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Poluição do Tietê

Fábio Grellet
| Tempo de leitura: 5 min

Tela de contenção resolveria problema

Tela de contenção resolveria problema

Texto: Fábio Grellet

Tela para deter sujeira sólida deve ser instalada onde rio ainda é estreito; Palmesan diz que "só falta apelar a Deus" para conseguir obra

Peculiar porque, ao contrário da maioria dos rios, que correm em direção ao mar, este nasce bastante próximo dele e corre em direção ao interior do continente, o Tietê banha aproximadamente 80 cidades paulistas, onde se abrigam cerca de 3 milhões de pessoas - não contabilizada, obviamente, a população de São Paulo. Foi na capital do Estado, porém, que o problema teve sua origem e foi sentido pela primeira vez: o lixo industrial e doméstico era lançado ao rio sem qualquer tratamento, poluindo suas

águas e até o ar ao redor dele. Afinal, quem é que ainda não sentiu o desagradável odor que invade as narinas daqueles que trafegam pela marginal Tietê?

A despoluição do rio, por sua vez, já mereceu diversos estudos e projetos. Segundo Malu Ribeiro, coordenadora de projetos da Fundação SOS Mata Atlântica, a proposta de despoluição considerada mais viável começou a ser implementada em 1992, até em decorrência das pressões alimentadas pela ECO-92, Conferência Mundial de Meio Ambiente realizada no Rio de Janeiro. Concluído em setembro de 1998, o projeto envolveu a construção de redes coletoras e estações de tratamento do esgoto.

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Essas estações, porém, têm por objetivo reduzir a contaminação da água por produtos químicos que se misturam a ela e, não, recolher o lixo sólido, que não se mistura à água, mas passa por ela e segue navegando até se acumular às margens do rios Tietê ou Paraná.

Esse tipo de sujeira - o lixo sólido, em grande parte reciclável

- não é coletado, ainda, através de nenhum projeto específico, e por isso continua sendo "exportado" até a Argentina - e poluindo as margens dos rios, desde São Paulo até Buenos Aires. Nesse trajeto, a sujeira passa por muitas barragens, mas cada uma delas retém apenas uma pequena parcela dos detritos. Antes de chegar a Barra Bonita, o lixo passa por duas barragens, nos municípios de Cabreúva e Salto. Parte dos detritos é recolhido ali, mas a quantia de lixo é imensa e a maior parcela dele ultrapassa as barragens e segue sua viagem pelo rio.

Segundo Palmesan, a solução para impedir que esses detritos avancem pelo rio seria instalar telas de contenção, feitas de ferro ou aço, em algum ponto do Tietê. Como a maior quantia de sujeira provém de São Paulo, Palmesan calcula que as telas deveriam ser instaladas num trecho do rio distante aproximadamente 70 quilômetros da capital

- até porque, nessa área, a largura do rio ainda

é pequena (aproximadamente 30 metros), enquanto no interior, em virtude do alagamento causado pelas represas, o Tietê chega a ter sete quilômetros de largura entre suas margens. Essas telas deveriam ser instaladas de forma inclinada, para que a própria correnteza deslocasse os detritos até uma das margens, facilitando seu recolhimento, e para dificultar o entupimento das telas pelo lixo. Seriam necessárias cerca de três telas, cada qual com buracos de tamanhos diferentes

- a primeira teria espaços mais largos, a segunda, menores, e a terceira, ainda mais reduzidos, para reter os detritos que passarem pelas primeiras telas. Com altura total de três metros e meio, sendo um e meio abaixo da lâmina d'água e os dois metros restantes sobre ela, as telas poderiam ser fixadas através de pilares de concreto e deveriam ser móveis, de forma a permitir seu rebaixamento ou elevação, conforme a necessidade. Embora desconheça o custo exato desse projeto, Palmesan assegura que ele envolve um valor ínfimo, se comparado aos R$ 2,2 bilhões aplicados na primeira etapa do projeto de despoluição do Tietê.

Falta de vontade política

Mas, se não exige gastos astronômicos, por que a tela de contenção ainda não foi instalada? Palmesan garante que já conversou com muita gente, inclusive com o governador Mário Covas, ainda durante sua primeira gestão, mas nunca conseguiu sensibilizar as autoridades para que priorizem esse projeto. E completa, lembrando que as comemorações do Dia do Tietê em Barra Bonita incluem um ato ecumênico: "Só falta apelar para Deus, pedindo que ele ilumine os nossos governantes".

Palmesan, entretanto, também identifica um outro fator que explica a demora em implementar o projeto: "Os municípios banhados pelo Tietê são desunidos. Dividindo-se a extensão do rio em três áreas, o Alto, o Médio e o Baixo Tietê, pode-se dizer que apenas o Médio Tietê, que inclui Barra Bonita, está reclamando da situação do rio. Os municípios do Alto Tietê, como Salto, Pirapora e Santana do Parnaíba, já se cansaram de protestar e foram vencidos, porque lá o rio está praticamente morto. E no Baixo Tietê, em cidades como Sabino e Pereira Barreto, a poluição ainda não chegou e o rio se mantém praticamente intacto. Por isso, eles também não reclamam. Barra Bonita, portanto, é o "termômetro" do Tietê, lugar que já sente a poluição, mas ainda luta contra ela. Só que seria mais fácil conseguir resultados se todos os municípios banhados pelo rio se unissem".

Tela de contenção já existe em São Paulo

Segundo Hélio Palmesan, o projeto da tela de contenção já foi testado, com sucesso, em São Paulo, onde continua funcionando. Fica na Usina Elevatória de Traição, que serve para bombear a água do rio Pinheiros para a represa Billings. Essa represa foi construída para garantir o funcionamento da usina hidrelétrica de Henry Bording, situada no litoral paulista e responsável por fornecer energia elétrica para a capital. Quando o nível do reservatório de

água se reduzia bastante (em razão da estiagem, por exemplo), era necessário completá-lo com a água do rio Pinheiros. Mas esse rio era bastante poluído e, para filtrar sua água, foram instaladas várias telas de contenção, como aquelas que Palmesan sugere sejam usadas no Tietê. Segundo órgãos do próprio governo estadual, as telas detém 7,5 mil toneladas de detritos por ano. Grande parte desse material é reciclável e pode gerar lucros a quem recolhê-los. Esse aspecto é ressaltado por Palmesan: ele prevê que a quantia de material reciclável retido na tela do rio Tietê seja muito maior, permitindo lucros consideráveis.

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