu tive meus filhos, percebi que eu jamais deveria largar esses dotes que eu reconheço em mim. Não importa se eles existem ou não, mas, se eu os reconheço em mim, devo desenvolvê-los. E isto eu falo como exemplo, porque a gente reconhece os chamamentos e deve desenvolvê-los.

É o mínimo que se pode fazer para retribuir aquilo que nos foi dado, como o talento, a disponibilidade, a coragem e a vontade de se entregar.

Meus filhos me fizeram entender que os seres mais importantes para você não são seus. Na hora que você está tendo um filho, já percebe que quem você mais ama no mundo não é seu, mas dele mesmo. Você nem quer que ele seja seu, porque ele não é seu. Ele tem a cara dele, o jeito dele. Isto dá uma sensação maravilhosa de ausência de ego. A experiência de ter uma criança, toda a beleza de engravidar, de um outro ser se formando espontaneamente dentro de você, faz com que você aprenda a fraternidade.

Você começa a entender que está com a inteiração e amplia esta sensação para o resto do Universo.

JC - Você falou da gestação como um momento especial, da criação de um novo ser. Isso mudou a sua relação com a criação do seu teatro?

Stoklos - Totalmente. Quando eu fiquei grávida da minha primeira filha, foi em um momento de auto-exílio, em Londres.

Nós, o pai deles e eu, fomos embora, porque estávamos cansados do sistema brasileiro em 77, a repressão absurda, a dificuldade de se desenvolver. Eu não queria mais fazer teatro, nem nada, queria realmente me desligar e redescobrir.

Daí veio o renascimento através dos meus filhos. Quando eu voltei, escrevendo monólogos, me dirigindo e atuando, foi por causa deles, das coisas que eu estava aprendendo com eles.

JC - Foi aí quando você se tornou a "One Woman Show" (nome do primeiro espetáculo solo da artista)?

Stoklos - Sim, foi por causa dos meus filhos. Eu entendi o recado que eles estavam me dando, que eu não poderia deixar de desenvolver os dotes que tinha. Eu tinha crescendo dentro de mim, essas possibilidades, de escrever, de dirigir e de atuar.

E eu deveria tratar com cuidado que se deve dar aquilo que não

é meu, eu nasci com isso, mas não é meu.

Na peça "Desobediência Civil" eu escrevi um trecho que representa bem esta idéia, os dotes são partilhas dos bens cósmicos, que são dados para cada um de presente, para que você pegue aquilo e faça florescer. Só existe um trabalho, florescer uma coisa que te foi dada. Eu permiti isso. Decidi escrever minhas próprias peças, porque eu tenho testemunhos a dar que nenhum outro pode dar. Cada um é um teatro em si. O que cada um pode escrever, ninguém mais pode fazer daquele jeito. A direção, o modo de armar uma cena, cada um faz de sua maneira porque tem uma lembrança, uma memória, uma organização emocional.

A maneira de atuar, cada um tem uma energia, tem um equilíbrio, uma harmonia de ossos, de combinações, de pesos.

JC - A simplicidade é uma marca sua. Por que você não usa recursos ténicos, como figurino, cenografia?

Stoklos - Porque o ator tem que trabalhar, está tudo no ator. Ele tem que ter todo o seu trabalho.

JC - O elemento central do seu teatro é o ator?

Stoklos - Ele que tem que fazer o cenário, o figurino. Ele tem que ver o poder de uma rainha sem a roupa. Fazer acreditar na essência daquilo, não apenas naquela rainha, mas o que é a essência de todas as rainhas naquela. No teatro de ficção a gente só vê uma rainha. Mas se você consegue ver uma rainha sem a roupa de rainha você está vendo a estrutura de todas as rainhas.

O teatro xamânico trabalha com signos. Não é um teatro um auto-biográfico. A minha pessoalidade não está ali em nenhum momento, meu ego não está ali. Sou um condutor da cena, uma monitora da experiência do espectador.

O ator tem que trazer para a platéia essa magia de rever uma experiência humana, da rainha, do conquistador, para pensar no seu amor, na sua liberdade. Através da teatralização daquele ritual todos juntos olhando aquela energia, sair dali mais forte e mais fraterno. Com sentimentos superiores, essa é a função do teatro, da arte.

JC - Você tem discipúlos, pessoas que trabalham na mesma linha que você?

Stoklos - Eu já dei aulas muito tempo e saiu muita gente dali, mas eu não imagino que seja a melhor maneira de se ensinar fazer alguém reproduzir o que eu faço.

Eu pretendo o contrário, ensinar a pescar. Eu parei de dar aulas já faz algum tempo. Mas agora aceitei um convite para dar aulas na Universidade de Nova York, de janeiro a maio. Eu vou dar aulas aqui também, sou muito cobrada por atores jovens, que são curiosos, querem se aprofundar. Eu sinto até como uma obrigação cívica, compartilhar o meu caminho, dentro do País.

JC - O que você acha do trabalho das novas companhias de teatro?

Stoklos - Eu não posso falar porque não vejo nada. Porque eu sou super ocupada com meus próprios compromissos, ou estou me apresentando ou ensaindo ou escrevendo. Eu sempre trabalho com dois, três projetos paralelos e ainda apresento um repertório, todas as peças estão em cartaz.

JC - Há quanto tempo você não apresentava o Elis Regina?

Stoklos - Eu fiz o Elis em 83 e apresentei durante um bom tempo. Em 86, eu fiz uma apresentação, no aniversário da Elis. Remontei este ano, numa mostra de uma semana, cada dia um espetáculo meu, comemorando os meus 30 anos de carreira.

JC - A que você atribui o sucesso da sua experiência no exterior?

Stoklos - Eu já estive em 31 países, em alguns deles várias vezes. Eu acho que é porque eu sou a única atriz brasileira que não faz televisão.

Fiz uma única novela em 84, chamada "Ninho da Serpente", do grande autor Jorge de Andrade. E foi muito bom para saber o quanto não é legal.

No exterior as pessoas vão muito ao teatro, não precisa fazer televisão para as pessoas saírem de casa para ver. O nível sócio-econômico é outro, então eles vêem muito teatro, por isso, eles conseguem categorizar se uma peça é interessante ou não.

Eu acho que a absorção do mercado ao meu trabalho

é porque eu trabalho com dois elementos ao mesmo tempo, o corpo e a voz.

Normalmente, ou o teatro é expressão corporal ou ele é convencional, de ficção. É raro um teatro que tenha palavra, que o texto seja muito importante e o corpo tenha a mesma importância.

JC - Você fala da representação e da re-apresentação...

Stoklos - O que eu faço com todos os espetáculos

é isso eu re-apresento uma situação que pertence a todos, no seu fundamento, para que todos reflitam sobre aquilo. Meu trabalho não tem limite, cada vez fica mais difícil.

JC - Você tem uma visão do futuro de seu trabalho?

Stoklos - Eu tenho mais buscas e cada vez fica mais complicado. Eu quero atingir cada vez mais essa energia que mobiliza as pessoas, como eletricidade, essa parte do ser humano que a gente não vê.

O máximo vai ser o ponto que eu chegar que eu não vou falar uma palavra, não vou fazer um gesto e ainda assim será teatro. Acontecerá tudo isso, só pela imanência da presença, vou estar tão sábia, vou estar sabendo expressar a um nível tão profundo, que eu não vou precisar de nada para mobilizar o público.

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