Queda dos juros é muito pequena para setor produtivo
Queda dos juros é muito pequena para setor produtivo
Texto: Luciano Augusto
Ainda que a redução da taxa de juros Selic (de 19,5% para 19%) sinalize a passagem da turbulência política e uma melhora dos números da economia nacional, as pressões externas, como as eleições argentinas em outubro, ainda preocupam. Já no que se refere as melhorias para o setor produtivo, a queda dos juros significa muito pouco.
A nova taxa, anunciada pelo Comitê de Política Monetária
(Copom) vale até 6 de outubro, quando o organismo federal volta a se reunir.
O economista e professor universitário, Reinaldo César Cafeo, 38 anos, analisa que "a queda de 0,5% percentual é insignificante" e, com as restrições ao crédito por parte dos bancos, o setor produtivo ainda deve enfrentar dificuldades. Os bancos continuam extremamente precavidos, aponta Cafeo, "e não estão dispostos a correr riscos". Portanto, só autorizam os empréstimos quando as garantias são bastante seguras. Com o excedente, estão comprando títulos do próprio Governo.
Em função das pequenas reduções das taxas de juros cobradas pelos bancos e esta posição conservadora das instituições financeiras, quem mais deve sentir dificuldades é, outra vez, quem mais está precisando de dinheiro: o setor produtivo.
Para o economista, pouca coisa vai mudar se não houver uma mudança de estratégia do Governo. "A tese seria o Governo sair desta coisa de ficar de fora do mundo real e criar melhores condições para as empresas ou pessoas, com problemas de oferecimento de garantias, no critério de avaliação de risco na liberação de crédito", avalia Cafeo.
Esse viés neutro (sem um indicativo da tendência dos juros) indica um limite, ou seja, não há espaço para grandes reduções e as pressões externas, questões políticas, câmbio, superávit, controle das contas públicas, para citar alguns fatores, podem fazer com que o Banco Central tenha que aumentar as taxas novamente. Por outro lado, caso estes fatores acumulem números positivos, as taxas poderão cair mais um pouco.
"A importância da taxa básica para o Governo
é que ela reduz o custo da rolagem da sua própria dívida", explica o economista.
Ele lembra também que embora o País tenha registrado um superávit primário próximo dos R$ 5 bi em julho, os gastos com os juros da dívida bateram em R$ 97 bi.
As eleições gerais na Argentina, em outubro, é outro fator de risco. Dependendo do resultado, os investidores estrangeiros "podem se assustar", provocando uma pressão interna sobre o câmbio. Isso forçaria o Governo a mudar sua posição em relação as taxas de juros, para manter este capital no Brasil.
Para as pessoas físicas, os juros mensais cobrados por financeiras, bancos e comércio estão em 8,76%, conforme pesquisa da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Afenac), feita entre 13 e 20 de setembro.
Juros a longo prazo
A queda na Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) para a regional do Centro das Indústria do Estado de São Paulo ( Ciesp), de 14,05% para 12,5%, não deve ter tanto reflexo, principalmente para as pequenas e médias empresas.
Isso porque para se beneficiar com esta taxa, o financiamento teria que ser para uma quantia superior a R$ 6 milhões, diretamente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). "Isso é difícil, porque as empresas estão quebradas e os pequenos não conseguem o cadastro para levantarem esse dinheiro", aponta Sérgio Togashi, industrial e diretor adjunto da regional do Ciesp, em Bauru.
Na sua opinião, a medida favorece os agentes financeiros,
"porque passam a ser intermediários e parceiros destes empréstimos".
Otimismo agora, diz Togashi, seria precipitado, porque permanecem as dificuldades de crédito.
A nova TJLP vigorará no período de 1.º de outubro a 31 de dezembro. A taxa continua sendo válida para o período de 12 meses e calculada trimestralmente.