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Pescaria

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 7 min

Novamente o Xingu...

Novamente o Xingu...

Texto: Roberta Mathias

A região do rio Xingu continua atraindo pescadores que vão em busca de tranquilidade, novidades e, quem sabe, um belo encontro com os habitantes de suas águas

Explorar os encantos da Bacia Amazônica é uma aventura singular para aqueles que prezam todos os momentos de uma pescaria. Começa nos preparativos para a viagem, passando pelo encontro com a natureza e a busca inevitável pelos peixes. Briguentos ou imensos, eles vivem em centenas de espécies nos rios da Bacia, desafiando o pescador mais experiente. E, mesmo com tanta diversidade e quantidade, sempre há dias de peixe e de pescador.

Muitos bauruenses têm aproveitado a região do rio Xingu para buscar seus troféus e, de quebra, conseguir um raro encontro com a mais tradicional cultura brasileira: a indígena. As tribos kuikúro e kalapálo habitam a reserva que traz surpresas e encantos para quem arrisca se embrenhar em áreas pouco exploradas.

A beleza de seu povo, a riqueza de sua cultura chegam a causar espanto no "homem branco", que há muito tempo esqueceu-se de respeitar o planeta. Com os índios, pescadores se transformam em crianças diante do novo. Foi assim com um grupo de pescadores que visitou a reserva e pôde aprender muito com as tribos kuikúro e kalapálo, na região do rio Xingu, no Mato Grosso.

O grupo esteve hospedado no rancho Xingu, do bauruense Ataualpa Catalan, 55 anos, às margens dos rios Kuluene e 7 de Setembro. Integrantes do Bauru Golfe Clube, os pescadores puderam aproveitar o passeio por inteiro: muitos peixes e visita à reserva indígena. Eles se dividiram em duas turmas, saindo de Bauru: uma foi de avião e a outra de caminhonete, com toda a tralha. O rancho possui uma pista de pouso com 1.200 metros de terra, em que podem pousar todos os tipos de aviões de médio porte, exetuando os jatos, segundo informou Catalan.

No rancho, os pescadores encontram toda a infra-estrutura necessária para a acomodação, sem os grandes luxos da cidade, porém com a riqueza da natureza ao redor. Piloteiros a postos, foram várias saídas, que rederam grandes exemplares aos visitantes. Lembrando sempre que os peixes fisgados abaixo da medida foram devolvidos ao rio. Além de respeitar a legislação, o pescador está contribuindo para a sua própria pescaria em uma outra oportunidade.

Nos momentos passados no rancho, tudo era festa. Do resultado da pesca, um delicioso sashimi foi preparado, com um pescado fresquíssimo e muito saboroso. No bate-papo descontraído entre os pescadores, surgem os "causos", que sempre são recheados de "verdades" e peixes enormes.

Mas há histórias que não são de pescador malandro, e sim verdades de matuto. Naquela região já tinha sido fisgada uma piraíba (em tupi-guarani significa peixe-mãe) de 130 Kg, que foi considerada o recorde da região (O Pesca & Lazer publicou a matéria em 5 de março de 1998). Porém, em maio deste ano, o recorde foi quebrado com a captura de um exemplar com 142 Kg e 2,37 metros.

Vale lembrar que a piraíba pode chegar a 300 Kg, mas peixes deste tamanho são raríssimos. Até 60 Kg, o exemplar é considerado filhote e deve ser devolvido. E a briga é demorada. São horas de batalha para retirar o "peixão" da água. O que não foi nenhum problema para o pessoal do Rancho Xingu, que levou para casa uma bela piraíba.

Agora a época não é específica para encontrar a piraíba, entretanto, outros peixes estão esperando os pescadores para juntos medirem suas forças e ver quem sairá vencedor. Em alguns momentos, a vitória

é do pescador, que vibra em cada belo exemplar fisgado. Mas muitas vezes a luta é vencida pelo peixe, que rouba a isca, arrebenta a linha, pula e escapa. É a lei da natureza. Não é permitido vencer todas as lutas.

O que pescar

Muitas espécies de bagres podem ser encontradas na região como piraíba (não espere recordes sempre!), pirarara, jaú, cachara e barbado. Há grande quantidade de esportivos como matrinxã, cachorra e o briguento tucunaré. Corvina, bicuda, mandubé, bico de pato, chupita, pacu da Amazônia e o trairão também são espécies da Bacia Amazônica facilmente encontradas nos rios Kuluene e 7 de Setembro.

