Geral

Condição sócio-econômica

Márcia Buzalaf
| Tempo de leitura: 10 min

25% da população de Bauru estão abaixo da linha da pobreza

25% da população estão abaixo da linha da pobreza

Texto: Márcia Buzalaf

Em Bauru, 70.812 pessoas (21,21% da população) vivem na linha da pobreza, o que significa uma renda de R$ 149,00; e 17.160 pessoas (5,14%) estão na linha da indigência, ou seja, ganham R$ 73,00 mensais. Isso significa que mais de um quarto de Bauru vive com o mínimo para a alimentação e sobrevivência. Apesar disso, o quadro pessimista da cidade reflete uma situação melhor do que a do estado de São Paulo, de acordo com pesquisa feita pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), com base na Pesquisa Nacional de Domicílio (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 96 atualizados para os valores de junho deste ano. Nesta reportagem, veja qual a situação real da pobreza em Bauru, como ela vem sendo transformada, seus números, caminhos e os exemplos de pessoas que tiveram que aprender a viver com muito pouco.

O conceitos de quem vive na linha da pobreza e da indigência mostram a gravidade dos números. A linha da pobreza abrange toda a população que ganha até R$ 149,00 mensalmente. Este valor, também trazido para junho deste ano, leva em consideração alimentação, transporte, habitação e serviços públicos em geral.

Já a linha da indigência revela um quadro mais dramático

- leva em conta o consumo calórico mínimo per capita recomendado pela Organização Mundial da Saúde

(OMC), baseado apenas em alimentos. No Brasil, este mínimo em alimentação custa R$ 73,00, se tomados como base os valores de junho deste ano.

Na análise do economista Carlos Roberto Sette, o Estado de São Paulo melhorou nesta década. Os dados mostram a evolução e a involução do nível sócio-econômico da população durante os últimos quase 30 anos. Em 1970, a mesma pesquisa revelava que o País abrigava 67,90% de pessoas na linha da pobreza; em 1980, a porcentagem caiu para 39,47%; e, em 1991, o índice de pobreza voltou a subir, chegando em 45,46%.

O Estado de São Paulo e a cidade de Bauru seguiram a mesma lógica do resto do território nacional. A média estadual de pessoas na linha da pobreza passou de 41,73% (1970) para 12,83% (em 80) e 17,40% (em 91), atingindo, na média trazida para este ano, 24,55%.

Na análise feita por Sette, Bauru está abaixo da média do Estado de São Paulo, que é de 24,55% de pobres contra 21,21% em Bauru. Na linha da indigência, Bauru também se contextualiza com um índice mais satisfatório do que a média do Estado, que é de 8,18% de pessoas vivendo com o consumo alimentar mínimo.

Mesmo assim, os dados de Bauru não são animadores, já que a cidade é a 14.ª no Estado que tem maior número de indigentes e a 21.ª que mais concentra pessoas na linha da pobreza.

A renda domiciliar per capita de Bauru revelada pela pesquisa

é de R$ 347,78, o que significa um nível de concentração de renda bem alto para a cidade, já que mais de 25% da população que aqui reside tem renda de R$ 149,00 ou abaixo disso.

No Brasil, a incidência da pobreza atinge entre 23% na área de indigência (sendo 15% em áreas urbanas) e 45% no grau de pobreza menos acentuado (deste total, 37% em áreas urbanas).

A Defesa Civil entende por favela um aglomerado de moradias na

área urbana em condições precárias. Hoje em dia, Brito afirma, o Fortunato Rocha Lima é classificado como uma favela de concreto, justamente pela situação sócio-econômica dos seus moradores.

Na opinião de Álvaro José de Brito, coordenador da Defesa Civil de Bauru, vários fatores estão contribuindo para a abrangência da pobreza em Bauru. Os quatro grandes complexos penitenciários da região - em Avaré,

Álvaro de Carvalho, Marília, Pirajuí e Bauru

- são considerados atrativos da cidade, já que muitos familiares costumam acompanhar o detento. "Além disso, têm as várias casas de sopa da cidade que acabam atraindo mais gente para Bauru, porque salva as pessoas pelo menos com a comida", explica Brito.

