Amor na sala de aula
Amor na sala de aula
Texto: Gustavo Cândido
O filme "Caçadores da Arca Perdida" tem uma cena engraçada sobre o tema. Enquanto não está buscando objetos raros e vivendo aventuras pelo mundo, o arqueólogo Henry "Indiana" Jones, vivido por Harrison Ford, dá aulas de Arqueologia em uma faculdade de Nova York. Durante suas aulas dezenas de alunas só conseguem prestar atenção nele, não na matéria, que deixa todos entediados. Uma das alunas, mais ousada, escreve na parte de cima das pálpebras
"eu te amo" e fecha os olhos toda vez que o professor vem em sua direção para que ele possa ler. Ele pensa estar "vendo coisas" e fica desconcertado.
Não é só no cinema que alunas e alunos dão em cima dos seus professores, essa história
é mais comum do que parece e acontece em quase todas as escolas há muito tempo.
"Só conseguia agüentar o meu curso de inglês porque a minha professora era interessante", conta o estudante universitário Mário Gimenez sobre um curso que fez quando tinha 16 anos. "Ela não era muito mais velha do que eu, era muito bonita e simpática, todos os caras da classe 'adoravam' ela". Além de não perder uma aula por causa da professora, Mário ainda dava um jeito de "passar na frente" dos outros colegas interessados e desfrutar alguns momentos a sós com a teacher. "A escola oferecia umas aulas de reforço caso o aluno procurasse e precisasse, de vez em quando eu fingia não ter entendido direito a matéria só para ter aulas 'particulares' como ela em dias diferentes da semana", revela.
A paixão de Mário durou apenas seis meses, o tempo normal da passagem de fase do curso, logo depois veio um professor e a festa acabou. "Fiquei torcendo para ela me dar aula de novo mas logo ela foi embora da escola. Acabei esquecendo".
Nem todos os alunos ou alunas chegam ao extremo do Mário, de se fingir de desentendido para ficar mais próximos dos professores. "As meninas, por exemplo, são mais românticas e ficam admirando o professor à distância, platonicamente", diz a psicóloga Eliza Haruko Tazaki, "os meninos pensam mais em sexo e vão mais em cima".
Por conta dessa visão romântica, são com as meninas que esse tipo de comportamento acontece mais, segundo a psicóloga. "Já me interessei por alguns professores meus nos últimos anos", confirma a tendência Ana Maria Santos, de 17 anos, "mas nunca aconteceu nada de concreto, acho que porque eu não demonstrei muito".
Karen Slompo, de 16 anos também faz parte da lista: "me interessei por uma professor meu mas ele tinha namorada então fiquei na minha. Quando ele terminou pensei que tinha chegado a minha vez mas logo depois ele arrumou outra bem depressa e eu tive que deixar de lado", conta.
Mais próximos
A figura do professor mudou nos últimos anos. Antes os mestres eram senhores ou senhoras de mais idade, geralmente mais com aparência de tios ou até mesmo avós do que de possíveis namorados ou namoradas. "Mesmo assim ainda tinha uma certa paquera", conta uma dona de casa de 45 anos que prefere não se identificar, "só que quase nunca acontecia alguma coisa". Hoje a faixa etária tanto de professores como de professoras é mais baixa, mais próximas dos alunos, o que faz com que a paquera não seja uma coisa muito rara, nem muito impossível de se tornar um namoro, principalmente nos cursinhos.
Foi numa aula do cursinho que Simone Maira Fernandes, de 19 anos se apaixonou pelo seu professor de Língua Portuguesa, Walter Henrique Maldonado, de 28, hoje estão noivos. "Sempre rola uma paquera no cursinho mas a gente procura evitar qualquer coisa porque não é legal", conta Maldonado,
"um dia a Simone, que era uma aluna que eu já achava bonita e inteligente, disse que estava apaixonada por mim durante uma festa. Minha primeira reação foi dizer para ela que talvez ela estivesse enganada, pedi para ela pensar bem no assunto. Ela disse que tinha certeza, alguns dias depois saímos juntos, depois acabamos namorando".
Depois de que começaram a namorar a preocupação do professor foi comunicar a direção da escola que estava namorando uma aluna e os pais dela. "Podia ficar uma situação chata, o pai põe a filha na escola e de repente surge um professor querendo namorá-la", lembra. Maldonado tratou então de avisar na escola do relacionamento, onde não teve problemas e contou com mais sorte ainda com os pais de Simone, "além de ser professor dela, fiquei preocupado por causa de nossa diferença de idade de 9 anos e meio, foi quando ela me contou que seu pai também era mais velho que sua mãe e que também tinha sido professor dela". Deu tudo certo, depois de um ano de namoro Simone e Walter ficaram noivos.
Situação difícil
Nem todas as histórias terminam bem como a de Simone e Walter. Muito porque nem todas as meninas têm a coragem que Simone teve de se declarar. "O professor nunca vai se declarar para uma aluna porque tem a direção da escola, se bem que existem muitos professores que dão em cima das alunas", conta Carolina Dias, de 19 anos.
