Geral

Transgênicos

Andréia Alevato
| Tempo de leitura: 4 min

Investimentos em cultura transgênica são altos

Investimentos em cultura transgênica são altos

Texto: Andréia Alevato

Tecnologia do DNA recombinante estabelece novos paradigmas na área da genética, e, conseqüentemente, do melhoramento das plantas, segundo pesquisadores

As estimativas econômicas do mercado mundial de sementes para o ano 2.000 são de US$ 27 bilhões. Destes, prevê-se que cerca de US$14 bilhões, ou seja, 50%, serão de sementes transgênicas, portadores de genes de resistência a herbicidas, pragas e doenças.

"É claro que existe um interesse comercial muito grande em se produzir alimentos transgênicos, mas não é só isso. Em muitos lugares do mundo não há espaço para plantar e a população precisa comer. Os alimentos transgênicos poderão ajudar nesse ponto, porque a produção será maior, porque não haverá perdas, em um espaço menor", afirmou a endocrinologista Maria Cristina Corradini.

Segundo os pesquisadores do Centro de Genética, Biologia Molecular e Fitoquímica do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), os investimentos realizados pelas empresas que lideram o mercado de sementes de plantas transgênicas foram vultuosos e, salvo alguma catástrofe, deverão ocupar uma fatia ainda maior de mercado nos próximos anos. Em contrapartida, a aceitação ou não dos alimentos transgênicos não é pacífica. Importantes debates sobre o tema estão sendo conduzidos, tanto em nível nacional como internacional, de uma maneira geral, opondo cientistas da área de genética molecular aos representantes das áreas de meio ambiente e saúde e dos consumidores.

"O conhecimento científico acumulado nos últimos 20 anos de pesquisas, que permitiu a criação de um novo cultivar através da manipulação de genes, transcende ao debate sobre a aceitação ou não dos alimentos transgênicos. A tecnologia do DNA recombinante, como é chamada, estabelece novos paradigmas na área da genética e, conseqüentemente, do melhoramento de plantas", disse o pesquisador Walter José Siqueira. "A possibilidade de introdução de um gene numa espécie qualquer, através da manipulação deste gene, e independente do parentesco entre a espécie receptora e doadora do gene abre uma nova perspectiva para o melhorista. Esse procedimento poderia ser comparado a um dos métodos de melhoramento genético de plantas, conhecido como recruzamento. Neste, uma variedade já existente é sexualmente cruzada com uma que teria como função doar um gene de interesse à primeira. Os filhos deste cruzamento, contendo as características desejada, seriam retrocruzados com a variedade receptora do gene por várias gerações consecutivas, até que se consiga recuperar o padrão da variedade inicial acrescida do gene que se desejou transferir inicialmente. Claro que esse processo envolve várias gerações de cruzamento, seguido da seleção, o que poderia ser drasticamente encurtado pela transferência do gene via engenharia genética", completou o pesquisador do IAC, Carlos Colombo.

Outro aspecto destacado por Siqueira, é o da capacitação plena para obtenção de organismos geneticamente modificados, sejam eles de origem animal, vegetal ou microbiana.

"Os países desenvolvidos se lançaram numa competição acirrada pela descoberta, identificação, isolamento e sequenciamento de novos genes para patenteamento, visando sua utilização futura através de organismos transformados", afirmou Siqueira.

Neste contexto, o Brasil possui uma vantagem comparativa importante em função de sua vasta biodiversidade tropical e subtropical, um importante banco potencial de genes.

"O País também dispõe de importante germoplasma de variedades de diversas espécies vegetais, criados por várias empresas de pesquisas públicas na área do melhoramento vegetal, como o IAC, o Iapar, IPA, Embrapa, Universidades, entre outros. Embora tenhamos leis capazes de nos proteger em relação a detenção deste germoplasma, ou seja, proteção de cultivares, patentes, biodiversidade e sementes, é necessário que sejamos capacitados a manipular estes genes através da engenharia genética, como forma de evitar uma possível dependência futura no caso destes genes serem patenteados por outros países", ressaltou Siqueira.

Sobre a polêmica de aceitação ou não dos alimentos transgênicos, Siqueira afirmou que ela existe por falta de esclarecimentos à população do que são os transgênicos e como são obtidos, o que é biossegurança, qual o potencial de impacto na saúde e no ambiente e sobre as pesquisas criteriosas que vêm sendo adotadas ao longo do processo da obtenção dos cultivares transgênicos e outros organismos geneticamente modificados para se testar a viabilidade dos mesmos.

"A carência dessas informações conduziu a uma supervalorização dos possíveis malefícios e riscos das plantas transgênicas ao ambiente e à saúde humana e animal", completou Siqueira.

Para os dois pesquisadores do IAC, até que os resultados de pesquisas surjam e as dúvidas sejam esclarecidas, o binômio tempo e forças do mercado serão, inevitavelmente, os reguladores da implantação comercial definitiva das plantações de transgênicos no Brasil.

"Diante das pressões comerciais internacionais, pode-se afirmar, com grande margem de acerto, que é extremamente estratégico para o Brasil atuar nos dois mercados de exportação: transgênicos e não transgênicos. Para tanto, será necessário uma atuação clara, objetiva e eficiente dos órgãos públicos competentes, como ministérios e secretarias federais e estaduais, no sentido de normalizar e controlar dois sistemas de produção e comercialização de grãos, de plantas transgênicas e não transgênicas. Tudo indica que haverá mercado para ambos produtos num futuro próximo e qualquer afirmação conclusiva sobre o domínio de um sobre o outro é mera especulação", concluiu Siqueira.

Comentários

Comentários