Organizações têm que se adaptar à civilização digital
Organizações têm que se adaptar
à civilização digital
Texto: Patrícia Zamboni
A característica fundamental da nossa civilização, a "civilização digital", é o conhecimento.
"A arquitetura da sociedade está mudando. Vivemos hoje a chamada civilização digital, onde tudo é virtual, tudo é ultra-conectado. É uma civilização baseada no conhecimento, e não baseada na matéria. Então, pode se falar em arquitetura da civilização e das organizações, que têm que se adaptar
à essa nova realidade, segundo o consultor Waldez Ludwig, que esteve em Bauru para proferir a palestra "Novas arquiteturas organizacionais para o mundo digital".
Para Ludwig, quem não se adapta, desaparece. Ele lembra o caso da Enciclopédia Britânica, uma empresa de 500 anos que de repente sumiu, porque ninguém mais compra enciclopédia de papel e eles não quiseram lançar em CD. "Se o sonho do meu pai era dar uma Enciclopédia Britânica pra mim, hoje o sonho do pai é dar um microcomputador ao seu filho, que já vem com a enciclopédia", diz Ludwig.
Com isso, ele quer mostrar que as empresas que não estão se adaptando à essa civilização digital estão sendo e serão "engolidas" pelo "mundo virtual", pela era da civilização que busca o conhecimento através das formas mais modernas e velozes possíveis.
Durante a palestra, Ludwig trilhou caminhos envolvendo temas como os valores organizacionais do fim do século, criatividade como recurso competitivo, entre outros.
Outro aspecto citado pelo consultor é a arquitetura pessoal, já que as pessoas também têm que mudar para viver nessa civilização. "É uma transformação de milênio. Não podia se esperar que o milênio ia trocar e que ia continuar tudo igual. É uma mudança muito violenta mesmo, e os profetas avisaram que no final do milênio o que ia valer era o espírito, e a matéria perderia a importância. E é isso que aconteceu", observa. Nesse sentido, o que se constata é que o perfil das empresas bem sucedidas da atualidade mudou completamente. Segundo Ludwig, as empresas que mais crescem no mundo atualmente são aquelas que não têm patrimônio. "Antigamente o patrimônio rendia bem, tanto que era muito bom investir em imóveis, por exemplo. Hoje uma empresa não vai investir em imóveis, ela tem coisa melhor para investir. Também existem empresas que estão vendendo seus imóveis e alugando, porque é muito mais rentável", analisa o consultor.
A era do conhecimento e da capacitação
De acordo com Waldez, o consumo também contribuiu para essa mudança. Segundo ele, as pessoas não avaliam mais o produto pela qualidade porque elas supõem que a qualidade é característica inerente. Ou seja, as pessoas já não colocam mais a qualidade em primeiro lugar na hora de consumir, porque compram a marca. "Meu avô analisava um sapato durante horas antes de comprar. Nossos filhos não analisam nada, eles analisam a placa da loja, dizendo que se for daquela loja, pode comprar qualquer coisa, porque os jovens querem ostentar a grife. E a grife é espírito, a grife é a idéia que está por trás da empresa", observa Waldez. Segundo o consultor, no capitalismo o lucro é obtido na medida em que o conhecimento estiver agregado ao produto ou ao serviço. Se tiver muito conhecimento agregado, a margem de lucro será alta. E vice-versa. Por isso é que setores como agricultura e pecuária têm margem de lucro muito baixa, porque têm pouco conhecimento agregado, segundo Ludwig. "É uma coisa linda o que está acontecendo porque o conhecimento, enfim, é valorizado. Mas, ao mesmo tempo é uma tragédia, porque a maioria das pessoas não detêm conhecimento para tocar essa economia, então, nós temos esses
índices imensos de desemprego no mundo inteiro, com exceção dos Estados Unidos e Japão", afirma. Segundo ele, o desemprego no Brasil ainda é pequeno porque o País vive uma realidade defasada em relação ao mundo.