Como chegar lá

O Rancho Xingu fica localizado na Bacia Amazônica, Mato Grosso, no encontro dos rios 7 de Setembro e Kuluene, onde nasce o rio Xingu. O município mais próximo é Canarana MT, a 130 Km do Rancho, estrada de terra em boas condições.

Para chegar a Canarana deve-se passar por Barra do Garças

(Rio Araguaia), onde o pescador verá a melhor opção para ir de sua cidade até a Barra, depois passa-se por Nova Xavantina (Rio das Mortes), Água Boa e Canarana (tudo asfalto).

De Bauru (SP), onde se encontra a administração do Rancho Xingu, até Canarana MT, são 1.300 Km.

Outra opção é ir de avião, para isso consulte o escritório do Rancho pelo telefone (0xx14) 223-5233, na avenida Rodrigues Alves 24-39. Se preferir, consulte algum táxi aéreo de sua confiança.

Para saber mais

http://www.ranchoxingu.com.br

************ História de pescador*************

Amigo pra cachorro

Existem certos momentos, que ficam gravados em nossas memórias, e quanto mais o tempo passa, mais gostosos pareciam estar. Um desses melhores momentos foi em uma pescaria de bagres e traíras, lá no rio São Luiz do Guaricanga, riozinho este, muito piscoso e de mata preservada em toda a sua extensão.

Quando nós falamos em pescaria, a primeira lembrança

é a companheirada que é de grande importância para a pescaria ser boa ou não.

Nós tínhamos limpado os poços e já estava turvando, quando arranquei o primeiro bigodudo da água e assim foi, um atrás do outro, até inteirar doze bagrinhos de pouco mais de um palmo. O seu João carpinteiro, o Jorge e o Pedrão tinham pego uns sete, só que eles não contam os peixes antes da pescaria acabar que dizem dar azar.

Eu estava no mato, de costas para um grotão de serra, foi aí que deu aquele arrepio de medo que parece levantar o cabelo do lombo, vinha vindo um bicho na minha direção e para não ficar tomado pelo medo e sair correndo pelo mato, me concentrei, tire o facão da cinta e roguei por Nossa Senhora, firmei o olho e vi que era um cachorro. Ele estava com a boca toda lanhada, com o pêlo todo riscado de cicatrizes, mas era um cachorro bonito. O bicho chegou perto, cheirou minha calça, acariciei sua cabeça e ele se deitou bem perto de mim e assim ficou até a hora que eu fui comer minha marmita de arroz, feijão e carne de porco. Sentei num toco e ele me acompanhou, fiquei pensando se naquele fim de mundo, poderia ser ele do Ernestino, um caboclo bom que mora lá, mas era muito longe. Eu comi metade da comida e, ao meu novo amigo, dei a outra metade. Voltei a pescar, desta vez batendo de poço em poço, sem medo, porque agora estava protegido, porque cachorro percebe as coisas e assim ficamos juntos até tarde da noite. Aonde eu ia ele se deitava ao lado. Eu chupei umas laranjas e o bagaço meu amigo comeu.

Quando chamei os companheiros para irmos embora, o cachorro ficou me olhando nos olhos e parecia que o bicho queria falar algo. Ele virou-se para o mato e foi entrando no meio de uma capoeira e eu fui atrás, chegamos numa lagoa linda, onde se escutava as traíras batendo na flor d'água, mas eu não tinha isca. Foi aí que eu fiquei impressionado, o cachorro enfiou a língua na água e quando a traíra mordeu ele deu um golpe com a cabeça que ela caiu longe, eu cortei ela porque além de ter rasgado a língua do amigo, ela me serviu de isca para pescar uma porção de traíras. Até hoje eu não sei se ele queria beber água ou se queria pegar isca pra mim, mas o que me deixou mais triste foi quando nós tínhamos arrumado as tralhas, contado os peixes, é que ele percebeu que nós

íamos partir, pudemos notar que do canto dos olhos dele corriam lágrimas.

No outro dia bem cedo, fui ao bar fazer uma fezinha e ainda ganhei cento e oitenta cruzeiros no grupo do cachorro.

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