Bauru, o desconhecido por trás do sanduíche
Bauru, o desconhecido por trás do sanduíche
Texto: Adriana Amorim
Bauru não é apenas o nome da cidade que fica a oeste do Estado de São Paulo e do sanduíche que consta na maioria dos cardápios das lanchonetes brasileiras. É também o apelido de Casemiro Pinto Neto. O nome pode não ser conhecido, mas foi ele um dos principais responsáveis pela divulgação do Município pelo País a fora: ele criou o sanduíche Bauru.
O nome de Casemiro Pinto Neto se tornou praticamente esquecido diante do sucesso da receita do lanche. Em Bauru, terra natal de Pinto Neto, um viaduto e um busto prestam homenagem a ele. Embora tenha saído da cidade ainda garoto, o bauruense conquistou a Capital do Estado e ocupou cargos de confiança dentro do governo estadual.
O historiador Luciano Dias Pires explica que Casemiro Pinto Neto saiu de Bauru em 1931, aos 17 anos, depois de ter estudado nos colégios São José e Guedes de Azevedo. Em São Paulo, ele foi cursar Direito na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Formou-se 5 anos depois, mas nesse período viveu experiências importantes.
Na revolução
Uma delas foi na Revolução de 32. Ele integrou o batalhão 14 de Julho da Faculdade de Direito. O historiador conta que, antes de vestir a farda, Pinto Neto escreveu o nome
"Bauru" numa espécie de boina de pano colocada na cabeça. "Ele escreveu o nome que ele sempre trazia no coração, e aí nasceu o apelido", explica Luciano Dias Pires. Em depoimento prestado por Lourdes Eugênio Torres, tia de Pinto Neto, ao historiador, ela diz que o sobrinho teve presença marcante no conflito. "Lembro-me de todos contarem que ele era grande descobridor de ninhos de metralhadoras inimigas", conta.
Depois da revolução, Casemiro Pinto passou a exercer a advocacia. Em 1938, começou a ocupar o cargo de auxiliar de gabinete do secretário de Justiça daquela época, César Lacerda de Vergueiro. De 39 a 41, foi oficial de gabinete do governador Adhemar de Barros.
Já conhecido no meio político, o bauruese foi cotado em 38 para ocupar a direção do cartório civil criado no Distrito de Vila Maria, em São Paulo, que recentemente havia se desmembrado do Jardim Santana. Em 42, iniciou sua atuação no mundo radiofônico. Segundo o historiador, Casemiro Pinto foi o primeiro Repórter Esso, programa que representa um marco na área jornalística. Dois anos mais tarde, ele passou a atuar como diretor comercial da Rádio Panamericana e posteriormente como diretor financeiro da TV Record.
Casemiro Pinto Neto ficou doente em 81 e morreu em 83. Atualmente, seus familiares não residem mais em Bauru. Em São Paulo, ainda existem tios e primos. Fotos e mais detalhes sobre a vida do bauruense podem ser encontrados no Instituto Histórico Antonio Eufrásio de Toledo.
Skinão ainda mantém ingredientes originais
Em plena terra do Bauru, apenas um estabelecimento comercializa o sanduíche com os mesmos ingredientes do lanche original. O proprietário do Skinão Lanches, José Francisco Júnior, diz que prefere manter a tradição e garantir a manutenção de um dos principais ícones da cidade.
"Eu nunca deixei de fazer da maneira original para não deixar morrer a tradição", afirma. Ele conta que começou a fazer o verdadeiro Bauru no início de sua atividade como dono da lanchonete depois de ouvir rumores de que o Ponto Chic, em São Paulo, seria fechado. Para que o sanduíche feito pelo bauruense Casemiro Pinto Neto não fosse esquecido, decidiu começar a fazê-lo em Bauru. "Até essa época, pouca gente sabia como essa comida era de verdade", explica.
O Ponto Chic não encerrou as atividades, mas o Skinão também não deixou de fazer o sanduíche original. Hoje, o Bauru é o carro-chefe da lanchonete. "E pelo menos 90% dos bauruenses sabem como é o Bauru", contenta-se.
(AA)
Lei municipal sugere registro do Bauru original
A lei nº 4314, de 24 de junho do ano passado, autoriza a Prefeitura Municipal a tomar as medidas necessárias para o registro do sanduíche Bauru. Segundo o vereador José Eduardo Ávila, autor do projeto de lei, o Executivo deve verificar qual o órgão que será encarregado por manter inalterada a receita original do lanche.
A lei foi publicada no Diário Oficial do Município no dia 1º de junho do ano passado. "Não é justo que, de repente, uma empresa estrangeira tome a fórmula para ela de um produto que é nosso", argumenta o vereador. A lei cita os ingredientes que compõem o verdadeiro sanduíche e o modo de preparo. Conta resumidamente a origem do Bauru em São Paulo, defendendo ainda a preservação da iniciativa do proprietário do Skinão e da realização anual da Festa do Sanduíche Bauru.