Sette também aponta como um dos fatores que engrossa a linha da indigência a população nômade, que se desloca de um local para outro. "As pessoas se deslocam de um lugar para outro em busca de emprego, geralmente das cidades menores para as cidades maiores, e este deslocamento aumenta ainda mais o nível de indigência dos Estados mais bem classificados", analisa o economista. Situação econômica deve agravar quadro

Texto: Márcia Buzalaf

Se a política econômica do Brasil não mudar, a tendência é que o nível de pobreza e de indigência se mantenham no mesmo patamar ou até mesmo aumentem. Com o desemprego sendo o agravante desta crise social e econômica e a perspectiva do País não adotar políticas "desenvolvimentistas" nos setores produtivos, Bauru deve seguir a característica das capitais de abrigar os desempregados - mas sem estrutura.

A tendência é que a atual situação sócio-econômica piore a curto prazo, já que os problemas que mais agravam a pobreza na cidade são o desemprego e a habitação. Apesar da Companhia de Habitação de Bauru (Cohab) estimar um déficit de seis mil casas na cidade concentrado na população de "baixíssima renda", muitos vivem em casas, mas que não tem estrutura alguma. "Construir uma casa para algumas pessoas hoje é um plano de vida, que às vezes a pessoa até morre antes de concluir", analisa

Álvaro José de Brito, coordenador da Defesa Civil de Bauru.

O outro "fantasma" da pobreza, o desemprego, é conseqüência da política recessiva de não-crescimento da economia. O economista Carlos Roberto Sette explica que, no ano passado, o País não cresceu e, este ano, a previsão

é que a produção brasileira fique próxima de zero. "Imagina dois anos sem crescer com um crescimento populacional de 2,8% por ano", analisa.

Brito analisa que a falta de emprego gera conseqüências na estrutura psicológica do trabalhador, que agrava ainda mais este contexto: "O desemprego está virando doença, porque a pessoa se adapta com a situação e se acomoda, vira doença mesmo".

Por este motivo, Brito deixa de lado a responsabilidade do Estado e conclama os empresários para se reunirem e adotarem uma política de geração de empregos, que poderia melhorar e muito a situação da pobreza e da indigência na cidade. Para ele, de três a quatro mil empregos seriam suficientes para retirar várias pessoas da luta pela sobrevivência.

Para Sette, é perfeitamente viável retirar os mais de 5% indigentes de Bauru desta "classe social". "Para isso, tem que dirigir os gastos públicos. As pessoas têm que gastar menos com água, luz, e com este tipo de gasto", defende.

Quem mais sofre com a pobreza é justamente quem cresce no meio dela. Brito diz que as crianças que crescem neste meio perdem vários valores referenciais, importantes para a formação de uma pessoa. Quando jovens, geralmente são atraídos para suas conjunturas opostas mas muitas vezes igualmente alienadores: ou as igrejas evangélicas ou para o crack.

Pobreza "real"

Na questão da empregabilidade, a pesquisa mostra que os trabalhadores formais têm mais tendência de serem pobres do que os informais. Enquanto que 35% dos que estão na linha da pobreza estão na economia formal, 65% vivem de trabalhos informais.

A infra-estrutura destes lugares foi ampliada durante os anos do Real. De acordo com Brito, o fato das redes de água, esgoto e de eletricidade estarem mais abrangentes beneficia justamente as áreas mais pobres de um município, que antes não tinha acesso aos serviços públicos.

Na análise de Sette, o fato do Estado ter privatizado as geradoras e administradores de serviços públicos

é uma perspectiva de melhora, apesar do atual quadro destas empresas. Para ele, até agora não se viu resultado positivo ("apenas aumento dos preços"), mas historicamente está comprovado que só mesmo os recursos privados podem ser suficientes para levar energia elétrica, água, esgoto, telefonia e transporte para todos os cantos do Brasil de uma forma mais democrática.