Outro fator é a idade e a posição deles, que algumas consideram uma barreira intransponível, "nunca me interessei por um professor e acho que não vou fazer isso, acho que não tem nada a ver, me sentiria estranha em vê-lo todos os dias", diz Estela Lourenço, de 16 anos. O mesmo pensa Charlene Figueiredo, também de 16, "se me interessasse por um professor acho que iria 'desencanar' porque seria um relacionamento difícil, pelo fato dele ser meu professor e mais velho", afirma. Mas Charlene não
é totalmente alheia à possibilidade: "tem muito professor bonito na minha escola...", diz sorrindo.
Mania adolescente
De acordo com Eliza Tazaki a paixão de alunos por professores
é uma característica típica da adolescência, principalmente quando a diferença de idade é grande,
"é uma fase por qual a maioria passa e acontece quando os jovens estão naquele momento de contestar tudo o que os pais dizem. O professor acaba fazendo o papel do adulto legal, que não reclama, fala a mesma língua que ele e por isso acaba sendo idealizado como uma pessoa perfeita, sem os defeitos que eles vêm nos pais", explica.
Segundo a psicóloga na hora em que os pais ou os professores percebem que um filho (aluno) ou filha (aluna), está sentindo
"algo a mais", é preciso ter cuidado e saber como conversar e não alimentar a situação.
"É preciso explicar que isso acontece com todo mundo e é uma coisa que passa, eles devem questionar o jovem sobre esse sentimento e fazê-lo enxergar a situação de outra forma".
O Professor
"Este ano eu deveria conhecer a pessoa que transformaria a minha vida na mais perfeita alegria. Estou no 3º colegial, e durante todo esse tempo que estudei isso nunca havia acontecido: me apaixonei pelo meu professor de Geografia.
Não foi assim que o vi, mas foi à partir daquele dia que apresentei meu trabalho sobre os movimentos juvenis de uma maneira radical e ele me deu um apoio que nenhum professor daria, passamos a conversar sempre depois desse dia. Comecei a pensar nele em tudo o que fazia e a me sentir muito feliz. Mas sendo casado, nada mais poderia me oferecer que sua amizade, tão doce e maravilhosa.
Mesmo a cabeça pensando que era errado, meu coração passou a amar cada olhar, cada palavra, cada gesto de atenção, cada vez que o via passar. Nada podia esperar, mas com a sua presença tudo me bastava.
Mas ele estava cansado e tinha que ir. Não imagina a minha angústia em saber que um dia entraria e não mais o encontraria, que nada podia fazer, não podia tomar o seu cansaço e suas preocupações pra mim para que ele ficasse bem.
Ele se foi e isso doeu tanto, agora eu fico buscando no meu dia-a-dia as lembranças que deixou, vou buscar além do vazio daquela escola a presença dele que tudo transformava.
Devo agradecer à ele por me ensinar a amar, por me ter feito tão feliz, por toda a ternura que deixou no meu coração, não preciso de ninguém porque só nele pude descobrir tudo o que sou de uma maneira tão linda.
Ele sempre estará comigo através do meu amor...
"
Uma aluna
Carta enviada por uma leitora para a coluna Minha História
Não fique tão perto de mim
O cantor Sting gravou uma música que conta uma história de amor entre um professor e sua aluna. A inspiração foi um fato que aconteceu com o próprio cantor inglês, na época em que dava aulas de Educação Artística, antes de formar o The Police e ficar famoso.
"Don't Stand So Close To Me"
Young teacher, the subject
Of schoolgirl fantasy
She wants him so badly
Knows what she wants to be
Inside her there's longing
This girl's an open page
Book marking - she's so close now
This girl is half his age
Don't stand, don't stand so
Don't stand so close to me
Don't stand, don't stand so
Don't stand so close to me
Her friends are so jealous
You know how bad girls get
Sometimes it's not so easy
To be the teacher's pet
Temptation, frustration
So bad it makes him cry
Wet bus stop, she's waiting
His car is warm and dry
Don't stand, don't stand so
Don't sand so close to me
Loose talk in the classroom
To hurt they try and try
Strong words in the staffroom
The accusations fly
It's no use, he sees her
He starts to shake and cough
Just like the old man in
That book by Nabokov
Don't stand, don't stand so
Don't stand so close to me
(Please don't stand so close to me)
"Não se fique tão perto de mim"
Um jovem professor, o objeto
Da fantasia de sua aluna
Ela o deseja tanto
Sabe o que quer
A intenção que há dentro dela
Essa garota é uma página aberta
Repare - ela está tão perto agora
Essa garota tem a metade da idade dele
Não fique tão, não fique tão
Não fique tão perto de mim
Não fique tão, não fique tão
Não fique tão perto de mim
Seus amigas são tão ciumentas
Você sabe o que garotas más fazem
Algumas vezes não é tão fácil
Ser a preferida do professor
Tentação, frustração
É tão terrível que o faz chorar
Num ponto de ônibus molhado, ela espera
Seu carro é quente e seco
Não fique tão, não fique tão
Não fique tão perto de mim
Não fique tão, não fique tão
Não fique tão perto de mim
Conversa fiada na sala de aula
Eles tentam e tentam ferir
Palavras fortes nos corredores
As acusações voam
Não importa, ele a vê
E começa a tremer e engasgar
Como aquele velho
No livro de Nabokov
Não fique tão, não fique tão
Não fique tão perto de mim
Não fique tão, não fique tão
(Por favor não fique tão perto de mim)