"Se nós estivéssemos acompanhando a evolução da economia, o índice de desemprego seria maior. Esse é o caso da Alemanha, que está com índice de desemprego muito grave, não porque está faltando emprego, está faltando gente capacitada para trabalhar".
Quanto à questão da capacitação profissional, Ludwig faz um alerta importante e válido a todos, empregados ou desempregados. Segundo ele, não é uma questão de "saber das coisas" e passar a vida estudando. "Tem PHD desempregado também. A questão é o conhecimento relevante. Hoje em dia as empresas precisam de pessoas versáteis, não adianta mais a função da pessoa especializada em uma área só", afirma. "É preciso que a pessoa, além de ser um grande especialista, saiba passar o conhecimento e tenha noções amplas sobre o que acontece no mundo. Tem que entender de marketing, custos, métodos de qualidade, tem que saber se comunicar", alerta Ludwig.
Riqueza material x riqueza humana
Mas é difícil exigir que um grande número de brasileiros tenha um certo nível de conhecimento relevante com a estrutura vigente, o que Waldez Ludwig lamenta. "Na magnitude do Estado, a consciência de que a diferença que nos faz pobres em relação ao resto do mundo não é nossa riqueza material. É nossa riqueza humana. Infelizmente, 32% dos brasileiros não têm a quarta-série do primeiro grau. Nós estamos entrando numa economia baseada no conhecimento. Hoje, qualquer supermercado, para qualquer função que vai ser desenvolvida, exige segundo grau completo", ressalta o consultor. Quanto a esses números, Ludwig faz questão de ressaltar que isso significa que 32% da população está sendo imediatamente afastada do mercado de trabalho por não possuir um nível mínimo de conhecimento. Para ele, é urgente a necessidade de formação de um mutirão para resolver o ensino básico no Brasil. "Isso tem que ser resolvido o mais rápido possível".
O grande problema, segundo Waldez Ludwig, não são as crianças, já que em muitas cidades de vários Estados do País há um grande número de crianças na escola. Entre elas, o consultor cita Bauru. "O problema são os adultos, o homem e a mulher de 45 anos que ficaram desempregados porque não completaram a quarta série do primeiro grau. Trazer essa pessoa de volta para a sala de aula
é muito complicado. E mesmo que se consiga levar essas pessoas para uma escola, você não consegue começar a dar aula, porque elas não têm o aparato mínimo de cognição para aprender", observa. Como requalificar pessoas que não tiveram acesso à educação básica é um problema gigantesco da realidade brasileira.
Neste momento, Ludwig exalta as empresas que têm essa consciência e que fazem algo por isso, ao mesmo tempo que critica a lentidão do governo. "As empresas que estão indo bem, estão resolvendo isso por conta própria. Não estão esperando nada do governo. São empresas que têm salas de aula, que têm professores, que investem maciçamente em treinamento. Mas ainda tem muitas empresas que acham que isso
é papel do governo. E vão falir. É apenas uma questão de tempo", afirma Ludwig. Segundo ele, as ONGs (Organizações Não-Governamentais) têm um papel muito importante nessa caminhada, mas não têm condições de desenvolver um trabalho de massa.
Para quem está desempregado, o conselho do consultor, psicólogo e analista de sistemas é pesquisar o motivo de estar nessa situação. "A primeira tendência da pessoa
é dizer que a cidade vai mal, que o País vai mal, está em recessão, e é por isso que ficou desempregado. Não. A culpa de você estar desempregado não é só do governo. Se pesquisarem, noventa e nove por cento das pessoas vão descobrir que não detêm conhecimento relevante para fazer frente às vagas que hoje existem", afirma Ludwig. Uma alternativa proposta por ele é repensar tudo o que foi e está sendo feito até então. Para Waldez Ludwig, neste final de milênio
é preciso perder o medo de deixar tudo que já foi feito para trás e recomeçar. "Será que eu não estou na profissão errada?", é o que as pessoas devem analisar, na opinião de Ludwig.
"As pessoas gastam muito tempo pensando no passado. O que já foi, acabou. É preciso olhar para frente", conclui Waldez Ludwig.