Mesmo assim, não se pode dizer que esta melhora foi feita com planejamento. Brito explica que muitas das pessoas que aprenderam a viver recentemente com eletricidade e com rede de água e esgoto não têm noção de que terão que pagar uma conta no final do mês ou mesmo do valor que será cobrado pelo uso do serviço. "Ele não foi educado para saber que tudo tem um custo. Ninguém falou que cada gota d'água tem seu preço, cada minuto que você deixa a luz acesa vai ter que pagar", explica.

A falta de planejamento e de campanhas de conscientização da população, na opinião de Brito, praticamente anulam os benefícios desta ampliação do atendimento.

Brito e Sette também vêem o lado positivo do Plano Real, que proporcionou a estabilidade do preço da cesta básica. "Por menos que seja, o real proporcionou que a pessoa pudesse comprar um frango a R$ 1,00, se bem que uma coxinha também está custando R$ 1,00", analisa Brito.

Para o economista, a situação da classe mais baixa foi menos agravada nos anos de real justamente porque o preço da cesta básica não teve reajuste significativo.

"Desde o início do Plano Real, o reajuste da cesta básica foi entre 3% e 5%; o que subiu mesmo foi o custo do nível de vida da classe média", afirma.

Proposta 20/20

O que pode melhorar o quadro de pobreza e indigência no País, na opinião de Sette, é a melhora na distribuição dos recursos que são voltados para os serviços públicos. A Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu como meta mundial o gasto de 20% dos gastos públicos e 20% da ajuda financeira internacional em serviços sociais básicos. A proposta 2/20, assinada em 95, seria o suficiente para que os países eliminassem - ou pelo menos reduzissem significativamente - os problemas relacionados à pobreza e à indigência.

O Brasil é o país da América Latina que mais destina verbas em relação ao que produz para os gastos sociais: 20,9% do PIB. A média dos países da América Latina é de reverter 10,8% do PIB para os gastos sociais. "Gastamos mais, mas gastamos mal", diz Sette.

A grande distorção entre esta destinação e a realidade é justamente onde estes recursos são aplicados. Apesar de reverter 20,9% do PIB para gastos sociais, apenas 2,7% do PIB são voltados para os serviços sociais básicos, que são entendidos como educação, saúde, saneamento, alimentação e nutrição primárias. Para Sette, este problema faz com que a população tenha que continuar gastando dinheiro para resolver questões que deveriam ser geridas e oferecidas pelo Estado. "Quanto orçamento foi dado para ponte no Nordeste que nem mesmo rio tinha", lembra Sette.

Se a política recessiva da economia se mantiver durante este mandato presidencial e no próximo, o agravamento da pobreza e da indigência deve ficar ainda mais acentuado. Na opinião de Sette, a melhor saída para a situação destas classes sociais é a entrada de um governo social-democrata.

"Se for um governo neoliberal como este, ficaremos nessa. Tem que entrar alguém que realmente destine os recursos para o social básico", defende.

A cara da pobreza

- n.º de barracos de favelas: 985

- déficit habitacional: 6 mil casas **

- pessoas atingidas pela desnutrição: 20 mil

- óbito* por desnutrição: 45,95%

Fonte: Defesa Civil de Bauru

* de crianças entre 39 e 365 dias

** dados da Companhia de Habitação de Bauru (Cohab)

Mapa de Bauru

Representatividade da pobreza na população de Bauru

1970: 36,75%

1980: 11,06%

1991: 13,82%

1996/97: 21,21%

Fonte: IPEA

Mapa estadual

Porcentagem da população na linha da indigência

- Os quatro piores

Maranhão: 69,21

Piauí: 65,67

Bahia: 60,24

Alagoas: 58,42%

- Os quatro melhores

São Paulo: 8,18%

Roraima: 11,10%

Santa Catarina: 11,68%

Distrito Federal: 12,90%

Fonte: IPEA

Mapa mundial

Participação dos gastos com educação, saúde, securidade e habitação em alguns países da América Latina em relação ao PIB

Peru: 1,8%

Guatemala: 3,3%

República Dominicana: 4,7%

Bolívia: 6,3%

Paraguai: 7,1%

Venezuela: 8,5%

Colômbia: 12,0%

Chile: 13,4%

Argentina: 18,6%

Costa Rica: 20,8%

Brasil: 20,9%

Fonte: IPEA

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