Ávila afirmou que conversou recentemente com o prefeito Nilson Costa, que teria garantido que as providências serão tomadas. Ele diz que três propostas devem ser apresentadas esta semana ao Executivo: colocar o nome do bauruense criador do sanduíche em uma praça da cidade e criar um adesivo para identificar o estabelecimento que prepara o Bauru nos moldes originais.
Um outra proposta é que seja exigido de redes de lanchonetes instaladas e que vierem a se instalar na cidade que adotem o Bauru no cardápio. A idéia é defendida também pela professora de História da Universidade do Sagrado Coração (USC), Terezinha Zanlochi, que em maio deste ano apresentou a sugestão no encontro de museus feito na cidade.
Ela frisa que a proposta ainda não foi apresentada a lanchonetes, como Mc'Donalds, mas a idéia é seguir a mesma estratégia adotada por outros países, que exigiram a presença de determinados alimentos para que a rede se instalasse no local.
"Temos que preservar a nossa identidade", ressalta a professora. (AA)
Sanduíche seguiu cartilha alimentar
Pão francês, queijo, tomate, rosbife e picles. Não foi apenas pelo sabor desses ingredientes que Casemiro Pinto Neto pediu que eles fossem reunidos em um único sanduíche, o Bauru. Segundo o historiador Luciano Dias Pires, o bauruense levou em consideração também o valor nutritivo.
Na década de 30, quando Pinto Neto vivia em São Paulo e frequentava assiduamente um dos mais tradicionais bares da cidade, o Ponto Chic, no Largo do Paissandu, circulava nos cartórios de registro civil da Capital uma cartilha contendo sugestões de uma alimentação ideal que poderia ser seguida pelas famílias.
O médico Wladimir de Toledo Piza colocou em circulação o livreto assim que ingressou no Rotary Club da cidade. A intenção era fornecer algo mais às crianças que as tradicionais festas de final de ano. Com linguagem simples, a cartilha foi distribuída nos cartórios para que ficassem perto dos pais. Como Casemiro Pinto Neto era oficial do cartório da Vila Maria, leu o livro e aproveitou as dicas para pedir os ingredientes ideais.
O misto de bom gosto e alimentação equilibrada foi tão bem elaborado que acabou ganhando popularidade. Os frequentadores do Ponto Chic passaram a pedir o mesmo lanche que Pinto Neto, apelidado de Bauru. "Eu quero aquele do Bauru", diziam. Foi assim que a receita do bauruense ocupou o cardápio das lanchonetes e passou a ser um dos maiores símbolos do Município. (AA)
Como fazer um Bauru
Ingredientes
1 pão francês
1 rosbife
fatias de mussarela
tomate
picles de pepino
orégano
sal
água
Modo de fazer
Tirar o miolo de uma das duas fatias do pão. Naquela que continua com o miolo, colocar o rosbife frio, que deve ser preparado com antecedência. Sobre ele, fatias de tomate, 2 ou 3 fatias do pepino e o orégano. À parte, coloca-se um pouco de água em uma frigideira. Quando ferver, colocar a mussarela. Ao estar derretido, o queijo deve ser retirado e colocado na parte do pão que está sem o miolo, unindo as duas partes. O calor da mussarela vai aquecer os ingredientes da outra metade.
Fonte: Skinão
Bauru engorda menos que outros sanduíches
O sanduíche Bauru não é bom apenas no sabor. Tem também a vantagem de possuir menos calorias e ser mais nutritivo que os demais sanduíches. A constatação
é feita pela nutricionista Sueli Prieto. "Os lanches não devem substituir as refeições, mas se for para alguém ingerir de forma esporádica, eu indico o Bauru no lugar dos hamburgeres", diz.
Entram na composição do Bauru 34,5% de proteínas, 29,8% de carboidratos e 35,59% de lipídios. Ao todo, são 436 calorias e 9 gramas de gordura saturada. O tomate representa uma fonte de vitaminas e sais minerais, o rosbife assado entra com proteínas e poucas calorias por não ter gordura e o pão é rico em carboidrato.
Um outro lanche composto por pão, hamburguer, mussarela, tomate, alface crespa, maionese e mostarda possui 521 calorias. Tem 20,88% de proteínas, 20% de carboidratos, 59% de lipídeos e 30 gramas de gordura saturada.
Portanto, o Bauru engorda menos porque oferece menor concentração de gordura saturada, um dos principais responsáveis pelo aumento do peso, e menos calorias. "Além disso, fornece maior concentração de vitaminas, sais minerais e proteínas", acrescenta Sueli.
A dica da nutricionista para que o Bauru continue sendo uma fonte alimentar melhor que os outros sanduíches é que não seja usada mostarda, maionese e ketchup. "O original não tem esses ingredientes. Além do mais, eles aumentam a quantidade de calorias", explica. Para quem quer controlar ainda mais o peso, ela sugere o queijo branco e o pão integral.
(AA)